Formações vulcânicas

Por Juliana Vettore

Uma das funções do pessoal que trabalha na divulgação da Companhia é recepcionar autores em eventos de lançamento e promoção do livro. Em época de Flip essa função ganha muita importância pelo número de autores célebres concentrados em uma mesma cidadezinha num curto período de tempo.
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O ideal, claro, é ler os livros dos autores com os quais vamos passar mais tempo e se preparar para possíveis perguntas sobre o Brasil, sua cultura e política. Nunca me esqueço de quando um autor me perguntou o número de pessoas que falam inglês no país e eu respondi “algo em torno de 500 mil”, sem a menor ideia do que estava falando. Depois tive uma crise de consciência por ter inventado essa resposta e fui atrás de um número mais preciso na internet, sem sucesso.

Na maioria das vezes, quando não sei o que responder sou sincera e digo “Humm..I don’t know, sorry”. Mas tem horas em que nós, cicerones, acabamos seduzidas pela ideia de responder de um jeito complexo para parecermos mais sagazes do que o interlocutor, missão quase impossível quando este é um grande nome da literatura mundial.

As perguntas mais difíceis, não sei por que, sempre me apareceram nos passeios de barcos – sim, às vezes passeamos pelo litoral de Paraty com grandes nomes da literatura mundial! Em um deles, com Lawrence Wright, Amós Oz e suas esposas, Wright, que sofre de incontinência jornalística, depois de me fazer muitas perguntas sobre o governo Lula, o índice de analfabetismo, o número de habitantes das principais capitais do país, disse, finalmente, “essas formações geográficas que estamos observando se consolidaram no período vulcânico?”.

Eu, que estava tentando ser honesta, e muitas vezes dizendo “I don’t know, I don’t know”, não pude mais com a minha sinceridade, receosa de que ele estivesse me achando pouco sabida, e respondi, por fim: “é algo entre isso e o último período de grandes transformações geográficas que tivemos, Mr. Wright”. Acho que causei alguma impressão, até hoje não sei se boa ou má, porque o assunto não foi pra frente.

Estou ansiosa para saber qual será a pergunta, ou resposta, campeã desta edição.

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Juliana Vettore é jornalista e trabalha no departamento de comunicação da Companhia das Letras desde 2007.