Traduzir o “Ulysses”

Por Caetano W. Galindo


Capa: Raul Loureiro e Claudia Warrak. Ilustração: Chico França.

Traduzir literatura por contrato é uma coisa.

Você nem sempre traduz o que gostaria de ler. Você nem sempre tem o prazo que desejaria ter. Vida, vida.

Mas traduzir é uma experiência tão necessariamente suja (mãos-na-massamente falando), tão enfronhadinha, tão, digamos, íntima, que acaba que esses senões terminam por se dissolver um pouco. E você tem sempre uma relação mais pessoal, direta, com os livros que traduziu. Você, afinal, teve de escrever todos eles. Linha a linha.

Traduzir por escolha é coisa bem outra no entanto.

Quando eu decidi que minha tese de doutorado incluiria uma tradução do Ulysses, quando decidi que dos quatro anos que eu teria para escrever a tese eu usaria dois, inteiros, para essa tarefa, foi unicamente escolha minha, desejo meu. Projeto.

E aí foram dois anos, diários, de leitura, escrita e releitura. (Uma noção simples da intensidade do trabalho de tradução vem do fato de que, na batata, traduzir é ler ao menos três vezes ao mesmo tempo: correr o olho pela frase original, redigir a sua e lê-la com as outras).

O livro foi traduzido quase inteiro na ordem. (Um trecho eu fiz antes, para dar de presente para aquela que viria a ser minha mulher, no dia dos professores.) E o Ulysses é um livro inquieto. Se mexe sem parar. Muda o tempo todo. E traduzir esse livro tinha de ser assim também.

Insisto sempre com os meus alunos que o próprio Ulysses te ensina a ler o Ulysses, gradativamente. Eu tive de ir aprendendo a escrever o Ulysses, passo a passo, cada vez encontrando dificuldades maiores, mais numerosas, como sabe qualquer leitor. Mas cada vez me divertindo mais.

Quando você acha a linguagem, o registro, aparecem os trocadilhos, as piadas, as referências cifradas (São Gifford, o Anotador, que me valha!); quando deu conta disso, são as canções; mais os poemas; e aí vêm as paródias, pastiches; e depois um longo episódio que narra o desenvolvimento da literatura inglesa (e toca a gente — ela já era minha mulher — sentar e montar uma lista de modelos de textos portugueses e brasileiros, do século XIII ao XIX, cobrindo tudo quanto é gênero: crônica, carta, teatro, prosa, poesia, mais ou menos como os que Joyce usou quando escreveu; e toca ler cada um desses modelos, fazer listas de expressões, palavras, construções saborosinhas e típicas e aí, e só aí, traduzir o fragmento correspondente do episódio).

E quando tudo isso passou, você tem que lidar com a oralidade desmedida e precisa de dona Molly naquele solilóquio.

E quando você acha que acabou, no Bloomsday centenário, 2004, um século exato depois das andanças do Senhor Bloom por Dublin, vêm já seis anos de espera, banho-maria, retoquinhos.

Outros trabalhos. Aulas. Outras traduções.

Eu hoje venho conseguindo juntar as coisas: traduzir por contrato textos de escolha. Melhor ainda, agora contrataram o meu Ulysses.

E toca revisar tudo para você, quem sabe, querer ler daqui a pouco.

Escolha minha.

Terão sido dez anos de convívio com o livro.

Escolha minha, circunstâncias.

Por mim, valeu.

Tomara que você não ache que foi à toa.

[A edição de Ulysses da Penguin-Companhia já está nas livrarias. No vídeo abaixo, o editor André Conti fala um pouco sobre o clássico de James Joyce:]

* * * * *

Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês.

24 Comentários

  1. tiago a. disse:

    E aí, Diana? Cadê?

  2. […] Ulysses, de James Joyce (Tradução de Caetano W. Galindo) Um homem sai de casa pela manhã, cumpre com tarefas do dia e, à noite, retorna ao lar. Foi em torno desse esqueleto enganosamente simples, quase banal, que James Joyce elaborou o que veio a ser o grande romance do século XX. Inspirado na Odisseia de Homero, Ulysses é ambientado em Dublin, e narra as aventuras de Leopold Bloom e Stephen Dedalus ao longo do dia 16 de junho de 1904. Tal como o Ulisses homérico, Bloom precisa superar numerosos obstáculos e tentações até retornar a sua casa, onde sua mulher, Molly, o espera. Para criar esse personagem rico e vibrante, Joyce mistura diversos estilos e referências culturais, num caleidoscópio de vozes que tem desafiado gerações de leitores e estudiosos ao redor do mundo. Leia o post sobre a tradução do livro. […]

  3. Maria Luiza Newlands disse:

    Viva, Caetano! Venho lendo tudo o que você escreveu sobre e durante a tradução do Ulysses. Seu primeiro artigo me fez perder o medo e descer o livro da estante para começar a ler, o que acabei não fazendo (ainda), a fila de leituras tinha (longas) prioridades. Mas acabei de encomendar o SEU Ulysses, e vou mandar as prioridades para o espaço quando ele chegar. Ainda mais depois da descrição entusiasmada e TÃO CLARA do André no filminho.
    Que bom, que alegria ver um trabalho assim, parece que nasceu uma criança linda e perfeita, e todo mundo está em volta rindo para ela!
    Parabéns, e muita sorte para a criança e para os pais (todos) dela!

  4. Diana (admin) disse:

    Sim, será com a tradução de Frederico Lourenço.

  5. Jaqueline disse:

    Cara Diana:

    “Ilíada” na tradução do Frederico ? Aguardarei ansiosamente.

    Tanto a “Odisséia” como a “Ilíada” são livros clássicos, e, segundo a minha opinião, pelo menos estes, deveriam chegar ao mercado em capa dura visando maior durabilidade, pois são obras que merecem mais de uma leitura, tamanha a beleza e profundidade. Obrigada!

  6. Diana (admin) disse:

    Jaqueline, pretendemos lançar “Ilíada” no começo do ano que vem.

  7. Jaqueline disse:

    Enquanto esperava o lançamento deste livro comecei a ler “Odisséia” na tradução de Frederico Lourenço (Penguin) e estou amando, que obra fantástica ! Mas agora bateu a vontade de ler também a “Ilíada” também traduzida pelo Frederico. A Penguin Companhia tem a tradução disponível? Em matéria de leitura uma obra puxa a outra e assim não paramos de ler. Obrigada Caetano por estas tradução atualizada e renovada !

  8. Jose Alexandre da Silva disse:

    É um privilégio para a língua portuguesa ter quatro traduções do Ulysses (aqui incluindo Portugal). Desta luta hercúlea “onde se ganha um round para se perder outro logo em seguida”, Galindo saiu-se muito bem e venceu, mesmo que tenha sido por pontos. BRAVO GALINDO!!!

  9. Danielle C. disse:

    Fantástico!!! Parabéns pelo trabalho!

  10. Saulo von Randow Júnior disse:

    Parabéns, Caetano ! Uma pena suas anotações não terem constado do volume : elas merecem um livro a parte.

    Abraços

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