Dia 2: Três regras para escrever um romance

Por José Luís Peixoto

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(foto do instagram de José Luís Peixoto)

As quintas-feiras são aquele dia. O fim de semana está ali, depois de amanhã. Falta pouco para faltar pouco. As quintas-feiras não são a sexta-feira, aproximando-se minuto a minuto da sexta à noite; mas também não são a segunda-feira a pedir coragem para a semana. As quintas-feiras são uma espécie de terça-feira, mas ao contrário.

Na Flip, a quinta-feira é o dia em que começam as “mesas”. É interessante chamarem “mesas” a esses encontros porque não existe qualquer mesa à vista. Sendo esta festa em torno da literatura, com a reconhecida importância que as palavras têm para a mesma, creio que não ficaria mal substituir-se a palavra “mesa” por “encontro”, “debate”, “conversa” ou mil outros sinónimos mais adequados. Talvez este seja um preciosismo (ou talvez não).

Assisti ao encontro entre Javier Cercas e Juan Gabriel Vasquez. Na entrada, é difícil não reparar no quanto é incrível existir num festival literário onde centenas de pessoas, que pagaram bilhete, esperam em filas enormes para assistirem à conversa de dois escritores. Depois, quando são abertas as portas, há a pequena corrida pelos lugares melhores. Antes de começar, há as vozes de toda a gente, o entusiasmo. Duas ou três mil pessoas? Não sei dizer ao certo, nunca fui bom a calcular multidões. O palco, sem mesa, tem três cadeiras vazias. Para além dos escritores, estará o moderador Angel Gurría-Quintana. Inexplicavelmente, o cenário tem uma única palavra, diz: ITERÁRIA. Ou seja, existe um “L” desaparecido. Mistério.

Eu sabia que a conversa ia ser muito boa. Não vou repetir ou resumir aquilo que foi dito sobre ficção histórica, não o saberia fazer. Vou apenas referir duas citações que me iluminaram. Cercas citou Umberto Eco, dizendo que 25% dos ingleses acreditam que Winston Churchill é uma personagem de ficção. Juan Gabriel Vasquez citou Sommerset Maughan: “Há três regras para escrever um romance. Infelizmente, ninguém sabe quais são.” O primeiro diz quase tudo o que há para dizer sobre ficção histórica, o segundo diz tudo sobre a escrita de romances. No futuro, se me ouvirem a citar Eco ou Summerset Maughan, já saberão que, na realidade, estou a citar Cercas a citar Eco ou estou a citar Juan Gabriel Vasquez a citar Summerset Maughan.

Quando ia para a fila dos autógrafos, cruzei-me com uma fotografia da minha cara entre vários escritores que participaram na Flip em anos anteriores: uma fotografia mais alta do que eu, impressa num cubo que, noutra das suas faces tinha, por exemplo, Salman Rushdie. Que bom receber essa consideração e, confesso, que surpresa.

Já na fila, uma menina pediu-me para escrever o nome num papel para que os autores não tivessem dificuldade de escrevê-lo. Luís com “s”. O papel não foi necessário. Ambos se lembravam de mim, abraçámo-nos, marcámos novo encontro nestes dias e saí com dois autógrafos muito especiais. De novo, confesso que não esperava. Estas coisas funcionam assim, em vagas: por vezes, não há nada, deserto total, noutras vezes chega tudo ao mesmo tempo. É assim com a consideração (fotografia grande entre grandes autores, abraço apertado de dois escritores que admiro), como é assim com os amores, com a sorte e com os acasos em geral. Pelo menos, é nisso que acreditam os supersticiosos como eu.

À noite, havia a festa da Companhia das Letras. Lá estive com o meu casaquinho, conversando com mil pessoas, comendo pratinhos pequeninos com garfinhos pequeninos. O garçon tentava explicar o que eram, mas acho que ele próprio não entendia o que dizia. Entre caipirinhas de tangerina e pratinhos de ceviche de frutas, a pergunta que me faziam mais tinha a ver com a selecção de jovens autores brasileiros feita para a revista Granta e apresentada durante a tarde. Eu, como é óbvio, não tinha nada a dizer sobre isso e, com subtileza, mudava de assunto.

* * * * *

José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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3 Comentários

  1. Engraçado, isso das mesas. Em 2004, quando aportei pela primeira vez, também achei curioso. Mas depois pensei: só aqui os encontros são mesas. Sei lá, ficou a ideia de que estávamos todos – autores, mediadores e público – em roda de uma mesa para falar daquilo que nos interessava. Bem, na verdade, eu falo com olhos, palmas, lágrimas mais que eventuais. Gostei muito desses momentos com Javier Cercas e Juan Gabriel Vasquez, ambos tão espontâneos. Foi bom estar com eles, nessa intimidade instantânea e única que só na Flip se estabelece e na qual a gente viaja, sem distinguir fronteiras.
    Não senti frio, quase. Sou praticamente um pinguim de tão friorenta, mas esta Flip já veio aquecida. Vi seu retrato nos cubos também. O Luís com “s” é a verdade da língua, mas hoje em dia é um privilégio. Minha filha é Luísa com “s” e acento, meu neto é Luís Felipe, também com “s”. Delicadezas antigas.
    Não houve caipirinhas este ano; já me bastava o calor das ruas cheias, lindas de luz.

  2. Cristina Trigo disse:

    Para si quais são as três regras? Na minha humilde aproximação, para escrever um romance é essencial ter um mundo com mundos por dentro, é viver emoções, memórias, pensamentos, possuir um desassossego, uma inquietude, não se contentar com a aparência, com a superficialidade das coisas, penetrá-las, aprofundar a sua relação com elas, acreditar na transcendência, na vida, na voz do pensamento e do coração, na bondade, na liberdade, na manifestação divina como caminho para a felicidade, fraternidade, humanidade, é um exercício de abertura, de disponibilidade para o desconhecido e para ver para além de olhar, numa busca de virtudes como a valentia, humildade, veracidade consigo mesmo e possuir um dom que permita traduzir essas vivências em palavras, numa mensagem que se pretende uma fuga ao real, uma procura obsessiva de algo que o preencha, de grandioso, de espiritualidade…levando-nos a percorrer uma viagem dentro e fora de si mesmo, numa infinita conversa com o silêncio como pano de fundo. É transformar o mundo num lugar mágico, fazer uma aposta naquilo que o ser humano tem de melhor, em termos de afectos, de partilha.

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