Dia 5: Último debate na tenda da nostalgia

Por José Luís Peixoto

Era muito fácil prever que seria assim, a nostalgia.

Mas, antes disso, comi o primeiro aracajé de toda a minha vida, sentado à frente da igreja matriz de Paraty. Atrás de mim, uma roda de capoeira com crianças de todas as idades (algumas crianças da minha idade também) a colocarem a mão e a entrarem naquela dança de aranha.

A tenda das conversas começou cedo, vozes amplificadas a falarem de poesia, a lerem poesia. Atravessei a ponte sobre o canal e, entre milhares de pessoas, avancei pelo caminho onde muitos autores auto-publicados seguravam os seus livros no colo e tentavam vendê-los. Parei junto de dois autores de cordel, Querindina e Macambira, comprei Acordo ortográfico da língua portuguesa: uma nova tentativa. Continuei o meu caminho e cheguei à tenda do telão. Foi aí, de novo entre milhares, agora sentados, que assisti à poesia debatida.

Na véspera de ontem, no sábado, as ruas do centro histórico de Paraty encheram-se. Muita gente mesmo, multidões a ondularem sobre as pedras acidentadas do centro histórico. A Rua do Comércio encheu-se de índios a venderem colares de sementes de frutas vermelhas, grupos de música, coisas acontecendo. Atravessei tudo isso para ir comprar pasta de dentes fora do centro.

Antes, tinha perguntado na tenda de um dentífrico patrocinador da Flip, se me podiam dar uma das pastas de dentes que estavam oferecendo. Não podiam, aquelas pastas de dentes não eram para escritores, eram para crianças.

Já com a pasta de dentes comprada, fiquei à porta de uma igreja evangélica: gente vestida com as suas melhores roupas, gente penteada cantando a plenos pulmões. Convidaram-me várias vezes para entrar, agradeci, mas recusei.

Voltei à Flip, como se existisse uma fronteira dimensional entre esses dois lugares, entre Paraty e Paraty. E talvez existisse mesmo.

Fui lavar os dentes. Muito boa pasta.

No final da tarde, assisti ao encontro final. Nele, 9 autores leram textos que, por algum motivo, lhes diziam muito. Uns textos foram mais adequados àquela situação, outros menos; uns foram mais bem lidos, outros menos; mas foi bonito assistir a leituras em várias línguas. Foi um momento do bem, moderado pela presença doce de Liz Calder e abençoado por aplausos emocionados.

Depois, houve o cocktail de encerramento, onde as pessoas se iam despedindo umas das outras. E, mais tarde, na tenda do telão, houve a festa final, aberta a toda a gente, a todos os milhares de gente que dançaram ao som de bandas de Paraty. Ciranda Elétrica, muito bom.

Então, no regresso à pousada, aquilo que teria sido tão fácil prever: a nostalgia reflectida pelas águas tranquilas do canal, a noite, a memória do tempo a ser desmontada e arrumada. A noção de que, no dia seguinte, aqueles momentos serão passado, inevitavelmente.

Na pousada, pedi a chave. Com ela, deram-me um envelope. Era uma carta de agradecimento da Flip. Gostei de recebê-la, vou guardá-la, mas tive a certeza que o remetente e o destinatário daquela carta estavam trocados. Deveria ter sido enviada por mim e recebida por eles.

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José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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