Spiegelman & Mouly, Mouly & Spiegelman

Por Érico Assis


Françoise Mouly e Art Spiegelman com o editor André Conti

Françoise Mouly teve três casamentos. Nas três vezes, casou-se com Art Spiegelman.

A primeira vez foi quando Mouly, francesa, estava para perder o visto de estadia nos EUA. Ela havia deixado Paris aos 20 e poucos anos, apaixonou-se por Nova York, começou a namorar Spiegelman e não queria voltar para a Europa. Ao consultar um advogado, o casal descobriu que o jeito de ela ganhar o green card seria eles se casarem. Já estavam namorando mesmo, então por que não? Spiegelman, puro tato, perguntou: “tem certeza que não tem outro jeito?”. Não tinha.

* * * * *

A Mariana Figueiredo, do Departamento de Divulgação da Companhia, me convidou no início de maio para mediar um bate-papo com Mouly, que aconteceria no fim do mês. Depois de três ameaças de vinda ao Brasil, inclusive para a Flip, ela e Spiegelman finalmente estavam 90% confirmados. Mouly participaria do II Encontro Quadrinhos na Cia. num sábado, Spiegelman palestraria no Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural na segunda e faria sessão de autógrafos na terça.

Apesar do histórico de desconfirmações, lá estavam eles no sábado, na Livraria da Vila no Shopping Higienópolis. Ela de gabardine-previsão-de-chuva-em-Paris, ele de chapéu-vou-aos-trópicos. Pode desconsiderar todas as lendas: foram simpaticíssimos, abertos, falantes, sorridentes.

Minha mediação não foi “então, como é ser casada com Art Spiegelman?”. Aliás, tentei deixar as perguntas o mais distantes possíveis do marido. Nem era necessário. Mouly foi quem fez acontecer a RAW, principal antologia de quadrinhos dos anos 80, que revelou Chris Ware, Charles Burns, Gary Panter, levou HQs argentinas, francesas, suíças, japonesas aos EUA e foi o primeiro veículo de Maus. Mouly é há duas décadas editora de arte da New Yorker, responsável por selecionar as 47 capas — polêmicas, artísticas, definidoras de tendências — que a revista publica por ano. Mouly é criadora e editora da Toon Books, linha de quadrinhos especificamente para crianças que estão aprendendo a ler, como O ratinho se veste, Joca e a caixa, Beto e Bia. Não faltava assunto.

Spiegelman assistia da primeira fila. Quando não dava baforadas num cigarro eletrônico, andava pelo auditório a tirar fotos com o iPad.

* * * * *

O segundo casamento aconteceu quando Spiegelman resolveu contar ao pai, o famoso Vladek de Maus, que já era homem casado. Vladek ficou atônito: Mouly não era judia. Spiegelman-filho não estava nem aí, mas Mouly compadeceu-se com Spiegelman-pai. Faria a conversão para ter um tradicional casamento judaico.

A história envolve um rabino que calculou o processo de conversão em nove meses, outro que propôs em seis semanas, a sinagoga não-ortodoxa que tinha uma rabina (que Vladek não podia ficar sabendo) e, enfim, o casamento. Seguido de comemoração numa lanchonete.

* * * * *

Tive oportunidade de conversar com o casal num jantar. Queria perguntar sobre Katz — o détournement de um francês que colou cabeças de gato sobre todos os personagens de Maus —, queria perguntar sobre o Comics Philosophy & Practice — congresso que tinha acontecido no fim de semana anterior em Chicago, reunindo os dois e todos os luminares dos quadrinhos nos EUA, com Robert Crumb assumindo o papel de louco de palestra. Na timidez de não ser inconveniente, não perguntei nada. É meu comportamento automático diante dos ídolos: melhor deixar eles falarem.

Ok, falei um pouquinho. Perguntei à Mouly sobre a lista de 200 palavras da Toon Books (sou tradutor dos livrinhos, afinal) e me meti na conversa entre Spiegelman e o editor André Conti sobre Crime Does Not Pay. Spiegelman disse que eu e o Conti entendemos mais de HQs dos EUA que os amiguinhos dele de lá. Valeu, tio.

Também peguei uma conversa em que Spiegelman falava da apresentação que faria na noite seguinte e de como queria um “Powerpoint não-linear”, onde pudesse selecionar slides sem ordem definida. Tentei explicar como ele poderia fazer isso de forma simples a partir do iPad. Até mostrei no aparelho.

Como todo mundo sabe, Spiegelman acabou não usando o iPad na apresentação. O caso do laptop roubado era uma lembrança que eles não precisavam lembrar do Brasil. Mas eu não estava mais em São Paulo e não acompanhei a história, por isso espero que o Conti ainda faça esse relato aqui. Ele até já começou no Twitter (“Melhor momento da noite: descobrir que no computador da DP não constam as profissões ‘cartunista’ e ‘quadrinista’. Fechamos em ‘autor’.“)

* * * * *

Mouly contou as histórias dos três casamentos durante o bate-papo de sábado. O terceiro foi no aniversário de 50 anos de Spiegelman, em 1998. Ela vinha implorando por uma ideia de presente. Ele respondeu: “quero a sua mão em casamento.” O auditório da Livraria da Vila fez um “awwww” que parecia combinado, se não gravado. “I’m a slow learner“, ba-dum-tsssss-ou Spiegelman da primeira fileira.

Eles já tinham dois filhos na faixa dos dez anos, vieram amigos de todas as partes do mundo e Crumb trouxe sua banda para animar o salão. “Dos três, esse foi meu preferido”, sorriu Mouly.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
SiteTwitter