Pedro Nava, memorialista do Brasil

Por André Botelho


Pedro Nava com Carlos Drummond de Andrade — almoço de 80º aniversário de Nava, Rio de Janeiro, Churrascaria Porcão, 4 de junho de 1983. (Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa/ Arquivo Museu de Literatura Brasileira.)

A escrita de Pedro Nava surpreende em vários sentidos. Nas suas Memórias (inauguradas por Baú de ossos), escritas entre o dia 1 de fevereiro de 1968 (como fez questão de anotar na primeira página dos originais da sua futura obra, quando contava com quase 65 anos) e o seu suicídio ocorrido em 13 de maio de 1984, o leitor encontra um pouco de tudo. Um misto de memórias, autobiografia, biografia, relato histórico. E também de romance e ficção.

Memória ou imaginação? Documento ou Ficção? No lugar de uma resposta exclusiva, a força e o alcance próprios dessas Memórias parecem estar antes na heterogeneidade e ambiguidade que lhes são constitutivas. Elas são, em verdade, compostas por elementos das mais variadas procedências: da tradição oral dos contadores anônimos de casos e da cultura popular (valorizada pelo modernismo de que Nava foi expoente em sua juventude em Belo Horizonte junto a Carlos Drummond de Andrade e outros) e também das rodas familiares e de amigos ― de que foi proeminente conversador; a um incomum e consistente saber erudito devido a muitas leituras, passando pela prática cotidiana da medicina, que o consagrou como reumatologista.

O baralhamento entre ficção e confissão é um dos motivos que têm suscitado tanto interesse, e também controvérsia entre especialistas nos livros de Pedro Nava. Para todos os leitores, porém, seu encanto parece estar justamente no jogo envolvente entre documento e ficção, entre memória e narrativa. Talvez por isso, cada um dos seis volumes das Memórias publicados em vida pelo autor tenha figurado nas listas dos livros mais vendidos, quando da sua publicação original. Para dar um exemplo, Baú de ossos (1972), o primeiro deles, esgotou rapidamente duas edições, vendendo cerca de 20 mil exemplares em menos de dois anos.

A meu ver, essa arte complexa de Nava exigiu antes de tudo a recusa da cronologia mais imediata ― tudo em nome dessa escrita desenvolvida a partir da rememoração. Recusa que, ao fim e ao cabo, é o que permite manter viva em seus livros a tensão criadora entre passado e presente, mortos e vivos, subjetivo e objetivo, individual e coletivo, particular e geral, o Brasil e o mundo. Por isso, em minhas pesquisas e cursos, venho procurando aproximar as Memórias de Pedro Nava, de um lado, à categoria de auto-retrato. Esse é um tipo de representação que não se deixa aprisionar inteiramente por uma noção de “eu” altamente individualizada, mas que, dividido e multiplicado nos outros, se permite surpreender também como parte de experiências e coletividades sociais mais vastas, transcendendo a biografia. De outro, o relato de Nava configura uma interpretação do Brasil, já que não é apenas resultante de uma visão determinada da sociedade, mas também forja maneiras ativas de sentir e de pensar o Brasil e de nele atuar.

Outro ponto que vale destacar é que embora elas sejam monumentais, nossa identificação aos livros de Nava parece sempre favorecida mais no detalhe do que no conjunto todo da narrativa. Detalhe, esse recurso fundamental para enfocar, registrar uma impressão, fazer lembrar, e que, em Nava, está diretamente ligado aos sentidos: olhar, audição, olfato, tato, meios através dos quais percebemos e reconhecemos os outros, o ambiente em que nos encontramos e, assim, a nós mesmos. E esse é apenas um dos recursos textuais próprios à ficção tão bem mobilizados na narrativa de Nava, e que, em conjunto, ajudam a imprimir força ao relato e um sentido de grande generalidade.

Essas questões de ordem geral são retomadas nas apresentações que estou escrevendo para cada um dos sete volumes das Memórias a serem publicados pela Companhia das Letras, buscando contribuir para situar o leitor face aos diferentes temas que elas apresentam e suscitam. A nova edição é apoiada também por pesquisa documental realizada no arquivo Pedro Nava da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, que contém cerca de 6.100 documentos manuscritos e datilografados datados de 1836 a 1993, além de pesquisa sobre sua recepção nos jornais de época  realizada na Biblioteca Nacional. São muitos e variados os materiais de que o autor se serviu na elaboração das Memórias: livros, diários, recortes de jornais, genealogias, receitas de cozinha, bulas de remédio, fotografias, postais, álbuns de retratos, reproduções de pinturas e esculturas, desenhos, caricaturas, croquis, mapas, além dos seus originais. Esse material colecionado ao longo da vida foi cuidadosamente acondicionado por Nava em pastas, fichários e cadernos de anotações que depois serviam de suporte aos planos de trabalho dos capítulos dos seus livros, a que chamava de “bonecos” ou “esqueletos”. Após traçar esses planos de trabalho, Nava passava propriamente à escrita: escrevia à máquina no lado esquerdo de uma folha dupla de papel almaço sem pauta, deixando o lado direito para correções, enxertos e diversas observações, bem como para colagens e desenhos que reforçam a memória visual do autor e da obra que ia criando (seus originais datiloscritos compreendem cerca de 10.800 folhas).

Alguns desses materiais são reproduzidos nesta nova edição, sendo que cada volume traz os relativos a seus próprios originais ou às suas pastas e arquivos correspondentes. São páginas dos originais, fotografias, cartas, anotações e, sobretudo, mapas, retratos, caricaturas, colagens e outros desenhos feitos por Nava que atestam sua grande qualidade como artista plástico. Mas elas não figuram nos cadernos de imagens apenas como ilustração. Além do deleite, as belas imagens selecionadas visam proporcionar ao leitor uma perspectiva para acompanhar, tal como nos parece ser o seu papel nos originais da obra, a educação do olhar e a importância capital das imagens para a definição do memorialista que Pedro Nava se tornou.

Por fim, aproveito para agradecer especialmente à Casa de Rui Barbosa e aos seus funcionários e a André Bittencourt e Luna Campos, meus orientandos no PPGSA/IFCS/UFRJ, pelo auxílio na pesquisa documental. Ao André devo ainda a parceria na pesquisa e seleção iconográfica da edição.

[Baú de ossos e Balão cativo têm lançamento previsto para 2 de março.]

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André Botelho é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor editorial das obras de Pedro Nava na Companhia das Letras.