A versão certa do autor

Por Júlio Castañon Guimarães

Grand Frère Vous Regarde à Paris, after Caillebotte

Tenho trabalhado no preparo de novas edições de livros de Carlos Drummond de Andrade (como já trabalhei com uma colega, Rachel Valença, na edição de livros de Manuel Bandeira), e desse trabalho faz parte o que habitualmente se chama de estabelecimento de texto.

De modo bastante geral, talvez se pudesse dizer que o estabelecimento de texto é a tentativa de  apresentar um texto que esteja o mais perto possível da intenção do autor. Parece simples, mas pode não ser. O trabalho tem a ver em boa parte com o tipo de edição que se está preparando — se edição apenas do texto, se edição crítica, ou seja, com notas que mostram as alterações pelas quais o texto passou. Em geral o estabelecimento do texto está associado a esse trabalho de edição crítica, que envolve uma pesquisa mais aprofundada da vida do texto. Há procedimentos para esse trabalho, mas eles variam, em parte, em função da época do texto (um manuscrito do século XVIII, com seus problemas próprios de leitura da escrita e compreensão da língua da época, pede uma abordagem diferente da de um texto do século XX impresso em sucessivas edições).

Existe um livro importante para quem trabalha nessa área — Elementos de bibliologia, de Antônio Houaiss, que aí diz: “O estabelecimento de texto é, pois, a um tempo um problema de ecdótica, de hermenêutica e de exegese”. Trocando em ralos miúdos, o problema é de edição, interpretação e explicação do texto.  Antes de tudo, isso nos indica que se há procedimentos, não há exatamente um modelo a ser aplicado, não há regras, normas. Por isso mesmo, logo a seguir ele diz que a “objetividade mecânica na operação não é possível” — é necessária uma “total compreensão do texto”, o que sem dúvida tem uma dose forte de improbabilidade.

Um texto pode passar por várias etapas: manuscrito, datilografado, impresso num jornal, impresso num livro com muitas edições. E pode acontecer de tudo: alterações feitas pelo autor, erros de revisão, acidentes os mais diversos, como acordos ortográficos, mudanças de critérios de padronização, resultando ocasionalmente na alteração, por exemplo, de alguma maiúscula cara ao autor. Sendo o autor já morto, é possível considerar que a última edição em vida seria aquela em que estaria o texto na versão final do autor. Mas, como se sabe, nem sempre o autor tem pleno controle do seu texto em processo de edição, além do fato de que ele mesmo pode se equivocar. Assim, eventuais versões manuscritas ou datilografadas, publicações na imprensa, observações deixadas pelo autor, uma carta, um exemplar anotado, bem como especialmente outras edições poderão ajudar muito.

Escolhida a versão que será a base para o texto a ser estabelecido, é preciso verificar se ele pode ser seguido inteiramente, se há problemas, como algum tipo de erro, diferenças em relação a outras versões. Mas esse texto tem também de ser preparado para o leitor de hoje, segundo padrões atuais. Os ditos erros óbvios são simplesmente corrigidos, como, digamos, “carrro”. Se for o caso, atualiza-se a ortografia — e aqui já pode haver problemas: se o autor no começo do século XX usou algum estrangeirismo, isto é uma marca da época, a da frequente importação de palavras; se atualizamos, estamos eliminando essa informação, a de que à época não havia ainda o aportuguesamento. Poderá ser o caso de padronizar certos elementos, como aspas, itálicos, etc., ou mesmo certas formas vocabulares. Mas acima de tudo é preciso admitir a possibilidade de o autor estar usando algum desses elementos com um intuito que foge aos padrões ou explorando a diversidade que a língua e seus léxicos permitem. É o caso de Manuel Bandeira fazendo dessa diversidade dois versos em “Evocação do Recife”: “Capiberibe / — Capibaribe”.

