Caio Prado, hoje

Por Lilia Moritz Schwarcz e Otávio Marques da Costa

Otávio no seminário “A atualidade da obra de Caio Prado Jr.”

Dos dias 27 a 29 de março, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros e os departamentos de Ciência Política e de Antropologia da FFLCH/USP, a editora organizou um seminário para comemorar o relançamento da obra de Caio Prado Jr. e os setenta anos de publicação de Formação do Brasil contemporâneo. Sob título provocador — “A atualidade da obra de Caio Prado Jr. —, a intenção era chacoalhar a ideia corrente, no senso comum, de que a obra de Prado Jr. teria resistido mal ao decurso do tempo, e ficado para a história apenas como um “vestígio” de momentos passados.

Talvez sintoma de certo abandono do marxismo na historiografia, da influência da Nova História e de uma produção mais atenta à sociedade e à cultura, sobretudo a partir dos anos 1970 e 80, o alegado “envelhecimento” da obra de Caio Prado trouxe consequências negativas de duas ordens: de um lado, o esquecimento de proposições que, na época de sua formulação, foram radicalmente inovadoras — ou, como bem apontado por Bernardo Ricupero no novo posfácio de Formação, uma “normalização” de conceitos, tratados hoje como obviedades —; de outro, um interesse decrescente pela obra na própria academia.

Por isso nosso desafio era grande, o que já ficou expresso no “arejamento” da nova edição, a qual explorou não só documentos pertencentes ao acervo do historiador e pouco utilizados até hoje — a exemplo da produção fotográfica de Caio Prado Jr. — como procurou conferir, no próprio acabamento gráfico, um ar, digamos assim, renovado.

Da mesma maneira, o seminário teve como meta “provocar” o público a refletir sobre a importância da obra para o presente; ou melhor, como bons livros nunca vêm com “prazo de validade”. Na sessão de abertura, composta por Fernando Novais, Maria Arminda do Nascimento Arruda e Elisabete Ribas, com mediação de Lilia Moritz Schwarcz, o professor Novais — talvez o principal herdeiro intelectual e continuador de Prado Jr. entre nossos historiadores — lembrou o caráter inovador do marxismo de Caio, o qual, numa época em que as teses do Partido Comunista Brasileiro ainda defendiam a existência das etapas históricas clássicas no Brasil (até do feudalismo!), propunha inovações como o desenvolvimento da noção de “sistema colonial”, que tinha por sentido a produção de riqueza para a metrópole.

A tese central de Formação, livro que, segundo Novais, guarda mais afinidade com um segundo momento do marxismo no Brasil — o da academia (ligado a Florestan Fernandes) e o cepalino, ambos florescendo plenamente só anos 1960 —, redefiniu a historiografia do Brasil colônia, fincou bases na compreensão histórica dominante e, ainda que para ser contestada ou relativizada, não pôde mais ser mais ignorada pelas gerações seguintes de historiadores. Novais enfatizou, enfim, a novidade da concepção que vinculou o Brasil a uma lógica internacional, mostrando seu papel no “concerto das nações”. Na próxima intervenção, Maria Arminda do Nascimento Arruda abordou, de forma sistemática, as relações entre as obras de Caio Prado Jr. e de Fernando Novais.

O primeiro dia contou ainda com a relevante participação de Elisabete Ribas, que apresentou o arquivo existente no IEB com documentos outrora pertencentes ao historiador paulista, e que serviu de base para nossa pesquisa iconográfica. Como ressaltou Ribas, ainda há muita pesquisa a ser feita a partir da documentação legada por Caio Prado Jr…

No segundo dia, a socióloga Elide Rugai Bastos, estabelecendo um paralelo entre Gilberto Freyre e Caio Prado, salientou que a inovação por que Freyre é sempre louvado — uma abordagem do passado que não prioriza os “heróis e os grandes feitos” — tem um precedente em Evolução política do Brasil, primeiro livro de Prado Jr., que saiu do prelo poucos meses antes de Casa-grande & senzala. Na mesma sessão, Bernardo Ricupero examinou as dimensões da política em Formação, em especial o caráter programático do livro, que propugna a superação da herança colonial, tese que teria grande influência nas décadas seguintes, culminando na teoria da dependência.

Na terceira mesa (formada pelos professores Lincoln Secco, Rubem Murilo Rego e Paulo Martinez, com mediação de André Botelho), dedicada à questão agrária e aos desafios da política em Caio Prado, os participantes debateram aspecto decisivo e polêmico da “atualidade” da obra: o fato de o Brasil, depois de período de vigorosa industrialização (não previsto e mal compreendido por Prado Jr.), ter recuperado o papel geopolítico de produtor e explorador de commodities para consumo externo. Se é certo que as relações entre centro e periferia estão hoje sem dúvida reconfiguradas, e que as condições técnicas de produção no latifúndio não mais são rudimentares, a estrutura fundiária no campo brasileiro e sobretudo a exploração do trabalho permanecem muito semelhantes às analisadas pelo autor.

