A perigosa aventura dos oitenta anos

Por José Mario Pereira (Entrevista publicada reeditada na revista Rio Capital em dezembro de 1992)

Autor de Baú dos ossos (1972), Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978) e Galo das trevas (1981), o mineiro Pedro Nava (1903-1984) é considerado o nosso maior memorialista.

Natural de Juiz de Fora, companheiro, entre outros, de Afonso Arinos e Prudente de Moraes Neto no internato do Colégio Pedro II, Nava formou-se em medicina em 1927. Autor do poema “O defunto”, que impressionou até mesmo Pablo Neruda, incluído por Manuel Bandeira em sua Antologia dos poetas bissextos, Pedro Nava foi também pintor e desenhista.

Quando de sua estreia, em 1972, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Minha geração, a que ele pertence, tem orgulho de oferecer às mais novas um livro com a beleza, a pungência e o encanto da obra excepcional que Pedro Nava realiza com estes primeiros volumes de memórias, dignos de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa”.

Poucos dias antes de sua trágica morte, que surpreendeu muitos amigos, conversei com ele por um bom tempo na sede da editora Nova Fronteira, então na Rua Joana Angélica, onde ia com frequência. Ele estava animado, comentou com simpatia a participação de Luiza Brunet num programa de entrevistas na televisão, então dirigido por Danuza Leão, e disse, com ironia, que estava pensando em mudar o título de seu próximo livro, O círio perfeito, porque se sentia cansado de responder que não se tratava propriamente de uma biografia de Paulo Maluf.

Pedro Nava era dono de uma voz poderosa, pleno de vida e saúde, um homem afável, amigo, cuja ausência dá saudade. Estranhamente não se tem falado nele, o que é uma pena. Esta entrevista, publicada originalmente na Última Hora na passagem dos seus 80 anos, diz muito sobre suas preferências e hábitos literários. Que ela seja um convite a reler e relembrar Nava é o motivo maior de sua republicação aqui.

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Quando o senhor decidiu escrever suas memórias?

PN: Pertenço a uma família de guardadores de lembranças, de curiosidades. Sou filho de um tempo em que se guardavam cartas. A minha família preparou o terreno para mim. As tias paternas, cearenses, anotavam tudo. Meu declínio natural, o afastamento da medicina, facilitou a coisa. Escrevi sempre. Tenho quase 200 trabalhos publicados sobre temas médicos. Quando comecei a escrever as minhas memórias muitos parentes estavam vivos. Pude assim perguntar, confirmar, documentar situações. Em determinado momento eu deixei de ler, notadamente memórias. Lia muito Saint-Simon, Guimarães Rosa. Parei. São autores poderosíssimos, quase feiticeiros. Sentimos por demais a vontade de imitá-los. Comecei a pensar em colocar no papel minhas lembranças em 1968.

Qual o seu método de escrever?

PN: Escrevo sempre à máquina. Sete a oito páginas por dia, no horário de 1 às 5 da tarde. Sou vagotônico, funciono menos, sou menos vivo pela manhã. Reservo a manhã para a correspondência, o fichamento dos arquivos, meus, dos amigos, da minha família. Para isso estudei numerologia, que me é bastante útil. No momento trabalho no arquivo e na correspondência de Elisabeth Raja Gabaglia Leão, mulher de Epitácio Pessoa. Meus leitores me escrevem com freqüência. Quando ele é inteligente, eu respondo com longas cartas, eu me explico, dou esclarecimentos. O livro é como a carta de um náufrago, o leitor recebe o recado, lê e vem me salvar.

Para a descrição dos tipos eu procuro desenhar primeiro. Fazer o retrato. Se o nariz é grande eu faço maior, caricaturo. Uso plantas de cidades e de casas. Consulto muito o registro funerário. Ali encontro nomes para substituir os reais que não podem aparecer. Sempre coloco o papel na máquina dobrado em dois. Isso ajuda a fazer as correções. Uma impressão, um fato qualquer, tomo nota num caderno. Escrevo só de um lado da página: quando preciso é só cortar e a ficha está pronta.

Corrige muito, ou o texto já sai pronto?

PN: Gosto de tirar uma frase do texto e ficar trabalhando com ela. Burilá-la. Só outro dia descobri que o Egon, meu alter-ego, um personagem múltiplo, presente sobretudo no Galo das trevas, tem o nome formado de Ego, eu, e a inicial de meu próprio nome. O escritor deve se pesquisar, conhecer seus próprios artifícios. Só assim poderá ousar. O José Lins do Rego escrevia fácil, dá gosto de ver os originais de Fogo morto. Ele era dono de uma narrativa invejável. Eu sou o contrário. Sou um autoleitor. Isso me ajuda a perceber os meus processos, catar os piolhos. Para todo mundo que escreve o primeiro jato é lamacento, é necessário transformar esse texto bruto em água potável, dizia Trousseau. À noite eu corrijo o que escrevi durante o dia. Se eu morrer hoje o texto de ontem está pronto. Isso evitará que aconteça comigo o que se deu com João Vicente Torres Homem. Quando morreu deixou dois volumes sobre clínica médica, escritos numa sóbria linguagem. Francisco de Castro, encarregado de coordenar o terceiro volume, redigiu-o como um clássico.

