Moleskines e o mito que a gente compra

Por Carol Bensimon

SML Notebooks / 20090903.10D.52443 / SML

Você certamente já ouviu falar dos moleskines, aqueles caderninhos pretos com um elástico e páginas pólen, os quais, como lhe informa a cinta de papel assim que você desembolsa €11,50 por um modelo padrão — há moleskines de grandes dimensões, e agendas, e bloquinhos especiais para cidades importantes do mundo — é o “lendário bloco de notas usado por Hemingway, Picasso, Chatwin”. Ao desembalar a pequena joia, mais nomes de peso vão surgir a sua frente em um folheto detalhado que abarca a “história” dos moleskines (isso se você não tiver feito a compra já inebriado pelo seleto grupo de ex-usuários): Van Gogh, Matisse, Oscar Wilde, Céline, Apollinaire. Mas o que podemos dizer é que, se todos esses monstros das artes estivessem vivos, ficariam felizes em processar a empresa atualmente sediada em Milão, cujos cadernos são fabricados na China em razão da experiência milenar do país com o papel (aham), vendendo 4,5 milhões de unidades por ano em todo o mundo. Por quê? Chegaremos lá. Antes de prosseguir, no entanto, é preciso dizer:

— Não se deixe enganar pela minha língua afiada. Eu uso moleskines.

A questão envolvendo a veracidade parcial dessas informações — Hemingway usou, Van Gogh fez esboços neles, etc— vem do simples fato de que a empresa que os fabrica foi criada em 1998. Isso. Quando Chumbawamba colocava a canção “Tubthumping” nas paradas de sucesso do mundo. Quando Bill Clinton maculava o vestido azul de Monica Lewinsky.

O que acontece é que todos esses artistas citados usavam cadernos de bolso com capa de couro ou tecidos envernizados, de diferentes fabricantes e procedências, mas que, num golpe sensacional e maldoso de marketing, foram considerados todos como membros da recém-criada família moleskine. Palavra que, aliás, vem de pele de toupeira. Hemingway, em Paris é uma festa, menciona que estava escrevendo um conto em um caderninho. Essa simples passagem foi a responsável por colocá-lo no rol de usuários do caderno preto. Mesmo que o dele fosse azul.

Mas o interessante, a partir disso, é pensar no que nos leva a consumi-lo. Seremos melhores escritores porque temos um moleskine? Estaremos, ao tomar notas em um específico caderninho, dialogando com escritores e poetas do passado? Eu diria: é claro que queremos mais do que tudo acreditar na mágica da ferramenta. Angustia-nos saber que, no fim das contas, tudo depende de nossas cabeças e do trabalho pesado. O fotógrafo quer a melhor câmera, o desenhista cobiça uma caixa de lápis Caran d’Ache, a nós sobra o simples papel que, aliás, já não faz mais parte do processo de escrita propriamente dito (não para as novas gerações, ao menos); resta o bloquinho para anotar ideias soltas na mesa de um café. O que lança uma outra hipótese: será o moleskine o rótulo que queremos colar em nós mesmos? No espaço público, para quem domina o “código”, ele prontamente nos identifica como artistas cheios de ideais.

Além do desejo de pertencimento, e da possibilidade de comprá-lo, entrando imediatamente em um grupo seleto, precisamos manter uma ponte com o passado. Não estamos bem certos de que as coisas mudaram para melhor. As câmeras fotográficas estão aí, mais fáceis e fiéis que nunca, mas estamos fartos do realismo, queremos manchas nas imagens, cores distorcidas, memórias de 5 minutos atrás que já nasçam velhas de décadas. O Word está aí, e os softwares que criam curvas dramáticas para o seu romance em andamento, e fichas de personagens e sei lá mais o quê. Mas a gente ainda quer ver nossa letra no papel, a gente quer riscar as palavras, ter más ideias que não possam ser apagadas,  e sentir que está fazendo o mesmo gesto que um poeta um dia fez em uma trincheira na Primeira Guerra.

P.S. 1: grande parte das informações citadas foram retiradas do artigo Le “Moleskine d’Hemingway” ou la magie du marketing.

P.S. 2: existe uma infinidade de sites dedicados a desenhos feitos nas páginas dos moleskines. Aqui há um exemplo disso. Repare que o que gostamos de ver não é somente o desenho em si, mas o fato de ele estar inserido no caderno. Como se isso desse um tipo de veracidade louvável, ausente em uma simples imagem feita à mão e passada para o computador. Ou eu posso estar falando bobagem.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

65 Comentários

  1. Elizabeth P Vilela disse:

    Eu adotei os cadernos de cidades, como Amsterdam, Paris e Roma, que visito com frequência, para anotar locais dos quais gostei, e pretendo voltar. Além disso, ele contém o mapa da cidade onde se pode marcar estes pontos de interesse.

