A ala dos escritores

Por Vanessa Barbara

Julio Cortázar comprova a tese

“Hoje cedo tirei uma vírgula. À tarde, coloquei-a de volta.”
(Oscar Wilde)

Em 1994, o psiquiatra Felix Post publicou um artigo no British Journal of Psychiatry chamado “Creativity and psychopathology: A study of 291 world-famous men” [Criatividade e psicopatologia: Um estudo de 291 personalidades]. Analisando a biografia de grandes cientistas, filósofos, estadistas, pintores e músicos, buscou determinar a prevalência de distúrbios mentais nesses indivíduos, que supostamente aliariam genialidade e loucura. Ao contrário do esperado, eles até que eram normais.

Um terço dos cientistas não apresentava nenhum indício psicopatológico relevante, enquanto políticos e compositores tinham coeficientes de loucura igualmente baixíssimos. Um único grupo se destacava: o dos escritores. Espantosos 88% possuíam traços de psicopatologia acentuada ou severa, e 72% sofriam de depressão profunda. Em relação à população geral, os índices eram também elevados.

A ligação entre os escritores e o destempero foi estabelecida em inúmeros estudos, como o de Nancy Andreasen (1987), segundo o qual escritores têm o triplo de probabilidade de desenvolver transtornos de humor e quatro vezes mais chances de se tornar alcoólatras, e Kay Jameson (1989), que registrou taxas de suicídio seis vezes maiores na categoria. O próprio Felix Post deu prosseguimento à sua investigação e concluiu que poetas são escandalosamente mais propensos ao transtorno bipolar — por outro lado, são mais sociáveis e menos introspectivos que seus colegas romancistas e dramaturgos. Estes, sim, têm avassaladora tendência à depressão grave, ao vício e à disfunção afetiva.

Segundo o estudo, 56% dos escritores tiveram uma infância infeliz e 26% sofreram de tuberculose. O histórico familiar de afecções psiquiátricas também era anormalmente elevado. A expectativa de vida foi de 65 anos, sete a menos do que os cientistas e políticos, mas três a mais do que os compositores. Dos cinquenta escribas analisados, apenas Guy de Maupassant foi considerado normal. Entre os mais transtornados, destacaram-se Hemingway, Joyce, Fitzgerald e Tolstói, que encontraram páreo apenas em artistas como Picasso e Van Gogh. Representados por monstros sagrados da política como Gandhi, Lênin e Bismarck, os estadistas ganharam na categoria “ansiedade”, mas na depressão severa os escritores novamente deram um banho.

Em quase todas as áreas, os cientistas são os mais estáveis — sobretudo nos relacionamentos conjugais. Há poucos inegavelmente malucos como Mendel e Bohr. Quando o assunto é dependência de drogas e alcoolismo, os escritores mais uma vez levantam o caneco — com o perdão do trocadilho.

Os números são mais ou menos díspares; a validade das pesquisas, relativa. Ainda assim, a premissa faz sentido — supõe-se que o centro da questão esteja no processo da escrita, naturalmente introspectivo e angustiante, e no aprofundamento exaustivo de situações e personagens. Nas palavras de Ernest Hemingway, o bom escritor é basicamente solitário e precisa encarar a eternidade (ou a falta dela) dia após dia, o que só alimenta a angústia.

A outra hipótese é inversa: os deprimidos é que optariam pela carreira de escritores, por vocação e temperamento. “Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e no fundo de seus motivos há um mistério”, define George Orwell. “Escrever um livro é uma batalha longa e exaustiva, como lutar contra uma doença grave. Só se empreende uma tarefa dessas movido por algum demônio que não se pode vencer ou compreender.”

Em todo caso, é como ter caligrafia ruim e prestar vestibular para medicina — se você já tem uma porção de esquisitices, o melhor a fazer é tirar proveito delas. Do que se conclui que não é preciso ter problemas psiquiátricos para ser um bom escritor — mas ajuda.

