Dashiell Hammett: julgamentos literários

Por Joca Reiners Terron

1.

Dashiel Hammett foi um dos grandes do romance policial. O que nem todo o mundo sabe, porém, é que o escritor foi também excepcional caráter, de comportamento ético irredutível, ao menos no relacionado à esfera política (suas namoradinhas e seus companheiros de putaria e de copo talvez pudessem afirmar o contrário, contando alguma anedota espúria que manchasse a camisa impoluta do bom Dash). Ex-detetive da agência Pinkerton, roteirista de Hollywood, Hammett se envolveu em praticamente todas as causas políticas candentes desde sua filiação definitiva ao Partido Comunista norte-americano ocorrida no final dos anos 30, chegando a assinar petição pública pela libertação do líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes.

2.

O início da derrocada financeira de Hammett e de sua ascensão moral foi 1938. Nesse ano, ele recebeu seu último cheque da Metro Goldwyn Mayer, de 80 mil dólares, uma grana preta na época. Com o dinheiro que recebia da indústria do cinema, Hammett patrocinou, entre outras causas, The Spanish Earth (inteiro no Youtube), dirigido por Joris Ivens e escrito e narrado por Ernest Hemingway, documentário a respeito da Guerra Civil espanhola. Com o filme, promoveu a petição enviada ao presidente Roosevelt pelos Amigos Americanos da Democracia Espanhola. Nesse período, os executivos da MGM encheram o saco de vê-lo na imprensa invariavelmente metido em escândalos políticos relacionados, entre outros, às demissões de funcionários públicos devido às suas orientações ideológicas, e — ganha um doce quem adivinhar — demitiram-no.

3.

Em 1941, Hammett se alistou voluntariamente para lutar contra os nazistas. Tinha 47 anos e já estava meio fodido de tanto uísque, mas foi mesmo assim. Quer dizer, não foi, pois o FBI o interceptou em Fort Monmouth, New Jersey, enviando-o a Campo Shenango, agrupamento militar na Pensilvânia onde eram retidos os soldados suspeitos de envolvimento com linhas de pensamento político não muito bem vistas pela Realpolitik de Roosevelt: comunistas, anarquistas, sindicalistas de toda ordem e, last but not least, nazistas domésticos. Em Monmouth também estava J.D. Salinger, só que em lado oposto, pois estudava para ingressar no Counter Intelligence Corps, órgão de inteligência militar encarregado da investigação de possíveis espiões infiltrados. Já pensou, um filme no qual o jovem e arrogante Salinger, 26, investiga o célebre Dashiell Hammett, 47, mestre da crime fiction, ex-detetive, militante político e roteirista de Hollywood (a Hollywood que Salinger, aliás, detestava)? Esse eu baixaria. Depois de Campo Shenango, Hammett foi enviado a uma ilha a cerca de mil quilômetros da costa do Alasca, onde foi congelar o rabo e imaginar que estava na Sibéria até o final da Segunda Guerra.

4.

É inevitável ler as transcrições do primeiro julgamento a que Hammett foi submetido e não remetê-las a Bartleby, o escrivão, a novela de Herman Melville cujo protagonista a tudo responde: “Preferia não fazê-lo”. Aconteceu no início da caça às bruxas promovida pelo senador Joseph McCarthy, em 1949. Hammett era o dirigente do Congresso para Direitos Civis, um fundo financeiro que visava garantir o pagamento de fianças de prisioneiros políticos. Depois de libertar 11 militantes comunistas, ele foi preso e levado a julgamento. Sua única resposta em todo o julgamento foi: “Recuso-me a responder a pergunta, pois a resposta poderia me incriminar. Faço valer o direito que me concede a Quinta Emenda”. Resultado: mais 6 meses de cadeia, onde organizou a biblioteca. Tinha 57 anos e já começava a minguar luz no fim do túnel.

5.

O último julgamento de Hammett, em 1953, foi conduzido — uma honra? — por McCarthy em pessoa. O senador, notório jogador de pôquer, aplicava sua manha para o blefe na caça aos comunistas. O motivo da assembleia, ou sua desculpa, era a aplicação do dinheiro que o Estado investia na compra de livros de supostos autores comunistas. McCarthy queria saber se os direitos autorais recebidos por Hammett eram redirecionados ao Partidão. Uma piada, pois então o pobre escritor estava com sérios problemas (de saúde, inclusive financeira), devendo 100 mil dólares ao Fisco. Em diversos momentos dessa conversa riquíssima, o julgamento ganha contornos de julgamento literário, o que efetivamente não foi. Inquirido pelo senador se, na hipótese de ele próprio, Hammett, ser o responsável pelo programa de combate ao comunismo (liderado por McCarthy), compraria obras de setenta e cinco autores comunistas e as distribuiria pelo mundo todo com selo de aprovação. Resposta: “Bem, acho — é claro que não tenho certeza — que se estivesse combatendo o comunismo, não acredito que deixaria as pessoas lerem livro algum.” Entregando os pontos, McCarthy encerrou: “Isso soa esquisito na boca de um autor”. Fim da partida. Dashiell Hammet morreu de câncer em 1961.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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