  2. Ótimos argumentos. Os moleskines, de fato, são uma graça e muito práticos. O curioso deles, assim como de tantos outros produtos lançados no mercado, é um caráter exibicionista embutido no seu processo de compra e de consumo. Junto ao moleskine, compra-se, igualmente, a ideia de “querer ser algo ou alguém”, onde o “querer” é mais importante do que o “ser”. Há pessoas que tornaram-se ‘filósofas’, ‘escritoras’, ‘poetas’, ‘desenhistas’ desde que adquiriram seus moleskines. Não penso que isso seja ruim, mas, ao mesmo tempo, é um pouco patético alguém condicionar seus surtos de criatividade a um produto, seja pelo seu design, seja pela sua simbologia. Para mim, a nossa “caixola” continua sendo a melhor fonte de matéria-prima para a arte, literatura, etc. A forma como as ideias se materializam, não é relevante, o que importa é que já existem e estão legíveis, num moleskine ou não.

    Por outro lado, é compreensível as pessoas se aferrarem ao moleskine como uma carteira de identidade; num mundo permeado por transformações sucessivas, que fragmentam a nossa identidade e caráter (vide Richard Sennet), sobretudo na indústria do consumo, os produtos são os seus maiores aliados no modo como querem ser vistas e se ver.

  3. […] seja um, pagar o preço não é coisa que se possa fazer sempre que surge a necessidade. Aliás, leia aqui o que a Carol Bensimon escreveu sobre essa “lenda de papel”. Pensando nisso, que tal fazer uma arte ecologicamente correta e economicamente viável fazendo o […]

  4. Olá, Carol! Certamente a ideia que o Moleskine nos passa é o que mais encanta… Lá estava eu, dias atrás, filosofando com um amigo no café da cidade, falando do glamour de ler um livro “cult” (no meu caso atual, Ensaios sobre Literatura) no Café… Não necessariamente pelo exibicionismo ou pela ideia “o que os outros irão pensar”, mas, talvez, por ter visto outros escritores fazerem e, com este gesto, sentir-me como eles… A foto símbolo em meu blog mostra-me escrevendo na FLIP, no meu “moleskine” temático. Eu precisei desta sensação, deste ambiente, para identificar-me mais com o ofício. Mas isso não é essencial. O principal, como você disse, é o trabalho pesado e o que está em nossa cabeça. É este, de fato, o diferencial. Porém, se estes “mimos” nos ajudarem, por que não?
    Abs,
    Camila Pigato

  5. […] listas dos melhores livros de 2010Moleskines e o mito que a gente compraSaudade não tem remédio25 anos da Companhia das LetrasConcorra a exemplares de “Viagens de […]

  6. Ori + Usagi disse:

    […] fato de eles usarem pequenos cadernos de notas pretos com capas impermeáveis (entenda a história aqui), é inegável a qualidade dos produtos e a variedade de opções oferecidas. Embora, no fim das […]

  7. Lilian disse:

    artistas, escritores ou apenas rabiscadores…

    O moleskine em páginas pólen, agradável aos olhos, pode
    ser apenas molduras para criatividade em traços… mas para quem
    sabe usá-lo, um moleskine é um moleskine… e não apenas
    um caderninho caro em páginas pólen…

    adoro!

  8. Pedro disse:

    Muito boa a discussão levantada, faço uma interpretação semelhante do fenômeno que é o Moleskine. E no final das contas também uso moleskines hahahahahahaha

  9. Jéssica disse:

    Nossa, sempre quis ter um Moleskine desde que vi pela primeira vez, não pela fama dele, eu nem sabia que era famoso! Mas simplesmente pelo fato de ser bonito, sabe, nem todo mundo compra coisas pela propaganda, as pessoas podem GOSTAR, achar bonito, etc. Da maneira como você escreveu até parece que todo mundo que usa Moleskine é pra pagar de artista/escritor/ou algo assim. Tão ridículo quanto comprar um caderno achando que vai virar um gênio é criticar alguém por ter um caderno daquela marca.

  10. Helia disse:

    Eu era uma das pessoas que queria ter um moleskine, mas para mim eles são muito caros para a qualidade que nos oferecem. Então decidi fazer o meu próprio caderno.
    Reparei que poderia fazer cadernos de boa qualidade e por um bom preço para outras pessoas.
    Agora, eu e o meu namorado, temos feito alguns cadernos e gostamos de verdade desse trabalho pelas inumeras possibilidades de personalização.

    Podem ver os nossos cadernos aqui: http://www.facebook.com/PaperIdeas
    Esperemos que gostem.

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