Como ler “Habibi” (1)

Por Érico Assis

Comece pelo quadro esquerdo superior da primeira página, siga até a inferior direita da última página. E é basicamente isso.

Porém, tendo seiscentas e setenta e duas páginas e aproximadamente um quilo e trezentos gramas, recomenda-se não ler deitado, com o livro sobre o plexo solar, sob risco de afundar o esterno.

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Habibi é a HQ mais recente de Craig Thompson, aquele da infância cristã conservadora e do primeiro amor adolescente autobiografados em Retalhos. E Retalhos foi uma sensação: um dos marcos da década passada, que fizeram as livrarias olharem os quadrinhos com respeito, tanto nos EUA quanto no Brasil, tendo passado por sucessivas tiragens aqui e em outros países, e que todo dia rende mais um adolescente blogando, twittando ou tumblando depois de se enlevar com a leitura.

Então, para dar sequência a Retalhos, Thompson resolveu criar uma história de amor entre dois órfãos ― grosso modo, uma prostituta e um eunuco ―, inspirado na mitologia islâmica, em As 1001 Noites e inevitavelmente ciente do contexto islamofóbico pós-11 de setembro. Iniciou os trabalhos em 2004, fez pesquisa no Marrocos, e, entre produção, dores incapacitantes na mão de desenho e indecisões quanto ao final, encerrou-a em 2010. Habibi foi lançada no ano passado nos EUA, França, Alemanha, Itália e Espanha. Chega no Brasil em poucos dias.

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Apesar da grande maioria da crítica dos EUA ter recebido Habibi com louvores, ganhou destaque uma facção que viu ingenuidade na forma como Thompson lidou com o Oriente. G. Willow Wilson, norte-americana convertida à religião muçulmana, autora de A leitora do Alcorão (e também roteirista de HQs, por acaso), publicou uma resenha dividida entre a admiração pela obra e o medo de como ela poderia ser lida pelos islâmicos. Thompson não deixou fácil, declarando em entrevistas que “estava me divertindo ao tratar o Orientalismo como gênero, assim como caubóis e índios é um gênero ― não a representação precisa do oeste norte-americano, mas sim um gênero, um conto de fadas.”

Aí vieram as leituras colonialistas/orientalistas ― com base no Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente de Edward Said ―, que atingiram o ápice num artigo de Nadim Damluji, estudioso das HQs especializado no colonialismo de Tintim, que se encerra com a frase “Habibi é uma tentativa imperfeita de humanizar os árabes para o público norte-americano”. Outros quadrinistas, como Eddie Campbell, saíram na defesa de Thompson, dizendo que ele queria falar de amor, não representar os árabes bem ou mal. O influente Comics Journal organizou um debate sobre a obra entre seis de seus críticos. Mas o próprio Thompson não se incomodou em discutir as ideias de Damluji em entrevista aberta com o crítico:

“Em certo sentido, me soa meio bobo as pessoas ficarem examinando e falando de Habibi como se fosse um texto acadêmico, o que com certeza não é. Eu sigo rotulando-o como ‘conto de fadas’ porque esta com certeza foi a minha intenção. Por mais que, enquanto artista, eu me esforce para criar quadrinhos que sejam artísticos ou literários, por dentro ainda sou apenas cartunista. Em certo sentido, o que o cartunista quer é fazer desenhos caricaturescos, brincalhões, ridículos, irreverentes. É claro que eu tenho reverência e respeito perante aspectos da fé islâmica, mas perpassa o álbum uma ideia de brincadeira e a consciência do fato de que ainda é um gibi. É super-heróis, em certo sentido. É Star Wars. Mas talvez este empenho em ver Habibi como texto acadêmico venha de fora da mídia dos quadrinhos, onde as pessoas ainda se surpreendem em ver elementos mais maduros numa HQ. Em certo sentido, o diálogo também deveria se dar em torno da própria mídia, que ainda tem intento satírico. Eu hesito em dizer algo assim, porque não quero que considerem Habibi sátira de alguma fé ou religião. Mas os quadrinhos são inerentemente uma mídia autodepreciativa.”

