Mitsunaga, Ronin

Por Érico Assis

Diz o André Conti, editor da Quadrinhos na Cia., que estava em Nova York conversando com Chip Kidd, tentando convencê-lo de que, sim, a editora conseguiria fazer uma edição de Asterios Polyp à altura da original. Kidd é um designer de imenso renome no mundo bibliófilo e um dos cabeças da Pantheon, selo de graphic novels da Knopf, que publicou Asterios nos EUA.

O trunfo do André era a edição brasileira de Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo. Kidd também estivera envolvido no original.

— Mas então a letreirista de vocês teve que fazer tudo à mão? — perguntou o designer.

— Não. Ela criou as fontes e fez as variações.

Foi a definição que levou Kidd a ligar para David Mazzucchelli e convencê-lo: “Ok, pode deixar os brasileiros fazerem Asterios. Eles dão conta.”

O foco da conversa era, enfim, o trabalho de Lilian Mitsunaga. Eu, o André e mais alguns milhares de leitores de gibi de super-herói crescemos prestando atenção ao nome dela nos créditos da Editora Abril. Posso dizer que aprendi a ler com a letra da Lilian Mitsunaga. Na época, ela ainda fazia tudo à mão.

Letreirização de quadrinhos é daquelas coisas que você, leitor, só costuma notar quando há algo de errado. Valorizar o letreirista é algo que parte ou do quadrinista — que tem considerações sobre o contraste entre a fonte e seu traço, sobre o posicionamento dos balões, sobre as quebras de linha — ou do editor. No caso dos quadrinhos traduzidos, a letreirização é notada quando algum resenhista compara com o original e reclama que “a fonte escolhida para a edição brasileira trai a essência da obra.

É difícil que alguma dessas críticas chegue à Lilian. Quando eu a visitei, há poucas semanas, ela havia acabado de terminar a letreirização de Habibi, as quase 700 páginas do Craig Thompson que a Quadrinhos na Cia. lança em breve*. Lilian criou três fontes para reproduzir a caligrafia de Thompson. Alguns trechos tiveram que ser feitos “à mão” (leia-se desenhados no Illustrator). O da foto acima é um dos casos (clique aqui para ver a página).

Na conversa, descobri que o tempo de ofício da Lilian é igual à minha idade. Ela entrou na Editora Abril em 1980 já para colocar letrinhas nos balões das HQs. Passou dezoito anos como funcionária, mesmo que sempre tenha trabalhado em casa. História da época: “O Bafo-de-Onça, inimigo do Mickey, antes era Bafodeonça. O nome ganhou hífens depois que um letreirista separou as sílabas num balão. Numa linha ficou ‘Ba-‘, e na seguinte ‘fodeonça’.”

Quando deixou de ser funcionária e abriu empresa própria, continuou prestando serviço à Abril — hoje faz as letras de todos os gibis Disney, por exemplo —, mas também começou a trabalhar com os leitores que cresceram e viraram editores de quadrinhos. Também foi mais ou menos por essa época que começou a letreirar no computador — quando Macs ainda eram bastante caros e você precisava telefonar para os fabricantes de fontes nos EUA se quisesse comprar uma família tipográfica.

Na Companhia das Letras, Lilian fez a maioria dos Tintins antes de virar letreirista oficial da Quadrinhos na Cia. São delas as fontes de Will Eisner, Dan Clowes, Angeli, Laerte, Lourenço Mutarelli, Caeto — em alguns casos, criadas a partir do que originalmente era só nanquim. Faz parte do trabalho dela você não perceber o que é manuscrito e o que é digital.

Para o disputado Asterios Polyp, Lilian criou quinze fontes. E o serviço que encheu os olhos de Chip Kidd, Jimmy Corrigan, disputa com Asterios o primeiro lugar entre os mais complicados. Nas edições originais, Chris Ware vai na gráfica acompanhar a impressão. Para as estrangeiras, estipula em contrato como lidar com os arquivos — fica proibido chapar o preto com as outras cores, por exemplo — o que pode quintuplicar o serviço do letreirista.

Lilian é uma ronin. Trabalha sozinha, desde sempre — só tem colaboradores, externos, quando sua empresa presta serviço de tradução, colorização, revisão. Especificamente quanto às letras, sempre se especulou que ela assinava em nome de uma equipe, seguindo a tradição dos mangakás. A realidade é ela, um computador, mesa digitalizadora, impressora, scanner e dois telefones num escritório ao lado da sala de estar.

Trinta anos a tornaram sobre-humanamente rápida. Habibi tomou oito anos de Craig Thompson. Lilian levou dez dias. Tem gente que vai levar mais tempo para ler todo o álbum.

* Habibi tem lançamento previsto para o final de julho.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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15 Comentários

  1. Cristiano Antunes dos Anjos disse:

    Oi, Lilian! Que saudade!!! Lembra de mim? Trabalhei na Abril, na redação de super-heróis com o Figa, até o final da década de 90. Vejo que não saiu do seu ramo. Bem, eu virei funcionário público depois de muito quebrar a cabeça no mercado de trabalho e estou trabalhando numa escola de ensino fundamental. Que legal ter te achado. Agradeço ao Sr. Google. Bom, Lilian, fique com Deus e, se você ler esta mensagem e tiver um tempinho, me manda um e-mail. Bye!

  2. […] Nesse caso, eu não conseguiria colocar nem no maior dos textos o quanto as escolhas tipográficas são fundamentais e o quanto a Cia. das Letras acertou em deixar isso nas mãos de quem sabia perfeitamente o que estava fazendo. […]

  3. Liber disse:

    Que bacana! Ótimo texto, Érico! E viva a Lilian! :D

  4. Marcia disse:

    Trabalho de grande sensibilidade e dedicação. Excepcional, Lilian!

  5. Ed disse:

    Érico, que post feliz e necessário. Como você e outros muitos, também cresci lendo o nome da Lilian nas HQs. Recentemente comprei Asterios e, bem, lá está ela novamente. Trata-se realmente um mito, dona de um trabalho maravilhoso. Cumprimentos, Sr.. Abraço.

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