Os bastidores de “Mata!”

Por Leonencio Nossa


Arquivo Curió. Celso Junior/ Reprodução

Em três artigos para o blog, o jornalista Leonencio Nossa conta sobre a pesquisa em um dos mais lendários — e secretos — arquivos da ditadura

Em março de 1983, a imprensa noticiou pela primeira vez o lançamento de um livro que apresentaria a versão do Major Curió sobre o massacre da Guerrilha do Araguaia, ocorrida na década anterior. “Curió não quis adiantar detalhes do livro, mas promete ‘coisas interessantes’”, destacou o Jornal da Tarde. Em 1986, o Jornal do Brasil avaliou que o livro era uma “verdadeira bomba”. Mais comedido, o New York Times, em 2004, divulgou que o agente contaria segredos das Forças Armadas na obra ainda em fase de produção.

Nos primeiros encontros que tive com Curió, em 2002, percebi que o livro sempre citado pelos jornais corria o risco de não ser publicado. Eu planejava desde os tempos de estudante escrever a história dos combates entre os guerrilheiros do PCdoB e os militares. Após anos de insistência, consegui convencer o agente a me repassar seu arquivo pessoal, fonte do livro jamais escrito — foram 46 viagens ao Pará e quase uma centena de conversas.

Ao folhear os documentos secretos, encontrei os rascunhos do livro que Curió começou a escrever ainda nos anos 1970. Em sete folhas de papel de seda, o militar relatou os motivos para romper o silêncio e contar o que sabia sobre a guerrilha. O titulo do livro incompleto era A selva do Araguaia.

Gosto de títulos simples. Optei em dar ao livro que afinal revelaria os segredos de Curió o título Mata!. É assim que os ribeirinhos se referem à Floresta Amazônica. Também recolhi as versões dos guerrilheiros sobreviventes, das famílias de executados e dos moradores do Araguaia. Para esclarecer documentos inéditos do arquivo do mais conhecido agente da repressão, fui atrás de pescadores, garimpeiros, mulheres de cabarés, cortadores de castanha, barqueiros, pistoleiros, participantes de revoltas e agricultores expulsos de suas terras.

Durante os dez anos dedicados à pesquisa no Bico do Papagaio, testemunhei dramas, fiquei ainda mais cético, falhei, evitei apologias, fiz um exercício para não perder a dimensão da tragédia. Em nenhum momento, porém, deixei de apostar na força da aventura humana como recurso narrativo.

Mata!, editado pela Companhia das Letras, estará nas livrarias a partir de 11 de junho. Agora, posso confirmar o que destacou, há cinco anos, um site na internet: “O livro sobre Curió e a Guerrilha do Araguaia já está na gráfica”.

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Leonencio Nossa nasceu em Vitória, em 1974. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo. Com passagens por veículos como A Gazeta, Jornal do Brasil e Época, trabalha no Grupo Estado desde 2001 e, atualmente, na sucursal de Brasília. É autor de Viagens com o presidente (em parceria com Eduardo Scolese), Homens invisíveis e O rio, e dos cadernos especiais “Guerras desconhecidas do Brasil” e “Os meninos do Contestado”, publicados em O Estado de S. Paulo. É vencedor dos prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, menção honrosa (2009), Embratel de Jornalismo (2011) e Estadão de Reportagem Especial (2011), entre outros.
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