Gostamos tanto de Roberto Bolaño

Por Juan Pablo Villalobos

Há algumas semanas, depois de beber um monte de cerveja, um amigo, jornalista mexicano, me perguntou: por que gostamos tanto de Bolaño? Estávamos conversando sobre o autor chileno mais mexicano que existe e ele acabava de me confessar que tinha abandonado um emprego de repórter num dos principais jornais do México depois de ler 2666, que mudou totalmente sua ideia da escrita. Ele é especialista em narcotráfico e achou que não podia continuar fazendo o mesmo, que tinha que buscar outros caminhos para contar o que está acontecendo no México.

Quando meu amigo disse “gostamos”, com essa típica veemência do álcool nas conversas sobre literatura, parecia que falava do Universo inteiro, inclusive da Coreia do Norte, os corinthianos e os venusianos, as loiras e os banqueiros, até as joaninhas gostavam de Bolaño. O “tanto” se referia à imensidão de nossa devoção, ao fato de Bolaño ser um desses autores que marcam a biografia dos leitores, em especial dos leitores-escritores e mais especificamente dos candidatos a escritores.

Não soube como responder. Fiquei muito constrangido: estudei Literatura Espanhola e fiz um doutorado em Teoria Literária e não sei dizer por que gosto de um escritor? Como assim? Mas quando se trata de Bolaño não é simples, não. Você pode tentar falar do estilo ou das geniais estratégias narrativas, mas não é só isso o que explica o fenômeno Bolaño. Passei os seguintes dias pensando na questão e saboreando algumas lembranças.

Li Os detetives selvagens em três dias. Durante esses dias só tive três atividades: comer pizza (lendo), ir ao banheiro (lendo) e dormir um pouco (sonhando que lia). Estava passando por um momento horrível na minha vida e a única coisa que queria fazer era ler Bolaño. Ler com desespero. Ler como se em alguma das 622 páginas do livro estivesse escondida a resposta a meus problemas. Como se ler o livro sem parar fosse um encantamento, uma fórmula mágica. Ou uma oração. E funcionou. Saí do livro mais deprimido, mas com uma fé raivosa na literatura e com minha vocação de escritor fortalecida.

Anos depois enviei o manuscrito do meu primeiro romance, Festa no covil, a minha editora favorita na Espanha, Anagrama, que era a editora de Bolaño. Uns dias mais tarde recebi pelo correio uma nota protocolar: “obrigado por enviar seu manuscrito, iremos avaliá-lo e entraremos em contato com você etc.” Num impulso, sem saber por que e sem querer saber por que, coloquei essa nota entre as páginas de Os detetives selvagens, botei o livro de volta na prateleira e esqueci do assunto. Anagrama acabou publicando meu livro e a nota continua no mesmo lugar, e nunca vai sair de lá.

Creio que para um escritor jovem a experiência de ler Os detetives selvagens ou 2666 é fortemente auto-referencial. Seus personagens são pesquisadores literários que tentam decifrar um mistério, a desaparição da escritora Cesárea Tinajero no primeiro livro e o paradeiro do enigmático escritor Benno von Archimboldi no segundo. Essa pesquisa, que para o leitor comum é o motor da trama, para o candidato a escritor tem outros significados: é o reflexo de suas aspirações. O efeito é duplo. Bolaño descreve esse mundo de escritores, poetas e críticos literários ao qual o escritor jovem quer pertencer. E, no mesmo movimento, Bolaño atinge com sucesso a mais alta aspiração do escritor: a criação da “obra total”.

Como para muitos outros escritores jovens, a leitura de Bolaño foi uma iniciação para meu amigo. Ele aprendeu a acreditar que existia uma outra maneira de narrar a realidade, uma escolha que exigia sair do caminho conhecido e pesquisar. Hoje ele escreve jornalismo literário para algumas das revistas mais prestigiosas da América Latina, ganhou prêmios internacionais e se transformou em uma referência.

Depois de pensar em tudo isso, comecei a me perguntar: por que escolhi Os detetives selvagens para guardar a resposta da Anagrama? Eu poderia ter escolhido algum outro dos meus livros favoritos. Por que esse livro se transformou em um fetiche para mim? Só agora sei por quê.

Eu precisava acreditar.

Gostamos tanto de Bolaño porque precisamos aprender a acreditar.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países. Esta é sua estreia como colunista mensal do blog.
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23 Comentários

  1. […] Achei as capas muito bonitas e originais, principalmente por não apresentar texto na contracapa. Estou conhecendo um pouco sobre o estilo do autor lendo “O Terceiro Reich”. Pretendo me aprofundar mais em suas obras lendo “2666″ e “Detetives Selvagens”, livros altamente recomendados. Vale ainda conferir essa matéria do blog da Companhia das letras: Gostamos tanto de Bolaño […]

  2. Luciana, uma das revistas onde colabora meu amigo, Diego Enrique Osorno, é Gatopardo (www.gatopardo.com) Rodrigo: concordo com você e com Bolaño, tem uma literatura para desesperados, da qual acho o proprio Bolaño faz parte. Carlos, obrigado pelo comentário tão generoso, por em quanto não me sinto com folego para chegar as dimensões do 2666, mas meu novo romance é o duplo que a Festa no covil… se continuar nesse ritmo, provavelmente vou conseguir para o 7º ou 8º livro… rs. Obrigado a todos pelos comentários, fico feliz do interesse em ler ou voltar a ler a Bolaño. ¡Un abrazo muy fuerte!

  3. […] – Gostamos tanto de Roberto Bolãno – Juan Pablo Villalobos fala da importância do autor chileno mais mexicano que existe, no […]

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