Os bastidores de “Mata!”, parte 3: Tatá e a espada

Por Leonencio Nossa

No último de três artigos para o blog, o jornalista Leonencio Nossa conta sobre os bastidores de Mata!, que já está nas livrarias. (Leia o primeiro e o segundo posts da série)

Nas viagens pelo rio Araguaia para escrever o livro Mata!, que a Companhia das Letras acaba de publicar, sempre ouvia a história de uma espada guardada por uma família de caboclos desde o tempo do Império. Foi atrás da origem dessa arma que bati na porta de uma casa modesta, a alguns quilômetros do rio, em São Geraldo do Araguaia, no sul do Pará.

Ali morava a matriarca da família, uma senhora de 93 anos. “É uma pena. Se você tivesse chegado cinco meses antes, falaria com mamãe. Ela não conversa mais”, disse Oneide, filha dela. Tatá, a matriarca, sofrera um derrame. Era a pessoa que eu buscava para conhecer a história da espada que fascinava gerações de ribeirinhos. Ao longo de dez anos de pesquisas sobre a Guerrilha do Araguaia passei a enxergar na arma um possível elo do conflito que envolveu o Exército e os militantes do PCdoB, nos anos 1970, com outras disputas na região.

De certa forma, saber a origem da espada era uma tentativa de mostrar que a Guerrilha do Araguaia tinha raízes antigas, brasileiras. A visão de que a Guerrilha foi apenas um episódio da Guerra Fria sempre me pareceu uma ideia cômoda, que serviu para anular um passado anterior de disputas violentas e isolar da história conflitos recentes, como Eldorado do Carajás e o Massacre de São Bartolomeu, ambos, também, no sul do Pará.

Antigos ribeirinhos tinham me dito que a arma era guardada por Tatá desde que ela, aos 18 anos, fugira de casa para se unir a um barqueiro. A espada estava escondida na canoa em que ela desceu o Araguaia.

Pedi para ver Tatá. Com ajuda de filhos, Oneide trouxe a matriarca numa cadeira de rodas até a sala da casa. Minutos depois, posicionei a câmara para tirar uma fotografia daquela mulher de pele bem mais clara que a das caboclas da beira do rio, mulher considerada ousada pelos pescadores e barqueiros, de Conceição do Araguaia a São João. Ela moveu o corpo e fez uma expressão. A filha logo entendeu que a mãe pedia para ser penteada. Com os cabelos ajeitados, Tatá ergueu o queixo. Queria aparecer arrumada e altiva na imagem.

Pelo que eu sabia, Tatá era a chefe de uma família de pessoas que tinham se envolvido em inúmeros movimentos contra tropas legais ao longo do século XX na confluência dos rios Araguaia e Tocantins. Durante a Guerrilha, militares bateram na porta dela. O marido, dono de um pequeno estaleiro, tinha construído um barco para os guerrilheiros. Tatá conseguiu esconder a espada dos adversários, mas não evitou dramas familiares. Um filho foi preso, uma filha fugiu para Mato Grosso. Mais tarde, um genro foi assassinado por fazendeiros.

Embora soubesse do envolvimento daquela família em movimentos contra o Exército, a expressão altiva de Tatá me remeteu, por instantes, a semblantes de algumas mulheres de militares que conheci. Talvez eu não tivesse motivos concretos para fazer essa associação. Dias antes de conhecer Tatá, eu tinha estado no apartamento de um general no Rio de Janeiro. O homem não quis me receber, mas sua mulher abriu as portas para mim e forçou o marido a me ouvir.

Buscar a ajuda de mulheres de militares foi importante para as pesquisas sobre o Araguaia. Elas sempre souberam que, no livro, seus maridos poderiam ser retratados sem disfarces, mas algo não as permitia negar uma memória que, de certa forma, também tinham de enfrentar.

Um filho de Tatá, morador de Xinguara, também no sul do Pará, relatou que a espada pertencera ao avô materno, e estava mesmo com Tatá desde o dia em que ela fugira de casa. Apenas com o nome do pai dela, João Crisóstomo Moreira, viajei para o Rio de Janeiro. Folheei livros sobre as guerras no tempo do Império. Depois, analisei almanaques do Exército e fichas de militares no Arquivo Histórico Nacional. Uma pista sobre Moreira me fez embarcar para Salvador. No Arquivo Histórico da Bahia, analisei dezessete pastas de manuscritos. Decidi que só sairia dali com a identidade do pai de Tatá. Era preciso saber a origem da espada e, mais ainda, a origem da altivez daquela senhora do Araguaia.

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Leonencio Nossa nasceu em Vitória, em 1974. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo. Com passagens por veículos como A GazetaJornal do Brasil eÉpoca, trabalha no Grupo Estado desde 2001 e, atualmente, na sucursal de Brasília. É autor de Viagens com o presidente (em parceria com Eduardo Scolese), Homens invisíveisO rio, e dos cadernos especiais “Guerras desconhecidas do Brasil” e “Os meninos do Contestado”, publicados em O Estado de S. Paulo. É vencedor dos prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, menção honrosa (2009), Embratel de Jornalismo (2011) e Estadão de Reportagem Especial (2011), entre outros.
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