90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922

Na noite de 13 de fevereiro de 1922, curiosos, estudantes, figurões da política e sobrenomes de tradicionais famílias paulistas compareceram ao Teatro Municipal para a inauguração da Semana de Arte Moderna. Iniciativa de representantes da elite de São Paulo e de talentos da nova geração, como o pintor Di Cavalcanti e os escritores Mário e Oswald de Andrade, a Semana, com o passar dos anos, transformou-se numa espécie de mito sobre a fundação da cultura moderna no Brasil. Noventa anos depois, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves mescla reportagem e relato histórico para revisitar os principais fatos e personagens da semana mais polêmica do país.

Veja abaixo o trailer do livro 1922 – A semana que não terminou, e leia uma entrevista rápida com o autor feita pelo seu editor, Thyago Nogueira.

Como surgiu a ideia de realizar a Semana e como foi a repercussão da imprensa na época?
A ideia de organizar uma Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal foi fechada no final de 1921, depois de um encontro entre os rapazes modernistas de São Paulo com dois cinquentões: o escritor e diplomata Graça Aranha, que voltava de uma temporada na Europa, e o fazendeiro e mecenas Paulo Prado, de rica e influente família paulista. Esses contatos aconteceram em outubro e novembro.

Por influência de Paulo Prado, um homem esclarecido e culto, a ideia teve o apoio de um time de figurões da elite paulista, que se reunia no Automóvel Clube.

A notícia de que seria realizada na cidade uma semana “futurista” — como alguns a chamavam —, com o patrocínio de representantes de famílias tradicionais, causou repercussão. Houve chacotas, ataques, polêmicas. Os modernistas tinham acesso privilegiado à imprensa. Menotti escrevia crônicas culturais e cuidava da edição política do Correio Paulistano, órgão oficial do PRP, o partido do governador Washington Luís. Oswald era jornalista conhecido, que teve sua própria revista e escrevia para o Jornal do Comércio. E Mário foi convocado para polemizar na Gazeta com um sujeito que usava o pseudônimo Cândido e detonava, aliás muito bem, o futurismo…

Como foi o xadrez que antecedeu a realização da Semana e quem eram as cabeças do evento?
O tabuleiro era um país jovem, que experimentava, à sua maneira, as mudanças técnicas e socioeconômicas do novo século, aproximava-se do centenário de sua independência, tentava definir sua identidade e preocupava-se com o futuro. Em todos os campos, inclusive o da arte e da cultura. Naquele país havia uma força emergente, que já tinha conquistado poder econômico e político, chamada São Paulo. A riqueza do café transformava o estado e a capital, que crescia de maneira acelerada — embora em 1922 contasse com 600 mil habitantes, metade da população do Rio. Nessa cidade emergente, uma nova geração de jornalistas, escritores e artistas participava das discussões e tinha ideias renovadoras — ou vagamente renovadoras — sobre pintura, música, literatura etc. Eram pessoas que tinham acesso a revistas estrangeiras, falavam línguas e alguns já tinham conhecido a Europa e mesmo os Estados Unidos, como Anita Malfatti. Havia a vontade de construir uma arte que fosse ao mesmo tempo brasileira e atual, mas nem todos concordavam entre si ou sabiam muito bem o que seria isso. Monteiro Lobato e Oswald de Andrade, por exemplo, estavam juntos, por volta de 1915, 1916, na ideia de que a pintura brasileira deveria evoluir a partir do naturalismo de Almeida Jr. Logo depois, Lobato atacou a arte moderna de Anita Malfatti, enquanto Oswald a defendeu. Oswald, Menotti e também Mário de Andrade foram os principais articuladores do movimento na imprensa. Anita Malfatti foi quem acendeu o pavio, com sua exposição de 1917. E o carioca migrado para São Paulo Di Cavalcanti também teve papel importante nas articulações.

A exposição de Anita de 1917 foi duramente atacada por Lobato, que considerava “as extravagâncias de Picasso e companhia” como produtos “de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses”. Como foi a recepção da obra de Anita em 1922?
Ela ainda era vista por alguns como uma espécie de atração circense, a pintora que pintava mulher de cabelo verde e homem amarelo. Houve críticas semelhantes às de Lobato na imprensa e pessoas deixavam bilhetinhos pregados nos chassis dos quadros com palavras não muito elogiosas. Ela sentiu-se no entanto realizada ao ser abordada pelo conselheiro Antonio Prado, uma lenda política e econômica de São Paulo, que queria comprar a tela O homem amarelo. E ela não vendeu, porque já tinha prometido, em 1917, para Mário de Andrade.