Fala-se muito na influência de Proust em sua obra. O que pensa a respeito?

PN: Minha primeira leitura de Proust não foi entusiástica. O Martins de Almeida dizia que ele devia ser tomado às colheradas, e não de uma vez, como um chope duplo. Gosto muito de Proust. Até hoje não dispenso a velha edição na qual o li. Fiz um índice que me é valioso. Tenho um amigo médico, Hélio de Lima Carlos, que é um conhecedor admirável do autor francês. Sempre que descobrimos alguma coisa nova na Recherche nós escrevemos. Comparo o estilo de Marcel Proust a uma orquestra. Só o passar dos anos, o estudo, a intimidade, nos dão a capacidade de distinguir os instrumentos.

Existem dois tipos de memória: a voluntária e a involuntária. A primeira é quando decidimos reconstituir um período da existência por vontade própria. A segunda, ocorre por associações. Quando visitei a casa da minha infância, na Rua Aristides Lobo, ela estava tão diferente que não pude me lembrar de quase nada. De repente acendeu-se uma luz, e apareceu o desenho no vidro da janela. Isso, só, bastou para me restituir a casa antiga, o meu pai, a vida dele, de maneira proustiana.

Quais os autores que mais o influenciaram?

PN: Shakespeare, Dickens, Anatole France, Proust e Eça de Queiroz, entre os estrangeiros. No Brasil, Raul Pompeia e Euclides da Cunha. Já li Os sertões 20 vezes. Machado de Assis também, apesar de ter sido descoberta da idade madura. Minha formação francesa devo à influência de Antônio Sales, meu tio-afim, figura central do movimento chamado Padaria Espiritual, do Ceará. Sou três-quartos cearense. Tive como professores no Pedro II Silva Ramos, Carlos de Laet e João Ribeiro. Este último foi a figura mais notável de humanista que conheci.

Como define o memorialista?

PN: O memorialista é forma anfíbia de historiador e ficcionista e ora tem de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades oceânicas de sua interpretação. Transfigurar, explicar, interpretar o acontecimento é que é a arte do memorialista.

O senhor é religioso?

PN: Sou agnóstico. Só acredito no que vejo e posso provar.

Foi amigo de Guimarães Rosa quando estudante?

PN: Rosa foi meu contemporâneo de Faculdade. Ele tinha algo que o distinguia na multidão. Mas não fomos amigos. Anos depois estive com ele, por 10 minutos, em Paris. Minha dor de corno foi não tê-lo conhecido melhor. O mesmo aconteceu com Cecília Meireles. Lembro dela na casa de Rodrigo Melo Franco de Andrade, no dia do casamento do filho deste. Era linda e morena. Tinha os olhos de um verde azulado. O Rodrigo quis apresentar-me a ela. Eu disse que preferia um encontro mais tranquilo. Não tivemos tempo. Ela morreu pouco depois.

Como se sente escrevendo memórias?

PN: Eu fui um menino preso, estudante de colégio interno durante sete anos. Penso nesse tempo como uma coisa odiosa. Depois a medicina, o meio, é sempre muito opressivo. As pessoas concorrem, querem dar cotoveladas uns nos outros. Me recolhi. Minhas memórias nasceram da minha disponibilidade. Meu único critério é ser fiel a mim mesmo, dizer sempre a verdade. A morte para mim não altera os sentimentos afetivos. Não transformo canalhas em bonzinhos só porque estão mortos, não. Só escrevo o que penso. Escrever para mim é uma libertação. Me desoprime.

Por que recusou a candidatura à Academia Brasileira de Letras?

PN: A Academia mudaria todo o meu ritmo de vida. Gosto de ser livre. Ser acadêmico implica um certo convencionalismo, que na minha idade já não tem sentido, ou melhor, não me interessa assumir. Tenho ótimas relações com a Academia. O Marques Rebelo, o Ivan Lins, o Luiz Viana, sempre se mostraram favoráveis à minha candidatura. Mas nunca aceitei. Os meus amigos do modernismo, o Mário de Andrade, o Sérgio Buarque de Holanda, o Prudente de Morais Neto, não entraram. Só o Bandeira se tornou acadêmico. Mas não foi modernista desde o início. Tomou o bonde andando.

E o novo livro, O círio perfeito?

PN: Ele cobre o período de 1930 a 1940, que compreende minha experiência no magistério, a saída de Minas, e o encontro com o Rio. O livro está praticamente pronto. No momento procuro uma chave de ouro para o soneto, no sentido de chegar a um “suspense”, tipo quase conta e deixa.

Nava, como se sente aos 80 anos?

PN: Como um médico, ciente de seus limites, da perda gradativa dos sentidos. O Villaça escreveu recentemente um artigo sobre mim. Fiquei assustado com a palavra octogenário. Prefiro oitentão. É mais simpática, doi menos, o choque é menor. No mais, estou ótimo. Sou extravagante, glutão, bebo, meu paladar não é idiota. Tenho amigos. Mas às vezes vejo esta data com um certo pessimismo. É muito tempo em cima de mim. Fazer oitenta anos é uma aventura perigosa. Nesta idade até mesmo a nossa capacidade de indignação diminui. Mas não penso nessa coisa grotesca e kitsch que é a morte, embora saiba que não escapo dela.