Fragmento do diário de um abstêmio

Por Joca Reiners Terron

things that always remain there! 14/52

Hoje eu deixei de beber.

De acordo com meus cálculos, são vinte e cinco anos bebendo diariamente. Comecei aos 17, nos intervalos entre as aulas do terceiro colegial. Primeiro, num boteco próximo à escola. Depois, no bar do clube da cidade, de onde era possível observar a piscina lotada de garotas. Nessa época quase deixei de frequentar as aulas.

Mas isto aqui não é um livro de memórias, e sim um diário. Quero lembrar no futuro o que estou passando agora. Não sei ao certo por que, mas quero.

O diagnóstico: no mês passado realizei meu 2º check up da vida. O primeiro aconteceu há um ano, quando o médico constatou problemas em meu fígado. Esteatose, é esse o nome feio. Significa que meu fígado está desenvolvendo gordura em excesso. O problema ocorre em pessoas obesas ou depende de fortes componentes familiares. Nenhum dos dois é o meu caso. Há uma terceira possibilidade: consumo excessivo de álcool.

Parece ser o meu caso.

Faz uma semana que minha filha foi embora. Voltou para a casa da mãe, com quem vive no interior do estado. Após sua partida, pude me dedicar aos exames sem ter de ocultá-los. Foi tudo rápido. Fiz o exame de sangue e o cardiograma em 2 dias e levei os resultados ao médico.

Nas duas consultas anteriores que fizera eu só havia falado mentiras. Não sei o que me leva a fazer isso, a mentir pro médico. Um amigo me disse que devo ser idiota. Minha mulher não fala nada, mas pensa igual. É uma espécie de jogo, acredito: o médico sabe que estou mentindo. É o que digo à minha mulher. “E por que ele deixaria você mentir?”, ela pergunta. Pelo mesmo motivo que me leva a mentir, suponho: ele também mente para mim. Ele é o único que me compreende. Eu sou o único a compreendê-lo.

Costumo dar detalhes precisos de minha vida idealizada e de meu cotidiano apolíneo. Caminho regularmente. Tenho hábitos saudáveis. Lamento, todavia, ter me dedicado aos esportes com sofreguidão excessiva na juventude: todos os danos físicos que meu pobre corpo carrega hoje em dia são fruto daqueles exageros atléticos da juventude.

O médico ouve tudo e me conta episódios semelhantes de sua própria lavra. Ele parece concordar comigo quanto aos esportes.

Parece estar me copiando.

Estará armando sua próxima tramóia contra mim?

Confesso que estou preocupado. Não é mole beber todo santo dia durante vinte e cinco anos e de repente ser obrigado a parar.

O diagnóstico foi tão abrupto.

Não tive tempo de me preparar.

Vinte e cinco anos.

Na semana passada, o pai de um amigo descobriu por acaso que tinha câncer de pulmão. Num dia, planejava uma viagem à praia. No outro, a pneumonia súbita. Logo, o câncer. Parecia propaganda de cigarro feita pelo governo.

Meu amigo relatou à lista de correspondência que eu, ele e outros amigos mantemos pela internet o passeio de sua mãe ao shopping. O filho caçula, irmão de meu amigo, a levara para que se distraísse.

Quando voltou ao hospital, a mãe chorou pela primeira vez no ombro de seu outro filho, desta vez o meu amigo. Ela disse que o passeio havia sido péssimo, e que ficara o tempo todo no shopping pensando no marido, e no que faria se ele morresse e ela fosse obrigada a passear sozinha no shopping.

Isso me fez pensar.

Deixei de mentir para o médico. Na última consulta lhe falei tudo o que estava sentindo. O cansaço. As ressacas letais. O maratonismo etílico. Ele se surpreendeu, e aparentemente interrompeu o jogo que desfrutávamos e agora me obriga a entrar na linha. Sua mais fiel assecla atende pelo mesmo nome de minha mulher.

Tenho 42 anos. Chegou a hora de dar um tempo, é o que todos dizem. O médico, minha mulher, os amigos da lista de emails com quem me correspondo diariamente. Como não quero pensar no que minha mulher sentirá ao passear no shopping sem mim, assenti. Não temos esse costume, todavia. Nunca vamos ao shopping.

O problema todo se deve ao meu fígado gordo, empanturrado, glutão contumaz, insaciável. Não posso nem mesmo esmurrá-lo, pois tenho dúvidas quanto à sua localização exata. Poderia, por exemplo, acertar o rim, que não tem a nada a ver com o problema. Meus rins funcionam perfeitamente bem.

Aderi, portanto, ao tratamento, que consistirá em 3 meses de consumo diário de um medicamento destinado a diabéticos, e que, segundo o médico, tem a função de eliminar gordura de meu corpo neste seu quadragésimo segundo ano de sobrevivência. Também tomarei doses diárias de vitamina E, um antioxidante que auxiliará meu fígado balofo a se movimentar e a fazer seu trabalho. Depois desse período, novos exames serão realizados, e só então saberemos as reais condições de meu fígado.

Nesses noventa dias eu não poderei beber.

Hoje sonhei acordado com meu fígado: ele havia se inscrito numa academia e suava horrores numa esteira.

Quero só ver.

[Fragmento de um romance em progresso]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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17 Comentários

  1. […] aqui o “Fragmento do diário de um abstêmio”, do Joca Terron, e os comentários sobre o texto, me toco de quanto essa confusão entre autor e […]

  2. Luh disse:

    Bem legal o texto!!!