* * * * *

Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
SiteFacebook

30 Comentários

  1. Minha Psicanalista não fala muito comigo, acho que minhas conversas com ela não são tão produtivas, porque há algum tempo que parei de escrever por tanto falar…

    ah! Vanessa, qual seria o primeiro passo para se trabalhar numa editora, além de enviar os currículos… é claro! ^^ =*

  2. […] Todos querem saber o segredo da felicidade e o sentido da vida, porém uma pequena parcela de uma tribo chamada leitores tenta desvendar o segredo dos maiores escritores. A nômade de Mandaqui, Vanessa Barbara, desvenda esse mistério pelos corredores de um hospital psiquiátrico, para ser mais exato: na ala dos escritores. […]

  3. […] das Letras, Crônicas Tags: depressão, escritores, Felix Post, literatura, psiquiatria 0 ImprimirBlog da Companhia das Letras 8 de maio de […]

  4. […] CONTINUA. Like this:LikeBe the first to like this post. Published: May 10, 2012 Filed Under: Uncategorized […]

  5. Alika Finotti disse:

    Humor fino. Excelente conclusão. E o mistério pulsa ad eternum.

  6. valter ferraz disse:

    Todo escritor é um atormentado. Em maior ou menor grau, mas atormentado.
    Acalmamos nossos demônios, nunca os derrotamos. Mas isso é como saber que temos a doença, melhor saber do que desconhecer.
    Conhecendo nossos demonios, podemos conduzi-los para lá e para cá e talvez assim possamos distraí-los.

  7. Angel Cabeza disse:

    Como dizia Bandeira: “Eu faço versos como quem morre”.

    São os complexos, problemas emocionais, visões inquietantes do mundo, que movem o artista a criar as mais belas obras. Uns se entregam mais que outros. Mas ninguém cria nada sem o estalo, sem a problemática envolvida. É partindo de um problema ou dúvida – pessoal ou coletiva (e podemos dizer que existe a empatia na coletividade)– que o artista cria a sua mensagem como forma de libertação. Não há como separar artista da criação (mesmo que a obra não tenha uma certa carga biográfica ela possuirá a carga emotiva). É preciso sentir o momento.

    Ninguém escreve por escrever. Silvia Plath, Ana Cristina Cesar, Nietzsche, todos viscerais no que faziam. Deixaram belas obras.

    Rilke foi influenciado pelo Expressionismo. E o que é o Expressionismo sem a marca da Primeira Grande Guerra?
    Depois de uma vida de arte foi morrer num sanatório em decorrência de uma leucemia.

  8. Eduardo Alves disse:

    Ahahahaha… O duro é acabar achando que só a loucura já tá de bom tamanho pra ser escritor.

  9. João Caldas disse:

    Tens razão, Rilke. Mas mesmo ele, o mais entranhado dos artistas, mesmo ele às vezes punha em dúvida essa harmonia arte-artista, como nesses dois fragmetos de cartas endereçadas a esposa. O segundo, é digno de constar no frontispício de algum romance de formação. Ou como epitáfio na lápide de alguém que muito penou, que muito aspirou.

    “Meu Deus: o que explorei no ano passado; mares, parques, florestas e campinas: minha saudade de tudo isso é às vezes indescritível. Agora (em Paris) que aqui já ameaça o inverno. Já começam as manhãs e tardes nubladas, onde o sol é apenas como o lugar em que o sol estava antes, e onde nos canteiros dos jardins, todas as flores do verão, as dálias, os longos gladiólos e as fileiras de gerânios gritam neblina adentro a contestação de seu vermelho. Isto me entristece. Trás à tona lembranças sem consolo, não se sabe por quê: como se a música do verão urbano se acabasse em uma dissonância, como uma rebelião de todas as notas; talvez apenas por termos contemplado tudo isto tão no fundo de nós mesmos e interpretado, e vinculado a nós, sem o termos nunca feito.”

    “Vivemos tão mal porque chegamos sempre inacabados ao presente. Incapazes e dispersos em tudo. Não consigo recordar nenhum momento da minha vida sem tais censuras e outras maiores.”

Deixe seu comentário...





*