A bunda da Scarlett Johansson

Por Érico Assis

Deu tudo certo: as tribos do Serengueti, as Carmelitas Eremitas, excursões de Varginha, seu pai, sua mãe, gente que só via 3-DVD-por-dérreal, todos os cachorros de rua, você e o você de outra dimensão pagaram para assistir Vingadores nesta semana que passou. Duas vezes cada um. É a única explicação para a bilheteria de 640 milhões de dólares em dez dias.

Isso dá cinco milhões de reais por hora. Chutando baixo, seriam 64 milhões de ingressos. É mais gente do que a soma de todas as mãos que já pegaram um gibi dos Vingadores. Em 50 anos. Sendo pessimista, pode ser número maior que o total de leitores de quadrinhos no mundo. E enquanto você lia estes parágrafos, mais 2000 bilheterias subiram a plaquinha de “lotado” e carregam o filme rumo ao bilhão.

Contribuí com 0,000000024% dessa arrecadação. Curti os diálogos, curti o Hulk, queria voltar lá a eu com oito anos e dizer “vai ter tudo”. Mas a explicação que meus amigos me deram foi outra: a culpa é da bunda da Scarlett Johansson. A conclusão muito macha é que o filme não tinha como dar errado exibindo daquele jeito o colante apertado sobre a bunda da Scarlett. Os efeitos são milionários, os diálogos são grandes sacadas, o Hulk é mesmo muito legal, mas aquela bundinha era o ingresso.

Peraí.

A Viúva Negra, personagem que Scarlett e bunda interpretam no filme, existe há uns quarenta anos. Era mais uma criação óbvia da Guerra Fria: a espiã russa infiltrada entre os heróis norte-americanos. Como dizia um amigo retrógrado, a Viúva virou a personagem mais “rodada” do Universo Marvel, tendo namorado entre meia dúzia e uma dúzia de super-heróis (que não devem ter entendido a alcunha). Mas o que nos interessa aqui é que, neste meio século, sua bunda foi desenhada por pelo menos uns cem quadrinistas.

O Hulk esmagou num milhar de mãos hábeis na prancheta sem nunca ganhar a cara do Mark Ruffalo. O Batman ganha chifrinhos minúsculos ou imensos, virando mais ou menos ameaçador, de acordo com a disposição e a sobra de nanquim. A Mulher-Maravilha não girava, mas esteve sempre com os cabelos da moda depois de correr, lutar ou pilotar jatos invisíveis. O Homem de Ferro teve praticamente uma armadura nova a cada desenhista. O Superman sempre teve aquele olhar 42 de confiança, mesmo antes de ser o Christopher Reeve. E a Viúva Negra sempre teve uma linda derrière.

Enfim, por que é que, com todas essas opções de desenho, representação, de idealização destes personagens, suas poses, suas bundas, garras, raios repulsores e visões de calor, em centenas de milhões de quadrinhos que custam frações de um ingresso de cinema, ainda se prefere ver super-herói em carne, osso e CGI na telona? Eles viram “mais reais”? Só porque se mexem? Porque falam? Porque são a Scarlett Johansson?

Ok, também já tive essa ânsia por querer que minhas histórias queridas dos gibis virasse gente com efeitos na tela grande. Hoje consigo ver as coisas bem separadas: o gibi é o gibi, o filme é o filme. São códigos diferentes, registros diferentes. Se houver respeito ao original, não vai colar. Sinto vergonha alheia toda vez que vejo aquele cara vestido de Capitão América. Dá para acreditar naquilo num mundo bidimensional, deformado e estilizado pelo traço do quadrinista. Em carne e osso, o ricaço da cidade vestido de morcego seria, no máximo, pervertido sexual.

O fato é que nos quadrinhos, você pode idealizar o mundo como quiser, tanto enquanto autor como enquanto leitor. Aquelas linhas expressam sensações que nem o Robert Downey Jr. consegue passar. Os balões sugerem vozes, ritmos, entonações que você orquestra na mente. E tem as onomatopeias. E as cores. E o orçamento ilimitado de efeitos especiais, figurino, locações. Enfim, tem a sua imaginação trabalhando para visualizar aquela narrativa numa realidade que, geralmente, é muito melhor desenhada que a que existe, real, à sua volta. Ou que uma construída para filmagens. Por que isso não vale 640 milhões em dez dias?

Com todo respeito aos genes, aos cirurgiões plásticos, aos personal trainers, aos nutricionistas e artistas de Photoshop que fazem a bunda da Scarlett Johansson ser o que é, e aos meus amigos, ainda troco ela pelas horas de imaginação que me rende uma Viúva Negra do George Pérez. A bunda da Scarlett até pode ser de verdade, mas, convenhamos, nem eu nem você vamos descobrir. Uma Viúva Negra de gibi me é muito mais real que a Johansson de colante.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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28 Comentários

  1. […] Revelado o segredo para o sucesso do filme Os Vingadores: foi a bunda da Scarlett Johansson. É o que conta o Érico Assis, no divertido artigo para o Blog da Companhia das […]

  2. Rogério disse:

    Bem,
    Tudo explicado. Ficamos assim.
    Só para encerrar. A Marvel disponibilizou, gratis, mais de 200 títulos de HQ históricos, inclusive o da estréia do Homem Aranha, que vale mais de 200 mil dólares. Vamos aproveitar a “galinha gorda”, pode durar pouco tempo:
    http://marvel.com/digital_comics/list?isFree=1
    abraços.

  3. Bernardo Mascarenhas disse:

    Acho que entendi seu ponto, Érico. Gostei demais do filme, e como leitor das hqs é bom ver esse material sendo adaptado da forma certa, além de testemunhar o reconhecimento do público. Mas no fundo sempre fica aquela impressão, se é bom agora, já não era também nas inúmeras versões que já houve nas hqs? Porque a maioria desse público nunca prestou atenção antes? O tom e o estilo visual das séries clássicas ficou ultrapassado? Pra isso existiu a versão ultimate, com alguns conceitos e sacadas que foram utilizados no próprio filme, inclusive. Preconceito contra o próprio meio hq, que ainda é tido como coisa de criança para a maioria? Provável, mas temo que o buraco seja mais embaixo, e tenha a ver contra o próprio ato da leitura, seja ela acompanhada de ilustrações ou não. Sinceramente, acho que a grande verdade não dita sobre o público em geral preferir os filmes às hqs é a preguiça pura e simples de pegar alguma coisa para e sentar para ler.

  4. Matheus disse:

    Pelo menos desbancou aquela merda dos filmes do Harry Potter!

    Pelo que me lembro a bunda da Scarlett deve ter aparecido 1 ou duas vezes com o destaque que merecia rsrsrs

    É a velha história, meu avô até hoje diz que prefere a máquina de escrever ao computador…tem gente que não evolui…

  5. Taciana Trigo disse:

    Muito bom o texto, adooooooooooooorei – mesmo não sendo alguém que tenha contribuído (ainda) para essa cifra invejável de arrecadação.

  6. Rody Cáceres disse:

    É POR ISSO QUE O “BRAZIL” NÃO VAI PRA FRENTE! Comentários de blog são sempre um ótimo material para avaliar a capacidade dos brasileiros em interpretar um texto. Pelo visto aqui, a coisa vai mal!

    Ótimo texto Érico!

  7. Luciano Bento disse:

    Cade a bunda?
    :)

  8. Laura Moura disse:

    Comentário muito bem humorado sobre o filme, finalmente alguém colocou as cartas na mesa. Estou com o Cavalcante: viva a bunda da Scarlett!

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