    O alcoolismo é cruel, começa na inocência de esquecer os problemas e curtir mais a festa, e passado um tempo, para alguns torna-se uma necessidade – uma doença.
    Só quem passa ou tem alguém na família sabe como é complicado para o dependente sair do vício.
    O meu pai, foi internado, pois a situação estava descontrolada, ficou 1 mês apenas, no entanto, ficou limpo por 3 anos. Só q com uma reunião no bar e a desculpa falaciosa que uma pinguinha não faria mal, acabou retornando ao vício, não bebe tanto como antigamente. Mas, tb ñ sabe se controlar e cai, podendo se machucar o que é uma aflição para mim.

    Gostei muito do blog da companhia, das colunas e vou ficar acompanhando aqui.

    Eu te desejo muita força e boas leituras =D

  3. Ailime Kamaia disse:

    Nunca li um livro do Joca. Imagine, ler história escrita por um homem careca e barbudo!
    Mas esse fragmento me fez querer entrar imediatamente num romance do Joca! A certeza que devo lê-lo veio com o comentário:

    “Agradeço demais os desejos de boa sorte e os emails recebidos que perguntavam de minha saúde. Gostei tanto deles que até estou pensando em pedir pra Diana remover aquela nota de rodapé ali que diz “fragmento de um romance em progresso” e sair por aí em busca de uma hepatite pra chamar de minha.”

  4. joca terron disse:

    Obrigado pela simpatia, Bruno! Na próxima, não deixe de cumprimentar :)

    (João, valeu pelo trecho de Rilke!)

  5. Bruno Vicentini disse:

    Sou do interior do Paraná, estive em São Paulo dia 7 agora pra, entre outras coisas, conhecer a lendária Mercearia São Pedro. Cheguei e fui logo escaneando o recinto a procura dos renomados bebuns da Merça. Avistei o Joca em frente ao balcão, inconfundível com sua barba e sua careca. Juro que o simples fato de estar ali na Mercearia, onde o Joca também bebia sua brahma, era pra mim uma espécie singela de realização.

    Mais tarde, na mesma noite, ele veio ocupar uma mesa ao lado da que eu ocupava com minha namorada e uma amiga. E a noite prosseguiu assim até fecharmos o bar, as duas últimas mesas a pagarem a conta. Não troquei uma palavra sequer com o escritor que tanto admiro, mas senti-me realizado.

    Hoje, ao ler aqui a primeira frase, subi a barra de rolagem pra conferir a data da postagem. Por um curto momento (até terminar a leitura da coluna e dos comentários), e de acordo com a minha lógica particular, bebi com o Joca em seu último fim de semana antes da sobriedade. Felizmente me enganei. Melhor assim. Estimo saber que ele tá bem, continua bebendo e lutando a boa luta.

    Um abraço, Joca.

  6. joca terron disse:

    Queridos (todos)

    Agradeço demais os desejos de boa sorte e os emails recebidos que perguntavam de minha saúde. Gostei tanto deles que até estou pensando em pedir pra Diana remover aquela nota de rodapé ali que diz “fragmento de um romance em progresso” e sair por aí em busca de uma hepatite pra chamar de minha.

    Fato 1. O texto faz mesmo parte de um diário que mantive em 2010 quando atravessei os probleminhas citados.

    Fato 2. Problemas, aliás, mais ou menos superados.

    Fato 3. Eu não parei de beber.

    Fato 4. Há tanta ficção travestida de eufemismos e gentilezas nos tratamentos médicos que realmente penso em assumir o diário como um romance. A ver.

    Fato 5. Um grande abrazo pra todo mundo (beijo, mãe da Valentina!)

  7. João Caldas disse:

    Eis aqui a abertura de “Os cadernos de Malte Laurids Brigge”, que considero entre os melhores começos de romances que já tive a oportunidade de ler.

    “11 de setembro, Rue Touillier

    Então é aqui que as pessoas vêm viver; eu antes diria que aqui se vem morrer. Hoje sai de casa. E vi: hospitais. Vi um homem cambalear e cair. As pessoas roearam-no, poupando-me o resto. Vi uma mulher grávida. Arrastava-se pesadamente ao longo de um muro alto e quente, que por vezes apalpava como para certificar-se de que ele ainda estava ali. Estava. E por trás dele? Procurei no meu roteiro: Maison d’Accouchement. Muito bem. Vão partejá-a ali. Nada se opóe a isso. Adiante, Rue Saint-Jacques, um edifício grande, com uma cúpula. Meu mapa indicava Val-de-Grâce, Hospital Militaire. Na verdade nem precisava dessa informação, mas não importa. A rua começou a cheirar mal por todos os lados. Até onde podia se distinguir, cheirava a iodofórmio, a gordura de pommes frites, cheirava a medo. Todas a cidades cheiram mal no verão. Depois vi uma casa singularmente cega, de uma cegueira fixa. Não encontrei em meu mapa, mas sobre a porta estava escrito, ainda bem legível: Asyle de Nuit.

    “Ao lado da entrada, os preços expostos. Li todos. Não era caro.

    “Que mais? Uma criança num carrinho de bebê parado: era gorda, esverdinhada, com uma nítida erupção na testa, em fase de cura, já não doía mais. A criança dormia, boca aberta respirando iodofórmio, pommes frites, medo. As coisas simplesmente eram assim. O importante era estar vivo. Sim, era isso o importante…”

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