Dia 3: Depois de ontem, o resto da minha vida

Por José Luís Peixoto

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(foto do instagram de José Luís Peixoto)

Hoje, estas palavras vão ter de ser muito curtas. Mas não porque ontem tenha sido um dia menor. Aliás, ontem, para mim, foi um dia que não me irei esquecer ao longo de toda a minha vida. Mesmo, não exagero. Isso explica que tenha passado o dia bastante introspectivo, caminhando pelos lugares, sentindo-me um fantasma transparente.

À noite, na Casa da Cultura, subi a um palco onde estava apenas uma cadeira, uma mesa comprida de madeira, uma garrafa de água e um copo e li o meu primeiro livro integralmente. Da primeira à última páginas, não saltei nenhuma palavra, nem sequer por acidente. Morreste-me é um texto de cerca de 40 páginas onde, com 21 anos, escrevi sobre aquilo que significou para mim perder o meu pai. E, para mim, perder o meu pai significou perder tudo.

Quem esteve lá sabe como foi. Não vou descrever esse momento, essa chuva de palavras, porque teria mesmo de ser outra pessoa para poder fazer uma descrição que fosse bem entendida. Sendo eu, não dá. Aconteceu ali, aconteceu ontem, naquela sala, naquele momento. Não creio que vá acontecer mais vezes.

Mas, durante o dia, eu andei pela cidade, pela Flip, passei entre a luz, linda luz, nítida e fina. Agora, nestas palavras curtas, destaco as crianças na Praça da Matriz, quanta felicidade: crianças de quatro ou cinco anos numa roda de capoeira, com o corpo todo levantado da terra, assentes apenas num braço; crianças fazendo trabalhos manuais com papel e cola; crianças seguindo todas as ordens de uma trupe de palhaços, narizes vermelhos; crianças segurando balões com versos do Drummond; crianças correndo, rindo e gritando.

Hoje, aqui, vai ser só isto. Como disse, estas palavras vão ter de ser muito curtas. É que agora, dentro de poucos minutos, tenho de ir para a tenda principal, onde vou ler o poema “E agora, José?” antes da conversa entre Ian McEwan e Jennifer Egan.

Talvez possa falar um pouco com algum deles. Desejem-me sorte.

É assim a Flip.

* * * * *

José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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2 Comentários

  1. Concordo: quem estava lá sabe como foi.
    Esperei pouco para o tanto que esperava. Sentei-me diante do palco nu e de repente lá estava você, o mesmo menino antigo de sempre, ombros tímidos e olhar sincero. Filho. Eu também filha te olhava e esperava. Você disse que era a primeira vez que ia ler o livro de cabo a rabo diante de uma plateia e, com suavidade, calou-me fundo.
    Não pela poética do texto, ou por tuas felizes escolhas, mas porque eras filho, estavas nu e sentias. Eu, filha, vi rodar o filme da perda do meu pai por trás das tuas paisagens sofridas, tão belas, as chaves de casa, a mãe, a irmã, os cinco que sempre serão cinco, a luz fina massacrando os dias intermináveis.
    Sinto na alma uma enorme alegria por ter partilhado mudamente, como meu coração atento, o resto da tua vida naquele palco.

  2. Inês disse:

    Fico pensando na força emocional dessa leitura. Gostaria de ter ouvido isso.

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