Letrinhas (quase) “de maior”

Por Lilia Moritz Schwarcz

Se eu disser que vi ela nascer, que troquei as fraldas dela e dei a primeira papinha, todo mundo vai me chamar de cafona, kitsch e sem senso: fora do tom. Mas juro que é verdade!

A Companhia das Letrinhas começou meio sem começar, como um hobby, ou uma vontade de fazer com que os outros lessem o que eu lia com meus filhos — Júlia e Pedro — e adorava, diga-se de passagem. Não foram poucas as tardes, almoços e jantares que passamos dentro de casa, mas viajando para todos os lugares deste mundo (e de tantos outros) ou em companhia de bichos falantes. Sempre muito bem servidos, de livros.

Na época, lembro que cuidava da coleção mais acadêmica da editora e tinha acabado de defender meu doutorado na USP. Eu vinha insistindo na ideia fazia tempo, meio sem convicção — entre uma tese e outra —, quando o Luiz (sempre ele) deu o start. Do tipo: “agora ou já”. Fico aqui me recordando de que fui pela enésima vez à tediosa Feira de Frankfurt, mas, naquele ano de 1991, com uma agenda muito mais divertida: ia encontrar, pela primeira vez, não apenas os colegas das University Press — a essas alturas velhos e bons amigos —, mas misturar (em boas doses) reuniões com agentes de luminosas e divertidas editoras infantis.

O resultado é que venci meu calvário em Frankfurt num ânimo só. Além de debater o último livro de história francesa ou de filosofia universal, nos intervalos ouvia histórias de elefantes, coelhos, duendes, bruxos, lobos e tomava força para segurar o resto do dia.

Voltei cheia de ideias e de projetos, e fui logo apoiada, de maneira inconteste, pelo pessoal da editora. Luiz me ajudou com a logística, Maria Emília Bender logo se candidatou para estar ao meu lado como editora, assim como Elisa e Hélio de Almeida (que na época trabalhava em período integral na Companhia), colegas que fizeram da Letrinhas um “luxo só”.

Apesar de sabermos que o mercado infantil brasileiro, já nessa época, era muito reconhecido — com toda razão — por sua qualidade, achamos que podíamos dar continuidade à filosofia da Companhia, que sempre advogou a ideia de que literatura não tem pátria. E assim fizemos. Na época existiam muitos clássicos estrangeiros à disposição, e começamos nosso catálogo chutando alto: Babar, Peter Rabbit, Babette Colle, Padington… era todo um mundo (ilustrado) que se abria diante de nós.

Mas um impulso fundamental veio dos autores da casa. Ruy Castro logo entregou sua bela versão de Alice no país das maravilhas, que ganhou cor e forma a partir das tintas inspiradas de Laurabeatriz. Nosso sempre amigo José Paulo Paes criou, especialmente para o lançamento da Letrinhas, um livro ontológico de poemas, Uma letra puxa a outa, cujo alfabeto teve um casamento ideal com o projeto gráfico e os desenhos arrojados de Kiko Farkas. A ideia era começar dialogando com a nossa editora “mãe” e dando um jeito de misturar o clássico com o moderno; o nacional ao estrangeiro; tradicional com vanguarda.

É certo que fomos aprendendo com nossos erros. A equação sempre foi conseguir fazer livros de qualidade, bonitos, mas segurando o preço num nível viável. Lançamos a Letrinhas, por exemplo, pensando que podíamos editar o mesmo livro sempre em capa dura e capa mole. Erramos feio, e os livros de capa dura ficaram muito caros e encalharam no depósito. Mas tentamos transformar o erro em desafio e hoje nos orgulhamos de ser uma editora que dialoga com as escolas, tem um perfil paradidático que é muito explorado por competentes profissionais como Mariana e Rafaela.

E assim fomos. Atualmente somos tantos que não há como citar todos os nossos autores, ilustradores, artistas gráficos… amigos de sempre e grandes incentivadores. Letrinhas deixou de ser hobby, ganhou maturidade e hoje já corresponde a 13% do faturamento da editora.

Mesmo assim continua pequena: a equipe central é composta apenas pela grande Helen (grande sobretudo na atitude, criatividade, profissionalismo e competência) e sua equipe (Geane, Leika, Hallini); da Elisa (que vela por nossos gastos, equilíbrio e bom gosto); da Mell (nossa mais recente e querida conquista) e pela luz maior da nossa equipe, e atual editora da Letrinhas: a Júlia.

A Companhia das Letrinhas nasceu como uma “filha pródiga” da Companhia das Letras e hoje, já adulta, é tocada com brilho, determinação, originalidade e seriedade, vejam só, por minha filha. Ops, muito mais que minha filha: pela editora Júlia Moritz Schwarcz.

Comecei em tom de bolero e termino no mesmo estilo. Vida longa a essa história que vai passando de geração em geração: de mãe para filha, de Letras para Letrinhas.

[A festa de 20 anos da Companhia das Letrinhas acontece este sábado, dia 19, no Museu da Casa Brasileira. Saiba mais aqui.]

* * * * *

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

8 Comentários

  1. sofia disse:

    lindo texto, e o final fez brotar lágrimas nessa leitora (cuja infância foi marcada por uma letra puxa outra).

  2. valter ferraz disse:

    Lilia,
    começo pelos parabéns à editora. Sucesso sempre.
    Leio muito e tenho um carinho especial pelas edições da Companhia das Letras (a mãe). Admiro o capricho que dedicam às edições e ao acabamento das mesmas.
    Agora, um pedido: gostaria muito se o escritor Ricardo, Filho fosse publicado pela Letrinhas, aí seria o máximo!
    Um grande abraço e Sucesso, sempre!

  3. angela dias disse:

    que linda cronica de mãe das letras letrinhas e histórias de nossas vidas !! parabéns por todas as sementes e colheitas !! ontem hoje e sempre !! precisamos muito desses frutos e da energia do sabor de saber compartilhando o simples e belo fazer refazer e fazer mais e melhor !! Avante Letras e Letrinhas mais e mais parabéns e felicidades a todos os envolvidos sempre !! abraços gratidão !!

  4. Ana Alvares disse:

    Muitos anos de vida à Letrinhas! Parabéns, queridas, e um beijo muito muito grande!

  5. mell brites disse:

    lili, muito legal ouvir você contar desse nosso cantinho que tem — literalmente! — tanta história pra contar. estou muito feliz de fazer parte de tudo isso! beijão!

  6. Lili,
    Postei sobre o evento no blog, antes mesmo de ter visto este texto. E nunca me esqueço de que foi a Letrinhas q me formou uma leitora voraz, e uma profissional do livro, que ama o que faz!
    Eu só tenho a agradecer a vocês por isso! :)

    Vida longa à Letrinhas!!
    Que ela ajude muitas outras crianças a se tornarem amantes de livros!

    Beijos,
    Talita

    PS: Esse post é sobre a Letrinhas na minha vida: http://nomundoeditorial.blogspot.com.br/2010/07/um-sonho-de-crianca.html

  7. Ernani Ssó disse:

    Adorei o nascimento da editora. Me lembrou meu próprio nascimento de autor infantil. Nunca consegui escrever uma linha para crianças antes de pensar em ter um filho, coisa que deve ter feito o Freud se revirar no caixão. Quanto ao bolero, Lilia, foi pouco pra tanta emoção. Parabéns.

  8. Camila disse:

    Ipi-ipi-urra… Parabéns, Letrinhas!
    Que texto meigo ;-)

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