Literatura se faz na universidade?

Por Carol Bensimon


Carol Bensimon, Luís Roberto Amabile e Augusto Paim na Festipoa

Aconteceu uma coisa muito interessante na minha cidade nesses últimos dias, e ela se chamava Festipoa Literária. Ou: debates e leituras com certo grau de descontração, idealizados pela grande figura de ar latino Fernando Ramos, de cujas calças verdes eu sinto uma tremenda inveja. Este ano, a Festipoa definitivamente conquistou o seu lugar na agenda literária do país. Eu vi Beatriz Resende e Ítalo Moriconi dizerem que as universidade cariocas estão apaixonadas pela literatura brasileira contemporânea. Eu vi Fabrício Corsaletti de botas declamando aquela linda ode aos rabanetes. Eu vi Rafael Coutinho e Santiago discutirem os quadrinhos brasileiros em paralelo com a situação política e econômica do país desde os anos sessenta.

No domingo, fui uma das convidadas da mesa “Literatura se faz na universidade?”. Junto comigo estavam Luís Roberto Amabile e Augusto Paim (o mediador), ambos mestrandos em Escrita Criativa pela PUCRS. Em 2008, eu ganhei esse diploma: mestre em Escrita Criativa. Talvez eu deva explicar isso melhor.

Desde o fim dos anos oitenta, há uma oficina literária muito conhecida em Porto Alegre, ministrada pelo romancista Luiz Antonio de Assis Brasil dentro da PUC, e que dura um ano inteiro. Quase todos os gaúchos com alguma projeção no meio literário passaram por essa oficina, e portanto é obrigatório que, alguma vez na vida ou em geral muitas vezes na vida, eles precisem responder à pergunta: no que as oficinas literárias ajudaram na sua formação? É claro que você é muito grato à oficina, mas essa pergunta vai se tornando um bocado cansativa e inútil.

Em 2006, o professor Assis Brasil deu um passo além das oficinas: idealizou um mestrado em Escrita Criativa, nos moldes dos cursos de Creative Writing que você encontra na universidade americanas (só um parênteses: os franceses acham que esse tipo de coisa é uma enganação tremenda. Eles acham que só velhinhos deveriam frequentar essas oficinas, como distração. Talvez seja por isso que a literatura francesa de hoje esteja perdendo feio para a anglo-saxã). Desde então, esse mestrado se aperfeiçoou um bocado, se descolou do eixo da Teoria da Literatura, e aumentou as vagas (de três para oito). E começou a ter uma certa visibilidade nacional. O próprio Luís Roberto Amabile, meu companheiro de debate, largou a vida de jornalista em São Paulo para tentar ser “escritor”.

Toda vez que se discute criação literária e universidade, há uma certa dose de polêmica. Diploma de escritor, como assim? Bem, não se trata exatamente disso. Ou você acha que alguma editora vai publicar o seu livro porque você cursou um mestrado em Escrita Criativa, tal qual um gerente de recursos humanos vai levar em conta o MBA de um candidato? O argumento mais banal (e verdadeiro) em defesa da criação literária na universidade é que as outras artes, música e artes plásticas, por exemplo, têm um pé fincado na academia faz tempo; e isso não faz com que todo graduado em artes plásticas torne-se um artista, tampouco que todo o artista plástico precise de um diploma para exercer a sua genialidade.

No entanto, outros desdobramentos da polêmica não têm, no meu entendimento, resposta tão única e imediata. Um escritor escreverá melhor se ele souber um pouco de teoria? Embora nem eu nem o Luís Roberto escrevamos pensando em Genette ou Todorov, algumas pessoas na plateia disseram que sim, elas escrevem com Foucault na cabeça. Outra pergunta, oposta a essa: a teoria literária e a dissecação do processo criativo dos outros tornaria menos “natural” nosso próprio ato de escrever? Para mim, escrever é quase anti-natural, então essa pergunta não faz sequer sentido, mas respeito quem pensa, e escreve, de outro modo.

Depois, as questões de ordem prática: há pessoas na universidade preparadas para avaliarem uma obra literária no lugar de uma dissertação? Não exatamente. Professores da Letras não estão habituados a isso, e escritores não costumam ter um diploma de doutorado, o que impede sua participação em bancas. Esse cenário mudará nos próximos anos? Talvez. Os trabalhos criativos sofrem preconceito dos teoristas? Sem dúvida. Romances estão sendo aceitos com o valor de teses em algumas universidade do Brasil? Sim, estão.

Ainda que não se aprendesse coisa alguma dentro de um mestrado em Escrita Criativa (o que não é o caso), me parece que o simples fato de você assumir que quer se tornar um escritor já tem um poder transformador enorme. Se isso for acompanhado de uma bolsa então, você tem dois anos para se jogar nos seus textos e ver o que sai dali. Sim, às vezes a literatura passa pelas questões concretas da vida, infelizmente. Mas o Luís Roberto curte pra burro o outono em Porto Alegre.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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22 Comentários

  1. Ivaldo disse:

    Escrever é quase anti-natural: isto que você escreveu aqui dá um bom livro. Que tal começá-lo? Sou poeta e gosto da poesia pelo tamanho da liberdade que dá, pelo menos em relação a prosa. E tem gente que acha a prosa mais fácil do que a poesia. Quê fazer? Já tenho 7 anos estudando prosa, sem professor, e consegui escrever pouca coisa interessante, mas até bastante interessante (Proust deve estar se remexendo no túmulo). Quem me dera o meu mestrado em escrita criativa na PUC-RS, a minha graduação em formação do escritor na Unisinos e a minha oficina com o Assis Brasil, com certeza encurtariam 7 anos para 2 anos, 1 ano ou até 6, 3 meses. Isso me lembra de que tenho de estudar para a prova da OAB.

  2. Matheus disse:

    Aproveito para dar os parabéns pelo blog…

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