Enquanto pásan los dias

Por Elvira Vigna

The Empty Apartment

Fiz um artigo sobre a Lygia Pape, de quem não gosto. E me esforcei. Li a respeito e tal. Fui ver a retrospectiva.

Mas aí fiz, está pronto.

Fiz também umas experiências em encáustica. Talvez use um dia. Alguma ilustração/capa que me peçam, e lá vou eu pegar as encáusticas semiprontas, dar um toque e pronto. E é isso o engraçado. Porque as coisas são feitas muito antes de serem de fato feitas. A Lygia Pape por exemplo. Há muito tempo que eu não gosto dela. Aí fiz o artigo dizendo que não gosto dela. E depois de alguns dias, o artigo sai. E aí nem leio. Nossa, que coisa mais antiga.

E o livro é bem parecido. Vivo lá uma coisa. Depois de um tempo (e agora estamos falando de anos e não mais de dias), percebo que a tal da coisa volta e meia surge na minha cabeça. Não se trata de um pensamento. Vem assim como um filme. E torna a vir. Aí eu vou e escrevo aquilo (ou pinto, mas em geral escrevo). Enquanto escrevo ainda dou um jeito daquilo ficar vivo. Naquele momentozinho. Tenho meus truques. Por exemplo, nunca me excluo, ou ao momento da escrita. Estou com frio? Pimba. Estou com frio por escrito. Gripada? Sai um atchim na frase. E por aí. Então fico até contentinha. Está certo, estou vivendo aquilo e viver é muito bom.

Aí fica pronto.

Aí mando pro editor, no caso, editora, a Maria Emília. E aí, bem, vou resumir esta parte. E aí um dia o livro sai. E eu olho para aquilo. Meu deus, não me peçam para reler. Eu, afinal, já estou com outra coisa na cabeça que não vai embora de jeito nenhum. Outro filminho que volta e volta. E que eu vou tentar escrever para ver se consigo ir em frente, arrastando isso aqui (estou olhando para minha jeans larguíssima e mambembíssima e que me serve, neste momento, de metonímia — a parte pelo todo — do resto do meu corpo porque escrevo sempre como estou agora: o notebook no colo, as pernas em cima da mesa). E uma coisa é certa, vão me perguntar a respeito.

Hein? Do quê?

Então para me distrair — e porque eu continuo tendo de dar um jeito de me sentir viva mesmo tendo posto minha vida em uma tela que depois vira um papel — eu fico olhando para quem pergunta. Acham que sou eu no palco. Não sou. É quem pergunta. Presto muita atenção em quem pergunta. Mesmo que não pergunte. Que esteja lá longe, do outro lado do papel. Fico pensando na pessoa, na vida dela. Sou eu que leio o leitor. Ou, pelo menos, é do que tento me convencer enquanto pásan los dias.

* * * * *

Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro. Atualmente mora em São Paulo. Este mês a Companhia lançou seu romance O que deu para fazer em matéria de história de amor. Seu livro anterior, Nada a dizer, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
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3 Comentários

  1. Marco Severo disse:

    Quando vi o vídeo em que a autora apresentava o na época mais recente livro, “Nada a dizer” em sua página, palavras como “escrota” e “muito lôka” me vieram à cabeça. Comprei o dito livro, junto com o “O que deu para fazer em matéria de história de amor”. E putz!, continuo vendo tudo isso na Elvira. Mas quando alguns poderiam pensar que essas palavras têm conotação negativa, cuidado!, a Elvira é realmente isso tudo – mas de um jeito que sacode, arrebata, atormenta o leitor. Que felicidade ter descoberto esta escritora em 2012! Obrigado, Companhia! Não fosse o blog, teria passado batido.

  2. Arthur disse:

    Após um texto curtinho, mais alguns livros entraram na minha lista dos que vou ler.

    Abraço, Elvira.

  3. Nunca me esqueço, na Bienal do Livro do Rio, eu com o Nada a Dizer nas mãos (tinha lido quase todo naquelas intermináveis 3,4hs diárias de ônibus), fim da sua fala na mesa, Daniel vai te cumprimentar e eu me apresento e digo ¨Elvira, esse livro tá acabando comigo¨ e tu falou algo que me fez me sentir do tipo: é isso mesmo, a escritora concorda. Pronto! tinha me lido!

    Hoje começo a ler O que deu para fazer em matéria de história de amor e já sei que de novo, você vai me entender!

    Gosto demais de quando tu diz que tudo vira um texto, um livro, que não há inspiração divina. Sou fã da Elvira, gente! ahhahahaa

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