Escrevendo “A trama do casamento”

Por Jeffrey Eugenides (tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

A trama do casamento se origina, apropriadamente, de um adultério literário. No final dos anos 1990, sofrendo de um bloqueio na redação de Middlesex, deixei o manuscrito de lado. (Não era exatamente que eu ainda não estivesse apaixonado, era só que eu não conseguia mais saber o que esperar da relação.) Nas semanas seguintes, passei a flertar com outro romance, não um épico cômico ao modo de Middlesex, mas uma história mais tradicional, sobre uma festa de debutante promovida por uma família de posses. Aparentemente, o novo romance oferecia tudo o que eu precisava. Não exigia muito, era fácil de conviver e tinha até mesmo medidas mais atraentes. Quando dei por mim, já tinha umas cem páginas — e foi então que o encanto se desfez. Percebi que as demandas desse novo caso seriam exatamente as mesmas daquele do qual eu estava tentando escapar. O fato é que eu sentia saudades de Middlesex. E passei a achar que descobrira por que nossa relação não ia pra frente. E foi assim, com um renovado senso de comprometimento, próximo do delírio, que reatei o relacionamento.

Com a publicação de Middlesex, retornei para o romance da debutante. Lá estavam suas cem páginas, exatamente onde as deixei. Elas pareciam legais. Contudo, ao voltar a trabalhar nele, algo me incomodava. O romance parecia um tanto démodê. O texto estava bem razoável, bom mesmo em algumas partes, mas em outras era insípido, não dizendo ao que viera. A história era narrada de múltiplas perspectivas, em pequenas partes de poucas páginas cada. Uma das personagens se chamava Madeleine. Ao compor a sua parte, novamente comecei a perder o rumo. Em vez de colocá-la na trama da festa de debutante, comecei a conjurar seus problemas com o namorado e os livros que ela lia então; não demorou muito e lá estava eu, deixando-me possuir pelas memórias dos meus tempos de faculdade, quando a obsessão semiótica sinalizava o caminho nas universidades americanas. E algo também mudou na forma como eu vinha escrevendo até ali. E eu posso identificar o momento exato dessa virada. Foi nessa linha: “Os problemas amorosos de Madeleine tinham começado numa época em que a Teoria Francesa que ela estava lendo desconstruía a própria noção de amor.” O tom dessa sentença diferia daquele do resto da obra. Era um tom mais íntimo, mais coloquial e mais revelador. Na mesma hora, aquele passadismo do livro que tanto vinha me desagradando deixou de ser um problema. O romance da debutante se desenvolvia mesmo como um romance do século XIX. Dele emanava o odor de um coche antigo vindo direto do mercado de pulgas. A parte de Madeleine, em contraste, evoluía com mais frescor, energia e vivacidade. Ela brotava diretamente dos interesses e das peculiaridades de minha própria vida. Ao deixar de ser a pálida contrafação de um romance do século XIX para se tornar um romance sobre uma jovem obcecada com o romance do século XIX e os efeitos dessa obsessão em particular sobre seus próprios anseios românticos, o livro evoluiu um século. Tornou-se contemporâneo, passou a soar contemporâneo, permitindo-me escrever sobre todas aquelas coisas que até então eu não tinha como poder escrever: religião e Madre Teresa, depressão maníaca, o sistema de classes vigente nas universidades ocidentais nos anos 1980, Roland Barthes, J. D. Salinger, a “Oração de Jesus” e o Talking Heads. Não demorou muito e eu já tinha umas cem páginas dessa nova parte.

A ironia era cristalina: lá estava eu, corneando um romance que fora minha amante! A parte de Madeleine não parava de aumentar. E quanto mais aumentava, mais eu gostava dela. No período de duas semanas difíceis, com precisão cirúrgica, separei os dois manuscritos, pegando três dos personagens — Madeleine, Mitchell e Leonard — e dando a cada um deles o seu próprio livro.

Eu não sabia àquela altura que o livro iria se chamar A trama do casamento, nem que giraria em torno do casamento. Mas pouco a pouco, enquanto ia tocando o livro, outras coisas sobre as quais eu vinha refletindo começaram a ser aproveitadas. Em 2004, na revista eletrônica Slate, passei a trocar impressões sobre o legado de Joyce com o romancista Jim Lewis. No curso de nossa correspondência, lamentei o fato de o romancista moderno não poder mais se servir da trama do casamento, a responsável pelo apogeu do romance. Em A trama do casamento fiz com que esse pensamento discretamente reacionário fosse verbalizado pelo velho orientador da tese de Madeleine, o professor Saunders:

“Na opinião de Saunders, o romance tinha atingido o seu apogeu com o romance de casamento e nunca tinha se recuperado do seu desaparecimento. Nos dias em que o sucesso na vida dependia do casamento, e o casamento dependia de dinheiro, os romancistas tinham um tema para escrever. Os grandes épicos cantavam a guerra, o romance cantava o casamento. A igualdade entre os sexos, boa para as mulheres, tinha sido ruim para o romance. E o divórcio tinha acabado com ele de uma vez. Qual era a importância da escolha de Emma se depois ela podia entrar com um pedido de divórcio? Em que medida o casamento de Isabel Archer e Gilbert Osmond teria sido afetado pela existência de um acordo pré-nupcial? Na opinião de Saunders, o casamento não tinha mais muita relevância, nem o romance.”

Demorei a perceber. Mas enquanto ia escrevendo sobre meus três graduandos, relatando seus últimos dias na universidade e o início de suas vidas adultas, reflexões acadêmicas desse tipo grudaram na minha história, acabando por fornecer uma sólida estrutura para o livro. Em vez de escrever uma trama do casamento, eu poderia desconstrui-la e, na sequência, reorganizá-la, adequando-a então às convenções religiosas, sociais e sexuais vigentes nos dias de hoje. Eu poderia escrever um romance que não era uma trama do casamento, mas que, de certo modo, acabava sendo; um romance fortemente tributário daquela tradição sem ao mesmo tempo rejeitar a modernidade.

É esse o pano de fundo intelectual de A trama do casamento. Mas não se escreve um romance a partir de uma ideia, ou pelo menos eu não consigo. Um romance se escreve a partir daquele substrato emocional e psicológico do qual não conseguimos, ou do qual não queremos, nos libertar. No meu caso, isso está relacionado às recordações de ser jovem, letrado, libidinoso e confuso. Com a estabilidade dos meus quarenta anos, casado e pai, posso revisitar o aterrorizante êxtase do amor dos tempos da universidade, e tentar revivê-lo a uma distância segura. Estávamos no ápice do inverno em Chicago quando tudo isso aconteceu. Dia após dia eu observava a neve caindo no lago Michigan da janela do meu escritório. Depois de separar os dois livros, coloquei um na gaveta e deixei o outro sobre a minha mesa. Fui em frente com A trama do casamento sem nem olhar para trás. E com isso mudei completamente: tornei-me uma pessoa diferente, um escritor diferente, e comecei uma nova vida com um novo amor, tudo isso sem nem ao menos sair de casa.

[Texto escrito originalmente para o site The Millions e reproduzido aqui com autorização. Leia um trecho de A trama do casamento.]

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Jeffrey Eugenides nasceu em Detroit, nos Estados Unidos, em 1960. Desde 1993, com o lançamento de As virgens suicidas — posteriormente adaptado ao cinema por Sofia Coppola —, é um dos escritores mais aclamados de sua geração. Muito aguardado, seu segundo livro, Middlesex, foi lançado em 2002 e recebeu o prêmio Pulitzer de melhor romance do ano. A trama do casamento é seu terceiro romance.