A dedicatória

por Luiz Schwarcz

Num texto que publiquei há um certo tempo aqui no blog, intitulado A palestra que não será, falei de um episódio importante na minha relação com os livros. Referia-me a um evento ocorrido quando, ainda no ginásio, um professor leu  “A nova Califórnia”, de Lima Barreto, interrompendo sua leitura bem no meio do conto. Fiquei tão ligado que mal pude dormir naquela noite, enquanto aguardava pelo final da história, que ficara para o dia seguinte. Na ocasião em que escrevi o post, quis ressaltar a importância do silêncio  presente no ato de ler, e que perdura, muitas vezes, por algum tempo. No entanto, há uma história relativa a este mesmo conto que ainda não tive oportunidade de contar. Ela tem certa importância na minha trajetória como editor.

Antes mesmo da Coleção Primeiros Passos – na qual tive uma participação importante, e que talvez seja considerada o marco inicial da minha carreira – um outro acontecimento editorial pode ter tido valor semelhante e influência decisiva na minha forma de me ocupar das edições. Lembrei-me dela na última semana, após o evento de lançamento das obras de Drummond, num jantar com Lúcia Riff, Pedro Graña Drummond e Antonio Carlos Secchin.

Ele se passa em 1979, um ano e poucos meses após meu ingresso na Brasiliense, como estagiário — ainda finalizando a faculdade de administração de empresas na FGV. Caio me chamava de vez em quando para falar dos livros que planejava publicar e pedia que eu sugerisse nomes de tradutores ou opinasse sobre as capas e acerca da programação. Numa dessas conversas tive a ideia de propor a ele que fizéssemos uma edição com os melhores contos de Lima Barreto.

Eu havia me mudado há pouco para uma sala nova, e fora presenteado pelo Caio com a mesa que Monteiro Lobato usara por muitos anos. Para que as prateleiras não ficassem vazias, Caio trouxe uma coleção das obras completas de Lima Barreto, editada por Francisco de Assis Barbosa. Por isso, vira e mexe, para relaxar, no fim do expediente, eu lia alguma crônica de Os Brusundangas. Pois então, não sei por que cargas d’água, baixei na sala do meu chefe com a ideia de publicarmos uma coletânea de contos deste autor. Sugeri que convidássemos algum dos melhores críticos literários da USP e da Unicamp, com quem tínhamos um bom contato, para que a organização fosse feita por um especialista. O Caio se incumbiu da tarefa. Algumas semanas depois, tendo feito vários telefonemas infrutíferos, com seu jeito atirado, veio à minha sala, apontou para a coleção e disse:

– Luiz, falei com todo mundo, parece que ninguém gosta de Lima Barreto na Universidade. Quem vai fazer a seleção dos contos é você.

– Mas, Caio, não sou crítico literário e conheço pouco a obra do autor. Só pensei nesse livro de contos porque lembro de Triste fim de Policarpo Quaresma como um livro que marcou minha juventude, e porque andei lendo algumas crônicas dele.

Caio não me deu ouvidos e assim foi. Comecei a ler conto a conto, até que num certo dia, ao iniciar a leitura, meu coração bateu mesmo mais forte, minha pele de fato arrepiou-se toda. Desculpem-me pelas imagens gastas, mas foi exatamente isso que aconteceu quando li as primeiras linhas de um conto que começava assim: “Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois era assim subscrita a correspondência que recebia.” Tratava-se justamente daquele conto lido pelo Professor Caricatti, no Colégio Rio Branco e que tanto me emocionara. Passei por aquele primeiro parágrafo uma porção de vezes. Dele eu não me lembrava mais, havia esquecido até do nome do conto, da sua existência e da importância na minha meninice.

É claro que não só o incluí no livro, como batizei a coletânea que organizei como A nova Califórnia e outros contos. Eu tinha então apenas vinte e três anos de idade e vibrei muito quando, alguns meses depois, o Caio Graco me chamou à sua sala, para me presentear com um exemplar saído do forno; era o primeiro livro que editava e ele continha o conto que me tirara o sono, há tantos anos atrás. Por isso, por muito tempo, cheguei a considerar que minha vida de editor começou naquele banco ginasial do Colégio Rio Branco. Hoje penso que este tipo de ideia serve mais à literatura do que à realidade. Quando abri A nova Califórnia, vi que, na primeira a página, Caio havia escrito uma dedicatória que leio, de vez em quando, até hoje. Meu nome está grafado incorretamente, o que pouco importa. Vocês podem imaginar minha alegria ao lê-la:

Luís,

Este é o primeiro dos muitos livros que você vai editar. Desejo que todos eles reflitam como ele, e tão bem, o cuidado e amor que você lhe dedicou. Ambos imprescindíveis para realizar coisas bonitas.

Também te expresso o quanto tem sido gostosa e agradável essa nossa convivência.

Com um forte abraço do seu amigo e colega,

Caio Graco”

Sinto saudades do Caio agora enquanto escrevo, e a cada vez que pego o livro, que mora, de fato, na cabeceira da minha cama e agradecido pergunto ao Caio, onde quer que ele esteja, se de fato aprendi a lição.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.