Sobre a escrita de Livro

Por José Luís Peixoto


Emigrantes portugueses na França (Foto por Gerald Bloncourt)

Estar a meio da escrita de um romance é carregar um enorme segredo. Tentar contá-lo não adianta de nada. A visão daquele mundo só se tornará visível para todos depois de escrita. A única forma de nos libertarmos do seu peso é escrevê-la. Até lá, é impartilhável. Todas as formas que não sejam o romance são incapazes de comunicá-la; e o romance, já se sabe, demora tempo a escrever.

Enquanto escrevia Livro, transportava comigo um segredo imenso. Às vezes, duvidava de mim próprio, receava que as personagens se assomassem aos meus olhos, ou que a minha pele tivesse a textura das pedras da vila que me enchia os pensamentos. Muitas vezes, a meio de conversas, eu falava com a voz do Galopim, do Cosme ou do Ilídio quando deixou de ver a mãe. Nesse tempo, eu transportava comigo várias décadas que não vivi e que, durante a escrita de Livro, respirava de forma plena, absoluta, total.

Porque eu nasci no ano da revolução, 1974, setembro, mas, aos domingos, em almoços intermináveis, os meus pais e as minhas irmãs repetiam todas as histórias de quando, antes de eu nascer, durante a ditadura, tinham emigrado para França: o meu pai a trabalhar na construção civil e a minha mãe a fazer limpezas. Exactamente como centenas de milhares de portugueses. O número que é normalmente aceito é: um milhão e meio de portugueses. Entre 1960 e 1974, um milhão e meio de portugueses emigraram para França, cerca de 15% de toda a população do país. Esse era o tamanho do segredo que eu carregava enquanto escrevia Livro.

Os meus pais regressaram a Portugal pouco antes de eu nascer. Regressaram à vila do interior do Alentejo de onde tinham partido havia cerca de dez anos. Nessa vila de duas mil pessoas, eu passei a minha infância a imaginar Paris. A experiência da emigração marcou profundamente a vida dos meus pais. A minha mãe contava detalhes de uma modernidade distante que, nos anos oitenta, ainda era surpreendente em Portugal. Enquanto foi vivo, sempre que o meu pai bebia um copo a mais, começava logo a falar francês.

Ao escrever sobre o tempo e os caminhos da emigração, pude perceber que uma parte fundamental da história recente de Portugal se encontra ligada a essa passagem abrupta do mundo rural ao urbano. A meu ver, esse é justamente o ponto mais nuclear da mudança que aconteceu na sociedade portuguesa dos últimos cinquenta anos. Em 1960, Portugal era um país isolado. Hoje, de novo, Portugal é um país ligado ao mundo.

Para além da responsabilidade de escrever sobre uma experiência que diz tanto a tantas pessoas, ainda chamei para mim a ambição de construir um romance que pudesse sugerir alguns elementos essenciais da história popular de Portugal dos últimos cinquenta anos. Além disso, como se não bastasse, chamei-lhe Livro — um título que tive presente desde o início e que se relaciona com o enredo, com o estilo, com a estrutura e com as questões mais centrais do romance. Só esse detalhe é suficiente para denunciar o muito que fica por dizer mas, como eu, aqueles que o conhecem sabem que tentar contá-lo não adianta de nada. O resultado já não é um segredo. Livro está nas livrarias. A real visão do seu mundo só se torna visível depois da leitura.

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José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, estudou línguas e literaturas modernas (inglês e alemão) na Universidade Nova de Lisboa. Em 2001, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar. Seus livros foram traduzidos para cerca de vinte idiomas. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participará da programação alternativa da Flip deste ano.
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