Listas

Por Érico Assis

“A memória luta contra o tempo. É um cabo de guerra constante. Um dia, em outra terra, vais notar que os sons, os cheiros, as vozes que por toda vida te acompanharam não estão mais contigo. Só a memória pode recuperá-los. Então, vais tentar te concentrar, fazer força para lembrar de algo… da cor das paredes, de um sabor, de um nome de um alguém… e vais te dar conta que é tudo fugaz, que o tempo venceu a memória, que os perdeste. Aí, peço que lembre de teus amigos. Pois são eles que serão ao mesmo tempo inesquecíveis e guardiões daquilo que procuras, procuras, procuras e não consegues recuperar.”

Carlos Trillo faleceu em maio. Foi a motivação que eu precisava para sacar da estante El Loco Chávez, coleção da novelinha com o jornalista portenho que ele fazia com o desenhista Horacio Altuna para o Clarín, entre as décadas de 70 e 80. O trecho acima é a fala de Homero, o amigo idoso, quando Loco está partindo para nova vida na Espanha, bem no final da coleção. Segue uma página de silêncio, só com abraços e olhares lacrimosos, inclusive de quem lê.

(Horacio Altuna estava na FIQ. Queria falar com ele sobre esta página, mas duvidei que fosse conseguir, em portunhol, fazê-lo lembrar depois de tantos anos. Minha grande dúvida é se o texto era de Trillo ou uma citação. Contei isso a um colega, o especialista em quadrinho argentino Paulo Ramos, que levou a dúvida ao Altuna. Resposta: foi o próprio desenhista que escreveu. Trillo estava atrasado nos roteiros, e era Altuna quem estava de muda para a Espanha. Nunca vou saber a versão do próprio Trillo.)

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Foi impossível não reler “Lint”, só para confirmar que é o melhor trabalho da vida do Chris Ware. E isto pouco se fala, talvez, porque não há referencial para falar do que ele conseguiu. Também reli Blue Pills quando me convidaram para resenhar alguma HQ inexplicavelmente pouco conhecida. Depois li Castelo de Areia, e deu vontade de pegar a Pills de novo só para viver um pouco mais no traço do Frederik Peeters. Mas chegou a coleção nova de WE3, e sentei com ela para me maltratar pela oitava ou nona vez. Não tenho bichos de estimação, e acho que é melhor eu não ter.

Fechando as releituras, Três Sombras, agora sendo pai. Não foi mais assustador do que quando li na primeira vez, intercalando com A Estrada, do Cormac McCarthy. (Cyril Pedrosa, também no FIQ, disse que outras pessoas já lhe comentaram o livro do McCarthy, mas ele ainda tem que ler.)

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Tiago Elcerdo me mostrou a capa de Cinquemila Chilometri al Secondo, do Manuele Fior, e passei alguns minutos só olhando para ela. Levou meses para eu conseguir ler e, felizmente, conteúdo combinava com embalagem. Também foram meses admirando prévias e resenhas de Polina até poder botar as mãos e, mesmo eu não sendo quadrinista, sentir inveja mortal porque o Bastien Vivès não tem nem 30 anos.

A Kate Beaton e a Emily Carroll também ainda não chegaram aos 30, e a Carroll fez o primeiro quadrinho dela há dois anos. Falar o que do Brecht Evens, que recém chegou aos 25 este ano e já tem The Wrong Place e Night Animals, duas que passaram dias brincando na minha cabeça (e The Making Of, que só vou ler no ano que vem)? Acho que perdi o bonde. Se bem que o Rafael Coutinho tem a mesma idade que eu, e olha só o que é O Beijo Adolescente. Ou Drink.

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E aquela edição de Batman Inc. em que cada página — depois cada quadro, depois cada fala — é um high concept por si só, que renderia sequências de edições, sagas inteiras, cada uma? Grant Morrison diz que estava fazendo os quadrinhos que esperava ver em 2011. Eu não esperava que as edições do Warren Ellis em Secret Avengers fossem tão meticulosamente perfeitinhas, e que eu ainda conseguisse ficar empolgado com gibi de super-herói se não fosse por cliffhanger.

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Teve Habibi, do qual deixo para falar no ano que vem. Paying for It, que eu peguei com a expectativa mais baixa possível. The Influencing Machine, que tem conclusões discutíveis, mas prova que quadrinho pode tratar de temas chatos. Quai d’Orsay. Depois de anos na pilha para ler, encarei Cages e GoGo Monster. El Arte, do Juanjo Saez. Aquela edição de Love & Rockets. Todos aqueles indies fantásticos que eu só encontrei porque fui no FIQ.

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Listas de fim de ano são o clichê que eu adoro odiar, mas que também adoro fazer. Como sempre, li menos do que gostaria, talvez até menos do que devia, mas tive uma justificativa forte e uma carga de trabalho que, bom, aí não tenho justificativa. Em 2012, como todo no-ano-que-vem, eu vou ler mais e trabalhar menos. Arrã. Também não me livrei das promessas de fim de ano.

E você, quais foram seus melhores de 2011?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

6 Comentários

  1. […] são muito bons, mas eu esperava, sei lá, um Manuele Fior para salvar a minha vida (e aquelas promessas do fim de 2011 são só para rir, né?). Não […]

  2. Diana (admin) disse:

    Rodrigo, por enquanto não temos nenhum outro título do Chris Ware programado para lançamento.

  3. Rodrigo Lattuada disse:

    Também gostei de Asterios, mas não me deixou muita coisa depois de terminada a leitura. Me interessei bastante por esse Lint, do Chris Ware. Jimmy Corrigan foi das leituras que mais me marcou. Aliás, vem cá, a Companhia vai lançar mais alguma coisa dele (Ware)?

  4. Zeugma disse:

    Gostei bastante do Asteryos Polyp.
    Mas por algum motivo alguns experimentalismos gráficos (como os de Chris Ware) me dão a impressão de “frieza”. Gosto muito, mas – ao mesmo tempo – me distanciam da história.

    Gostei da crueldade de “Castelo de Areia” e a do “Pequeno Pirata”. E também adorei “Cachalote” (e suas outras crueldades menos evidentes).

  5. Arthur disse:

    Fracasso de Público (1 e 2), Ordinário, Daytripper, Três sombras, Scott Pilgrim 3, O pequeno livro do Rock (e o dos Beatles), Black Hole, nova York (Eisner).

    Os favoritões mesmo foram MARKET DAY, ASTERIOS POLYP e KOKO BE GOOD.

  6. Victor disse:

    Cara, eu quero ler esse “El Loco Chávez”… Será que sai aqui algum dia?

    Enfim, os melhores que li no ano foram: a coleção do Blacksad (1 a 4), A Trilogia Nikopol, Asterios Polyp, Daytripper, Solanin, Maus, Retalhos, It’s a Good Life if You Don’t Weaken, e o pouco que li de Sweet Tooth e Strangers in Paradise.

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