Além de narrar as vaias e os suspiros da Semana, o livro é uma espécie de biografia coletiva, que acompanha os personagens do nascimento até subirem as escadas do Teatro Municipal. Noventa anos depois, como vê a contribuição da Semana para a arte de hoje?
A Semana tornou-se uma espécie de mito da criação do modernismo brasileiro. Uma fábula na qual jovens intrépidos da futurista e industrial São Paulo promovem uma insurreição contra o atraso nacional e mudam tudo. Claro que não foi bem assim. Essa é uma das grandes preocupações que tive ao escrever o livro — não repetir a velha história. Por outro lado, são também fantasiosas as versões, muitas vezes bairristas ou rancorosas, sobre a suposta falta de interesse e importância da Semana, que não passaria de uma espécie de fraude intelectual paulista. Calma. A importância daqueles artistas e intelectuais que estavam no Municipal, como Oswald, Mário, Anita, Villa-Lobos, tornou-se evidente com o passar dos anos. E a ideia da antropofagia, lançada em 1928 por Oswald e relançada pelo tropicalismo, tornou-se uma referência no debate cultural brasileiro.

Que tipo de curiosidade você pinçou durante a pesquisa do livro?
Muita coisa. Aspectos biográficos interessantíssimos, relações cruzadas, paixões… Só lendo pra saber…

* * * * *

Eventos programados sobre o tema:

Terça-feira, 6 de março, às 19h
Sessão de autógrafos com Marcos Augusto Gonçalves, por ocasião do lançamento do livro 1922 – A semana que não terminou
Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, SP

Terça-feira, 13 e 20 de março, às 20h
Curso “1922: a semana que não terminou” com Marcos Augusto Gonçalves
Local: Casa do Saber – Jardins – Rua Dr. Mário Ferraz, 414
Informação sobre inscrições através do telefone (11) 3707-8900 ou pelo e-mail: info@casadosaber.com.br

Terça-feira, 27 de março, das 19h às 21h
Palestra “90 anos da Semana de arte moderna” com Marcos Augusto Gonçalves.
Local: Biblioteca Mário de Andrade – Auditório – Rua da Consolação, 94 – Centro – São Paulo, SP

10 Comentários

  1. Elson Maauricio G. de Andrade disse:

    Estou acabando de ler este livro,gostei muito do livro que nos mostra como era a vida intelectual desses artistas futuristas que estavam à procura de um estilo novo de criação,gostei muito também do desingn e acabamento do livro e também da homenagem da capa ao livro `Pauliceia Desvairada´ de Mario de Andrade.Parabéns.

  2. […] 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922 […]

  3. bem, como já disse em outra produção desse tipo aqui no blog da cia das letras, colocar o autor para ler o próprio livro é muito ruim. Salvo raríssimas exceções, o escrito não é necessariamente um bom leitor. E lendo, ele deixa uma impressão muito ruim, em minha opinião.
    Não custa muito colocar um autor, que tenha uma dicção mais clara, alguma mínima noção de interpretação…. enfim, como o paul ricouer, acho que a tradição letrada no fim do século 20 jogou a elocutio na lata do lixo.

  4. […] Gonçalves Terça-feira, 6 de março, às 19h Marcos Augusto Gonçalves autografa seu novo livro: 1922 – A semana que não terminou. Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – São Paulo, […]

  5. […] sabor de uma ideia que não vai dar certo 17 fevereiro 2012, 10:30 am […]

  6. […] 90-anos-da-semana-de-arte-moderna-de-1922 Gostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso post. Filed under Ensino Médio | Deixe um comentário […]

  7. […] que amamos tanto Lisbeth Salander, se é que você já não sabe. No blog da Companhia das Letras, 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922. E uma lista de Tumblrs literários para todos os gostos, para deixar de trabalhar, de ler e […]

  8. Fabio Negro disse:

    quando o Monteiro Lobato entra na narrativa o livro dá um salto.
    que escritor, meu Deus, QUE ESCRITOR!

    Monteiro Lobato é o Darth Vader dos modernistas rebeldes.

  9. Diana (admin) disse:

    Stéphanie, pela internet você pode comprar no nosso próprio site ou nas livrarias virtuais. Ele já está à venda.

  10. Stéphanie disse:

    Quero comprar o livro pela internet, como faço? Sou de Manaus e a maior livraria aqui é a Saraiva.

Deixe seu comentário...





*