Mesa 16: A imaginação engajada

Convidados:

Mediação: João Cezar de Castro Rocha

Os livros de Francisco Dantas e Rubens Figueiredo, dois dos principais escritores brasileiros, mostram que a força crítica da literatura não depende da contenção do estilo nem da imaginação. É por meio da potência do texto, e não de uma adesão mimética ao real, que a obra de ambos estabelece sua relação com o mundo. Dos grandes centros urbanos ao interior rural, Figueiredo e Dantas se apropriam dos cenários habituais do imaginário nacional para desmanchar sua feição familiar, contrapondo aos generalismos do senso comum a concretude singular de suas histórias.

Horário de início: 11h45

[Francisco lê um trecho de O som e a fúria como homenagem pelos 50 anos da morte de William Faulkner.]

Rubens: Vou tentar explicar rapidamente como fiz meu último livro. Sou professor de português da rede estadual à noite. Por muitos anos dei aula num colégio a 35km da minha casa, pegava dois ônibus pra chegar lá. Hoje em dia vou de bicicleta porque leciono num colégio mais próximo. O livro se passa dentro de um ônibus. O estranho é que tenha demorado tanto tempo pro livro se consolidar. Embora eu vivesse a experiência de fazer o percurso e encontrar as pessoas, percebi que havia uma barreira entre mim e meus alunos, seus familiares. Não era questão de sensibilidade, inteligência, era uma barreira de classe social. É uma coisa que controla sua percepção. Eu demorei pra entender. Em função dessa experiência passei a questionar o modo como via a ficção e a literatura. As noções críticas que vigoram traçam um anel mágico em torno do nosso meio, ficamos alheios ao que está acontecendo ao nosso redor. Foi com essa noção que escrevi o livro. Foi uma forma de tentar compreender a experiência. Acho que já falei bastante.

Francisco: Quero falar um pouco sobre o tema desta mesa. A palavra imaginação muitas vezes é confundida com devaneio na literatura, e é diferente. Devaneio é mais livre, pode estar ligado à loucura, e a imaginação na literatura é disciplinadora. E o engajamento é fatídico pra literatura. Tornou-se pejorativo. E cada escritor tem sua opinião. A literatura não pode trabalhar com discurso de autoajuda. Vivemos num contexto com muita desigualdade social.

Mediador: Vou ler o parágrafo inicial do seu livro, Rubens, e proponho que conversemos um pouco sobre isso. Nele, o narrador não se identifica nem com os passageiros nem com sua classe.

Rubens: Toda sexta-feira à noite ele pega o ônibus pra ir na casa da namorada que mora muito longe. É uma viagem rotineira. Ele não terminou a faculdade e mora com a mãe num apartamento pequeno. Ele não tem carro, mas tem uma sociedade com amigos pra vender livros usados. Ele está um pouco abaixo da classe média. E ele vai prum lugar onde a pobreza é muito acentuada, e isso marca o dia-a-dia das pessoas. Ele tem que entender o que está acontecendo, no vestuário, na fala. É como encontrar outra civilização na mesma cidade. A desigualdade social é tão grande hoje em dia que criou abismos de compreensão assim. Você pode ver as coisas, mas não consegue entender. Eu não queria mostrar a desigualdade, que todo mundo pode ver, queria falar de como entendemos esse tipo de coisa.

Mediador: No princípio de seu romance, Francisco, há a notícia da morte de Lampião. Há aqueles que celebram a morte, e um de seus personagens pergunta quem irá defender o povo então.

Francisco: A questão de Lampião é muito discutida. O principal perigo é fazer um livro maniqueísta. Eu peguei o Lampião dos últimos anos de vida. Não deixo de mostrar o lado mais feroz, mas também abordo as questões mais interiores, os momentos em que considerou se entregar. O mérito do livro é que a questão continue ambígua, porque não é maniqueísta. Eu ambiento todos os meus livros na minha região, o Nordeste. Faulkner ambientava todos os seus livros numa pequena cidade americana, e dizia que uma vida inteira não seria suficiente pra contar tudo.

Pergunta: Por que Darwin nas mãos do protagonista?

Rubens: Quando estava construindo o livro, tinha a intenção de conferir uma dimensão histórica. Não sei de onde isso me veio, mas assim eu poderia incorporar a questão da servidão e do colonialismo. Darwin era uma pessoa de classe alta visitando lugares desconhecidos. E a teoria dele acabou ajudando o colonialismo, a imagem que ela formou de superioridade e inferioridade, isso foi usado em discursos. E hoje nós também tendemos a ver as desigualdades e as injustiças como fatos decorrentes da natureza. Eu olho um ônibus entupido às seis da tarde como se observasse uma árvore. Dito assim parece muito ambicioso, mas mesmo que essas coisas não estejam explicadas no livro, o leitor reconstrói essa noção ao lê-lo.

Pergunta: O cordel influenciou sua literatura?

Francisco: Meu livro obedece uma divisão de cordel. O tom do livro é de cordel, e na maior parte é feito em redondilha maior. Eu quis ligar o cordel à literatura considera culta. Não sei se consegui, mas era o propósito.

Pergunta: Qual a ligação da sua literatura com a atividade de professor?

Rubens: Não interfere muito. Sempre considerei dar aula mais importante que ser escritor. A justificativa era mais imediata. O contrário existe, o convívio com meus alunos influencia meus livros, viram experiências de vida. Eu recebo muito mais do trabalho de professor que o contrário.

Francisco: Quando escrevi Coivaras, achei que não merecia ser chamado de escritor, demorei 30 dias pra mostrar pra alguém. Hoje só me lembro do começo dele, resgatei-o recentemente. Ser escritor ajudou a me formar como professor. Como professor eu lia muito, mas como leitor eu só leio aquilo de que gosto. Nós escrevemos pra nos livrarmos das obsessões que vamos formando, mas também pra agradar. Me dou ao privilegio de só ler o que gosto, na minha idade. O que não podia fazer quando lecionava.

Horário de término: 13h03