Como pode ver o leitor, a obra e os temas de Caio Prado continuam a nos interpelar e interessar, e o vasto público presente participou de maneira ativa nos debates acalorados que marcaram as três sessões do seminário.

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Quando tivemos a honra de assumir a republicação de parte relevante da obra de Caio Prado Jr., uma de nossas grandes preocupações foi justamente, por meio de edições esmeradas e material inédito, reconduzi-la a seu lugar de direito e contribuir para sua difusão. Foi assim que, além de pensar em novos aparatos editoriais (nosso grupo curador decidiu incluir nos novos volumes sempre uma entrevista com interlocutores de Caio Prado Jr. — nomes como Fernando Novais, Antonio Candido e Emília Viotti da Costa — e um posfácio de um pesquisador contemporâneo da obra), fomos a busca de material iconográfico, em especial imagens das famosas viagens de Caio Prado pelo interior do Brasil — dentre fotografias e mapas —, grande parte delas hoje no acervo do IEB.

Pesquisando no Fundo Caio Prado, que reúne farta documentação, tivemos a grata surpresa de encontrar, entre dezenas de álbuns, belíssimas fotografias tiradas pelo historiador. Há ali basicamente dois núcleos: fotos de caráter privado (começando por álbuns da família Prado no fim do século XIX e começo do século XX — documentos preciosos para o estudo da cultura material e sociabilidade da elite cafeeira paulista), retratando a vida em família, o crescimento dos filhos, as muitas viagens de lazer, as férias nas diferentes fazendas da família no Oeste paulista, os hobbys; e outro formado pelas fotos das viagens de estudo — podemos incluir aí desde as fotos da viagem de Caio Prado à União Soviética em 1934, àquelas das muitas expedições pelo Brasil, em geral na companhia do primo Elias Chaves Neto. Nestas, além da sensibilidade do fotógrafo talentoso, percebemos o anseio do Caio Prado historiador e geógrafo, que fora aluno de Deffontaines na USP nascente, de dar concretude a suas ideias. Num país onde passado e presente ainda conviviam, conforme famosa passagem atribuída a um professor francês em Formação, Caio procurava captar os processos de produção, a cultura material, a atuação do homem no terreno, as mudanças e também as permanências na história. Desenvolvia igualmente um modo de pesquisar em tudo particular, na medida em que, num misto de historiador com antropólogo, não só recuperava fontes documentais como produzia as suas: registrando seus passos e viagens rumo aos locais que estudava.

Como o acervo é imenso, decidimos estabelecer um corte: as fotos serão da época de publicação original dos livros, contribuindo para um diálogo entre a visualidade e a produção escrita.  Em Formação do Brasil contemporâneo, assim, priorizamos os registros fotográficos de viagem por Minas Gerais feita em 1941, uma das primeiras expedições do autor pelo Brasil “profundo” — e das mais prolíficas em termos visuais. Fazem parte do conjunto paisagens das cidades antigas de Minas, momentos do cotidiano (um cortejo fúnebre, meninas curiosas na praça de Mariana — que fazem lembrar uma pintura de Guignard), processos de produção (o fabricante de queijos, o minerador bateando), e panoramas que revelam o interesse pelo terreno (como as belas vistas do pico do Itambé).

No próximo volume que lançaremos — Evolução política do Brasil e outros estudos (previsto para julho deste ano, o livro de 1933 vem acompanhado de artigos publicados na Revista Brasiliense nos anos 1950), a ideia é reunir esses dois momentos — anos 1930 e 50 —, do período na União Soviética às viagens pelo Brasil já a bordo do famoso fusquinha.

Interessante foi a discussão que travamos com o pessoal da editora por ocasião da primeira proposta de capa. A princípio, recebemos uma linda proposta gráfica de Elisa v. Randow, mas  defendemos que as imagens de capa também deveriam ser do acervo de nosso historiador, que, como vocês verão, não faz nada feio nas “outras artes”…

Nossa esperança é que além das discussões sobre a rica obra historiográfica de Caio Prado, que esperamos fomentar, vejamos crescer o interesse por esse outro Caio Prado, o fotógrafo em seu fusca!

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Lilia Moritz Schwarcz é editora da Companhia das Letras, professora titular do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de As barbas do imperador — D. Pedro II, um monarca nos trópicos.

Otávio Marques da Costa é editor da Companhia das Letras e dos títulos de não ficção do selo Penguin-Companhia.