Gonzaga Duque, autor do final do século XIX inícios do XX, nome fundamental da crítica de artes plásticas no Brasil, publicou um único romance, Mocidade morta, cuja edição lhe causou enorme desgosto, pois saiu coalhada de erros. Essa foi a única edição em vida do autor, para a qual ele deixou anotadas várias emendas, que provavelmente não davam conta de tudo o que saiu errado no livro. Em seu diário, ele relata o episódio com amargura. Não trabalhei com esse livro, mas organizei (em colaboração com Vera Lins) três livros com textos dele, um de contos e dois com textos  de imprensa saídos entre 1882 e 1911 (Impressões de um amador e Outras impressões). Neste último caso, havia o problema de serem textos escritos às vezes apressadamente, a que se somava a má qualidade gráfica dos periódicos na época. Era vez ou outra difícil verificar o que seria erro ou algo que simplesmente desconhecíamos e que poderia ter algum significado, alguma explicação, pois, além de construções tortuosas, complexas e incomuns, ele também usava um vocabulário cheio de neologismos, palavras eruditas e pouco usadas. Os contos foram reunidos num livro intitulado Horto de mágoas (só teve uma edição em 1914, póstuma), mas antes haviam saído em periódicos. Havia algumas diferenças entre o texto da edição póstuma (Gonzaga Duque a teria deixado preparada? não se sabe) e os textos do jornal, criando-se assim o problema inicial de qual texto seguir. Há algumas diferenças na redação, com trechos presentes numa versão e ausentes na outra. Seu vocabulário recorre a formas que sem dúvida pretendiam dar um ar de erudição ao texto, como círrus, êxtasis, grífus, mórbus. Isso ao lado de formas como d’alma, d’oiro, su’alma, pel’acridade. E é preciso lidar adequadamente com esses aspectos para não descaracterizar o texto do autor.

Dificilmente hoje alguém pensará em usar uma forma como “cousa”, e logo se pensa em atualizar essa e formas semelhantes quando ocorrem em algum texto mais antigo. Mas a poesia pode nos dar alguns motivos para não fazer isso. Num poema de Manuel Bandeira, “A rosa”, de seu livro Carnaval, “cousa” rima com a forma verbal “ousa”: “Alguma cousa / (..) Que ele não ousa”. Não se irá pensar em destruir a rima. É inevitável respeitar o uso do poeta. E há outros exemplos de rimas que impedem modificações. No poema “O descante de Arlequim”, também de Carnaval, há uma rima entre “corruto” (forma hoje praticamente esquecida de “corrupto”) e “minuto”: “Ao meu anélito corruto / Esquecerá por um minuto”. E no poema “Desesperança”, do livro A cinza das horas, há a rima entre ” aspeto / desafeto / objeto”, em que se usa também uma forma menos corrente de “aspecto”.

No poema “O descante de Arlequim”, em um dos versos se lê “À cuja sombra, se quiseres”. O acento grave indicador de crase no “a” que antecede o pronome relativo “cuja” é contrário totalmente à norma gramatical em vigor. Mas em todas as edições do poema, está lá o acento, e Bandeira era um grande conhecedor da língua. O que fazer? No poema “A canção das lágrimas de Pierrot”, logo no começo se lê: “A sala em espelhos brilha / Com lustros de dez mil velas”. Está “lustros” em todas as edições do poema, ao longo de décadas, menos na edição comemorativa dos 80 anos do poeta, uma bem cuidada edição José Olympio. Depois de tanto tempo o poeta resolveu mudar? Um probleminha da edição? O que fazer?

No preparo da edição dos dez primeiros livros de poesia de Drummond, uma das grandes trabalheiras foi tentar achar todas as versões publicadas dos poemas, que saíram na maior parte pela primeira vez dispersos em cerca de setenta jornais e revistas, de diferentes cidades e estados brasileiros, a partir da década de 20. Mas no que diz respeito estritamente aos textos, vejamos só mais um exemplo. No livro A vida passada a limpo, na primeira edição, havia um poema nas orelhas do livro, intitulado justamente “Poema-orelha”. Nas edições posteriores, o poema foi incorporado ao livro, aparecendo como o primeiro poema do livro, às vezes com algum elemento gráfico que o distinguia dos demais. Ocorre que nas últimas edições da obra poética completa de CDA, ainda em vida, o poema desaparece. Mais uma vez se fica diante de uma indagação.

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Júlio Castañon Guimarães é poeta, tradutor, crítico e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa.

2 Comentários

  1. […] versão existente, que não é de nossa responsabilidade, não traz o texto definitivo, conforme o estabelecimento realizado para nossas edições. Tenho mais a dizer sobre a obra de Vinicius e as celebrações que […]

  2. Ana disse:

    E não é que os preparadores temos mesmo que saber da sociologia, da história, da economia, da antropologia e da psicologia? Mas é um trabalho bem bom de fazer…rsrs

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