A leitura de cada um

Por Vanessa Ferrari

É muito comum a associação entre literatura e prazer. E é igualmente comum a crença de que os livros podem transformar a vida de uma pessoa. Não é difícil entender por quê. Para muitos, o livro é uma fonte inesgotável de prazer. A forma, o tema, os personagens, os achados estilísticos do autor, a sua visão do mundo, tudo é tão encantador que se tem a impressão de um milagre iminente. Mas se, por um lado, essas declarações apaixonadas e hiperbólicas dão o tom de muitas conversas sobre literatura, por outro, há uma sensação menos comentada, e igualmente importante, que também diz respeito à leitura. Ao mesmo tempo que a literatura dá a nós leitores o melhor dos mundos, ela também pede muita dedicação de quem lê; não poucas vezes, exige um esforço tremendo. Para o leitor em formação certamente esse esforço é maior porque tudo é novo e estranho.

Veja, por exemplo, o Clube de Leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Em seis meses, as participantes tiveram de lidar com a história angustiante de uma família disfuncional em Dois irmãos, com uma mescla de relato jornalístico e autobiográfico em Sociedade da neve, com a prosa ágil de Marçal Aquino e seus diálogos bem construídos em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Depois conheceram a nostalgia do bengalês Buddhadeva Bose em Meu tipo de garota, e tiveram uma amostra da literatura chinesa contemporânea com Viver, de Yu Hua. Por último, em fevereiro, estreamos nos contos lendo o excelente Cine Privê, de Antonio Carlos Viana.

Não tenho dúvida de que nossos encontros literários têm sido uma fonte de prazer para o grupo, mas sei também que muitas vezes navegamos pelas águas turvas da literatura. Em pouco tempo passamos por narrativas muito diferentes uma da outra, e os comentários recorrentes falam de um estranhamento estilístico, da supremacia dos personagens angustiados e sem rumo, das situações inconclusivas, das perguntas sem respostas, da descontinuidade temporal das narrativas. Sobre os contos do Viana, uma leitora disse: “São histórias que parecem não ter começo nem fim”. Sem nenhum conhecimento teórico, essas leitoras pontuam o tempo todo características da narrativa moderna. É uma percepção sensível, sem dúvida, mas é também o reconhecimento de um estranhamento, estranhamento esse que muitas vezes faz o leitor desistir dos livros. Felizmente não é o que está acontecendo com esse grupo. Na verdade, estou sendo um pouco contida. A cada encontro as discussões estão cada vez mais acaloradas e sofisticadas. (Como eu queria que os meus amigos, os leitores do blog, o pessoal da editora, todas as pessoas que têm simpatia pelo projeto estivessem nesse último encontro, quando a Noemi Jaffe deu uma aula sobre poesia e sobre o Drummond).

Por essas e outras (outras que começarei a escrever a partir de agora neste blog), o que está acontecendo nesse Clube de Leitura é algo muito especial, porque o espírito que nós tentamos construir não é de condescendência, tampouco de um romantismo ingênuo, milagreiro, tantas vezes associado aos livros. Estamos, todos, trabalhando muito e os resultados começam a aparecer. Ainda que vivam um misto de prazer e angústia com a literatura, a cada visita elas nos recebem de braços abertos e felizes com o reencontro. E o mais importante, cada vez mais ansiosas para comentar o último livro. E esse é o melhor resultado que um mediador pode querer.

A propósito: a Noemi está escrevendo um post sobre a sua experiência na Penitenciária. Não vou falar nada sobre esse dia para não estragar a surpresa. Mas eu não deixaria de ler esse texto por nada.

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Vanessa Ferrari é editora assistente da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana.

(Veja aqui a lista completa de clubes de leitura organizados pela Companhia das Letras)