Festa no covil

Por Juan Pablo Villalobos (Tradução de Andréia Moroni)


Foto por Renato Parada; capa por Elisa von Randow

Festa no covil conta a história de Tochtli, um garoto que quer um hipopótamo anão da Libéria para seu zoológico particular. Um hipopótamo anão da Libéria? Claro, por que não? Por que se conformar com um cachorro, um gato ou um canário?

O normal seria que, se um garoto quer um hipopótamo anão da Libéria como animal de estimação, pensássemos que sua relação com a realidade é, digamos, estranha, distante ou irreal. (“Ele tinha uma relação irreal com a realidade”, eu gosto dessa frase.) No entanto, Tochtli tem seus motivos para acreditar que pode ter tudo o que quiser na vida. Seu pai, Yolcaut, é um poderoso traficante. Ambos vivem trancafiados numa mansão imensa, luxuosa e hiper kitsch localizada no meio do nada. Eles têm tigres e leões. Gaiolas cheias de pássaros exóticos. E agora embarcam numa aventura para conseguir um animal raro, em perigo de extinção.

É verdade que Tochtli tem uma relação engraçada com a realidade. Pensando bem, no México dizemos que o engraçado é parente do feio, então seria melhor dizer que sua relação com a realidade é extravagante. Ele adora chapéus e está sempre de chapéu. Lê o dicionário todas as noites, e de lá tira palavras difíceis como sórdido, patético ou nefasto. Ele também gosta dos franceses, que inventaram a guilhotina, e dos filmes de samurais com seus sabres fulminantes. Ah, eu já estava esquecendo, claro, tem dias em que ele passa horas jogando playstation.

Ao redor de Tochtli, perambulando pelos cômodos da mansão, há algumas pessoas, umas treze ou catorze: seu professor particular, empregados, seguranças, prostitutas, traficantes e um ou outro político que às vezes vem jantar e conversar sobre negócios importantes. Mazatzin é o tutor de Tochtli e se encarrega de sua educação e de ensinar a ele coisas fundamentais para todo garoto latinoamericano, por exemplo: que os gringos americanos têm a culpa de tudo. Os malditos gringos de merda. E também: que os espanhóis roubaram a nossa prata.

Dizem que a mansão de Festa no covil é uma metáfora do México atual, imerso em um estado permanente de psicose coletiva devido à guerra contra as drogas do presidente Calderón. O livro foi classificado, junto com outras obras recentes, como uma narconovela, um gênero que antes alcançou o auge na Colômbia. Mas a história que Tochtli conta não é a épica de um criminoso, é a história íntima de uma família, o relato do cotidiano de um pai obcecado em proteger o filho e de um filho que tenta aprender a viver. E a sobreviver. Porque, no fundo, este romance é a história que escrevi para meu filho mais velho, que hoje mora no Brasil: um romance sobre a inocência, a solidão e o poder, uma história sobre a realidade desse país que também é dele, esse México ferido.

[Festa no covil tem lançamento previsto para 6 de fevereiro.]

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em 1973, em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. É autor de contos, crônicas de viagem e crítica literária e de cinema. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países, incluindo Itália, EUA, Israel e Turquia. A edição britânica foi selecionada pelo jornal The Guardian entre os cinco finalistas do First Book Award.

13 Comentários

  1. […] depois enviei o manuscrito do meu primeiro romance, Festa no covil, a minha editora favorita na Espanha, Anagrama, que era a editora de Bolaño. Uns dias mais tarde […]

  2. […] Folha de São Paulo       Companhia das Letras     Blog Companhia das Letras […]

  3. […] Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos (Tradução de Andreia Moroni) Tochtli é um pequeno príncipe herdeiro do narcotráfico mexicano. Fechado numa fortaleza no meio do nada, engana a solidão colecionando chapéus e palavras exóticas. Ele também tem uma ideia fixa: completar seu minizoológico com hipopótamos anões da Libéria e é bem capaz de conseguir que o rei, Yolcault, atenda seu desejo. Involuntariamente assustador e hilário em sua cândida crueldade, Tochtli relata sua própria educação sentimental, mostrando o coração do crime para além do bem e do mal. Nas ingênuas e disparatadas especulações desse improvisado detetive-antropólogo, atravessadas por suas fantasias e caprichos infantis, revela-se um quadro sinistro e doce como uma caveira de açúcar. Leia o post sobre a capa do livro, e um texto do autor. […]

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