Dia 1: Escrevo o seu nome num grão de arroz

Por José Luís Peixoto

Não importam as 9 horas entre Lisboa e São Paulo ao lado de um menino de três ou quatro anos a gritar, não importam as 5 horas entre São Paulo e Paraty, mil curvas lentas atrás de camiões com pára-lamas a dizerem que Deus é fiel. Após uma noite em Paraty, só o som dos passarinhos e do frigorífico do minibar, acordar é muito parecido com ressuscitar. Nas manhãs desta cidade, nada agride um escritor publicado: o sol está à temperatura certa, ouvem-se galos ao longe, o café da manhã está pronto, esperando.

A festa começa mais logo. Nas ruas, há homens a pintarem os últimos detalhes com pincéis pequenos. A cidade está terminando de se preparar. Os carrinhos de pipocas, de churros e de bolos chegam aos seus postos. Toda a gente tem esperança de vender alguma coisa à multidão que aí vem. Num dos carros de bolos está escrito: aqui só tem delícias. Passo por um grupo de crianças pequenas, em fila, agarradas a uma corda. Reencontro-as na Praça da Matriz, entre livros pendurados dos ramos das árvores por fios invisíveis, entre personagens da Alice no País das Maravilhas ou do Sítio do Picapau Amarelo. O Gulliver ainda está levando os retoques finais. Já está estendido no chão, rodeado de liliputianos de cartão, mas um senhor paciente ainda está a desembaraçar os cordéis que não o deixam levantar-se. Para as crianças, a Flip já começou. Na tenda da Flipinha, ouve-se um coro de meninos a responder um sim arrastado. Aproximo-me, no palco, sete crianças vestidas de letra soletram a palavra DESEJOS.

Ao início da tarde, numa pousada do centro, há o almoço de boas-vindas. Chego tarde, mas toda a gente ainda está à espera de qualquer coisa. Afinal, não cheguei tarde. A piscina no centro, as palmeiras a levantarem-se na direcção do céu e os autores convidados na fila para encherem o prato. Amigos que conheci aqui, amigos que conheci noutros pontos do mundo, amigos futuros que acabo de conhecer, caipirinha de maracujá e caipirinha de frutos vermelhos. São as duas muito boas mas a de frutos vermelhos entope o canudinho.

Anoitece cedo. Com este bom tempo, esqueço-me de que é inverno. Saio pela cidade, acompanho as luzes foscas que se vão acendendo. Reparo em dois barcos no rio, um chama-se Amor Eterno I e o outro, mais pequeno, chama-se Sonho de Arte. Os dois estão disponíveis para aluguer.

Às 7 da tarde, começa a mesa de abertura. Luís Fernando Veríssimo, António Cícero e Silviano Santiago falam sobre Drummond. Assisto ao início na tenda do telão, como são grandes os seus rostos a falar, como são altas e correctas as suas vozes. Gosto do que dizem mas, a essa hora, estou já irremediavelmente melancólico e decido voltar às ruas da cidade. No caminho, por cinco reais, compro um pequeno livro de espiritualidade e receitas vegetarianas a um hare krishna que me pergunta se sou argentino. Cruzo-me também com um homem de cara pintada; por um real, declama poemas, que podem ser escolhidos de um cardápio. Compro um pastel de palmito e, na outra margem do rio, escolho um lugar mal iluminado para me sentar a comê-lo. Sem que seja possível distinguir as palavras, as vozes amplificadas que chegam da tenda dos autores têm um ritmo sereno. Em momentos assinalados, ouve-se o público todo a aplaudir. Aqui, mais perto, há uma mistura de vozes que só é perturbada por uma gargalhada ocasional, mais alta e distante. A pouca distância de mim, está outro autor. Trabalha sob um letreiro que diz: escrevo o seu nome num grão de arroz. As pessoas param e assistem ao seu trabalho com admiração.

Mais logo, à hora do jogo entre o Corinthians e o Boca Juniors para a Taça Libertadores, haverá show de abertura pelo Lenine. Continuo olhando a noite. Ainda não sei se vou, ainda não sei se fui.

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(foto do instagram de José Luís Peixoto)

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José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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13 Comentários

  1. Dirce disse:

    José Luiz Peixoto é sinônimo de sensibilidade, e ele, com suas palavras, me transportou para Paraty e me permitiu ouvir os sons, me permitu vivenciar, como se eu estivesse “in loco”, os “borbulhos” de Paraty.

  2. Cristina Trigo disse:

    Ao lê-lo neste pequeno, mas tão belo texto cheio de pormenores a ilustrar um cenário, um cenário rico de cor, vida, sons, personagens, aromas, sabores, “delícias”, até sinto o cheiro do café da manhã! Neste deambular, ausentei-me por instantes e viajei consigo, vi o Amor Eterno e o Sonho de Arte, bebi uma caipirinha de maracujá e provei um pastel de palmito…Entretanto, ao terminar este breve, mas intenso momento apercebi-me que estava no sofá da minha casa, fiquei confusa com o que sentia pois ainda me recordava do cheiro a café!

  3. Marcelle disse:

    Esse José Luis Peixoto é muito fofinho. Ler esse texto me motivou a desenterrar “Cal” da minha estante de livros. Já era hora de eu conhecê-lo.

  4. Belo texto. O José Lúis tem o dom de nos tocar com toda a sua escrita. Ao ler-mos, parece que estamos retratadas nas suas palavras. Muito obrigado.

  5. Carla disse:

    Adorei……..conheço Paraty e deu-me vontade de voltar lá…..obrigada José!!

    Orgulho de ser portuguesa!!!Continua com esse teu bom trabalho!!!

  6. Carla disse:

    Que delícia de texto. Já na primeira linha me pergunto o que estou fazendo no Rio que não corro para Paraty?

  7. Nara disse:

    Como gostaria de estar lá… Depois desta página maravilhosa então…

  8. Erika Rodriguez disse:

    Lindo texto, querido José Luís…a sua descrição se parece muito à minha primeira viagem a Lisboa: Fiquei encantada com os pequenos detalhes do dia a dia das pessoas, as cores, os aromas e sabores de um mundo a descobrir! Um abraço.

  9. Lua disse:

    Só um texto de José Luís Peixoto para transformar uma curiosidade numa vontade. Queria agora estar em Paraty.

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