Sorte de principiante

Por Sofia Mariutti


Capa por warrakloureiro. Foto de Ali Smith por Sarah Wood.

Somando idas e vindas por alguns departamentos da editora, intercaladas com um ano de estudos em Berlim, trabalho há uns bons três anos na Companhia, mas só em 2012 entrei em contato com o tão almejado ofício editorial. Se bem que o anterior (e não menos interessante) posto nos direitos estrangeiros já envolvia atividades que, em geral, são atribuídas aos editores, como a leitura e seleção de originais, seguidas da negociação dos direitos de tradução para a língua portuguesa.

Ainda assim, a natureza dos trabalhos é bem diversa. Com a Ana Paula, aprendi o dinamismo: sim, é possível (e necessário) fazer vinte coisas ao mesmo tempo, sem abrir mão da qualidade; praticar o desapego e deixar de lado as obras que não têm grandes chances, partindo logo para outras leituras; esquecer de um dia para o outro aquele livro que você tanto queria, mas infelizmente não vai ser editado pela Companhia das Letras.

Tudo isso, confesso, me causava certo sofrimento. Se antes de trabalhar na editora eu já me angustiava com a imensidão de livros por ler numa vida tão curta, esse cargo escancarava minha própria insignificância, proporcional à abundante remessa da produção contemporânea do mundo todo. Posso afirmar com conhecimento de causa: domar o volume de material de leitura que chega todos os dias ao nosso departamento de direitos estrangeiros é tarefa sobre-humana.

Também sentia falta de um contato mais minucioso com o texto. Sempre gostei de ler e reler passagens, atenta a cada detalhe. Poderia passar dias em busca de uma palavra até encontrar a melhor tradução. E é essa ourivesaria que tenho tido a felicidade de aprender com a mestre Maria Emília desde o começo do ano.

Impossível ter sido melhor recebida, na minha primeira semana no editorial: os contos da Ali Smith, traduzidos pelo Caetano Galindo, tinham acabado de voltar da preparação da Ana Cecília Água de Mello e a Maria Emília sugeriu que eu os lesse, simplesmente, observando as emendas da preparadora. O que se seguiu, eu não poderia imaginar: ainda com um computador provisório e todo o meu material no antigo posto de trabalho, logo me vi às gargalhadas, incapaz de me conter, numa sala cheia de gente trabalhando. Aqueles contos tão surpreendentes, graciosos e requintados me conquistaram de cara.

Foi inevitável adotá-los como filhos, preocupar-me com eles e assumir certa responsabilidade. Resultado: em pouco tempo estava eu escrevendo para o Galindo, metida que só, perguntando, entre outras coisas, se poderia trocar “guria” por “menina”, no conto “N’água”, já que estávamos na Escócia e me soou estranha aquela coisa meio gaúcha. “Que história é essa de sair opinando na tradução dos outros antes de chamar pra um café?”, foi a resposta brincalhona do tradutor, que acolheu com muita generosidade as minhas sugestões.

Dessa época até a publicação do livro, andei vendendo a obra por todo canto, dos corredores da editora às redes sociais. Numa conversa com o Marcelo Levy, diretor comercial da Companhia, chegamos a uma questão que há tempos me atormenta: são poucos os leitores de contos. Ora, taí algo que nunca vou entender. Desde os tempos de escola, quando fui iniciada no universo ficcional da Clarice, do Calvino, do Cortázar e do Garcia Márquez, a narrativa curta é o gênero que mais me fascina. Há inúmeras explicações para isso, que a própria Ali Smith coleta em “Um conto real” e que prefiro deixar para a crítica. Mas o que mais me intriga é que ainda nos faltem leitores de contos, quando esse gênero me parece o mais adequado para os nossos dias, por um motivo óbvio: falta-nos tempo.

Talvez por ingenuidade, talvez por estar apaixonada pela Ali Smith, continuo acreditando que serão muitos os leitores da minha musa escocesa. E foi com essa convicção que entrei numa aposta um tanto arriscada com o Luiz: venderíamos a primeira tiragem do livro de contos no primeiro ano. Tenho um trunfo: no meio do caminho, o conto “A criança”, talvez o mais brilhante de todos, saiu na piauí. Mais leitores.

Enfim, depois de alguns meses convivendo com o texto, saiu A primeira pessoa, o primeiro livro que ajudei a editar. Fico espantada com a sorte que tive em começar por aí, e me pergunto: será a tal sorte de principiante? Se for assim, grandes chances de eu ganhar a aposta.

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Sofia Mariutti é editora-assistente na Companhia das Letras.