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Como ler Habibi? Comece pela primeira página, siga até a última. Lembrando o aviso sobre o peso do livro, recomendo uma boa poltrona. E mesmo que o pouco texto sugira leitura rápida, dê tempo ao livro. Leia um capítulo por dia. Deixe Zam e Dodola habitarem seus pensamentos nos intervalos entre as leituras. Mais sugestões, e mais sobre a estrutura do livro, na próxima coluna.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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12 Comentários

  1. […] Habibi, de Craig Thompson […]

  2. […] de Julio Cortázar ilustrado por José Muñoz. Já no blog da Companhia das Letras, Érico Assis dá as dicas de como ler Habibi, de Craig Thompson, que começou a chegar nas livrarias no final de […]

  3. Erico disse:

    Fala xará.
    Offtopic: Sei que é muito te pedir isto, mas qual o caminho deve ser traçado para quem almeja ser um tradutor? Faz esta gentileza e arruma um tempinho pra me dizer. Abraço. Aprecio muito seu trabalho.

  4. Stephanie disse:

    Érico, acho curioso que Habibi tenha repercutido desta forma entre críticos e especialistas. Li Habibi como fã de HQs e trabalho do Thompson – terminei o livro sabendo que precisarei reler para absorver melhor os desenhos e a narrativa. É um livro muito rico, que pede um ritmo diferente da nossa pressa ocidental.

    A minha impressão é de que a cultura árabe (arte, caligrafia, literatura) serviram de inspiração, de referência para o Thompson – ele se aproximou de forma respeitosa, como se tentasse revelar um vislumbre de toda uma riqueza desconhecida por milhares de pessoas. Essa leitura acadêmica pós-11/09 parece querer enquadrar a graphic novel em um outro contexto. Estamos falando de uma ficção, de uma história que remete às fábulas. Parece que os críticos estão procurando uma ambição no livro que o autor nunca demostrou ter.

  5. Zeugmar disse:

    Não entendi desta forma:

    Pra mim, levar-se a sério é o começo do fim. Virar adulto. Institucionalizar-se. Ter crachá. O dia que todos levarem a sério quadrinhos, eles “acabam”. O melhor dos quadrinhos é este lado Peter Pan/Pixar. Ser criança e, ao mesmo tempo, poder falar do mundo real.

    Ninguém espera que Aladin seja um retrato do mundo árabe. Ou que Valente seja um tratado sobre a Alta Idade Média. Mas tanto um quanto outro são “verdadeiros”.

    O máximo é extrair um ponto ou outro da conjuntura ATUAL. A gente pode falar que é “pós-11 de setembro”… Ou que Valente reflete as relações familiares norte-americanas de hoje… Um pouco como o Mogli da Disney reflete um certo entendimento das opções de um jovem nos anos 50… Ou o Homem-Aranha encaixa-se nas crises dos anos 60.

    Certo? Sei lá.

  6. Érico disse:

    Renato: é uma opinião do Thompson, da qual entendo que ele não vê os quadrinhos como espaço para falar de coisas sérias. Autodepreciação, para mim, é esta incapacidade de se levar a sério. É discutível, mas é uma perspectiva.

    Arthur: Falta pouco!

  7. Marco Severo disse:

    Renato: pra mim, foi o óbvio ululante: que as pessoas ditas “cultas”, os críticos e donos da razão, além da “sociedade livreira” como um todo e até o público leitor em geral – não leva quadrinhos à sério, considerando-o uma forma de fazer literatura “menor”. E que isso parece estar arraigado à mídia “quadrinhos” em si.

    Eu mesmo, antigamente, achava que quadrinhos eram uma forma de facilitar a leitura, de tornar a leitura algo meio adolescente. Mal sabia eu da minha própria ignorância…

    PS: Mal posso esperar pelo Habibi! (2)

  8. Arthur disse:

    Mal posso esperar…

  9. Renato Gomes disse:

    Não entendi muito o que ele quis dizer sobre quadrinhos serem uma mídia inerentemente autodepreciativa… Alguem pode me explicar?
    abraços

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