Mesa 17: Drummond – o poeta presente

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Convidados:

Mediação: Flávio Moura

Poucos autores parecem tão importantes para pensar o que se escreve hoje na poesia brasileira quanto Carlos Drummond de Andrade. Não é fácil, no entanto, precisar exatamente em que consiste essa importância e de que maneira ela se manifesta. Três poetas brasileiros exploram diferentes possibilidades de resposta a essa questão. Num depoimento em vídeo gravado por Walter Carvalho, Armando Freitas Filho fala de sua relação com Drummond, partindo de uma definição inesperada do poeta mineiro como um autor do Lado B. A mesa segue com uma discussão entre Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo.

Horário de início: 14h30

Armando: Quando fiz 15 anos, meu pai me deu dois livros: Poesias de Manuel Bandeira e O fazendeiro do ar & Poesia até agora do Drummond. Em 56, um ano mais tarde, ele me deu um disco que tinha Bandeira dum lado e Drummond do outro. Drummond começou a falar comigo com sua voz seca e súbita. Seria como se uma máquina de escrever falasse. Quando ele morreu, eu cheguei no velório antes do corpo. E o moço que escreve o nome da pessoa no quadro da capela estava lá, eu vi ele compondo o nome do Drummond, procurando cada letra. Hélio Pellegrino e eu entramos juntos, e um repórter perguntou o que aquela morte representava. Hélio falou que não se entenderia como pessoa sem a poesia de Drummond. Eu sou igual. Nós dois tremíamos tanto, ficamos apoiados um no outro.

Não era nem influência, era uma possessão. Fiquei louco pra compreender aquilo tudo. E a partir dos anos 60 comecei a escrever meu primeiro livro. E ele foi dado a Bandeira, que me incentivou a escrever, e me disseram para entregar pro Drummond. Eu não conseguia. Meu pai que entregou por mim. Ele disse que era importante que nós soubéssemos que poemas abriam e fechavam o livro. É algo que você tem que sentir.

Criou-se uma dificuldade extra entre nós porque eu não sabia como chamá-lo: doutor, mestre, senhor? Aí um dia ele me disse, “nós somos amigos, amigos se chamam de você”. Fiquei tão feliz com isso de poder chamá-lo assim. Mas nunca consegui chamá-lo de Carlos só, falava Carlos Drummond.

Ele sempre escreveu pra se explicar a si próprio, escrevia com o próprio fígado. E aquilo se transformava num discurso geral que se aplicava a todos. Ele não escrevia pra ninguém, mas ao mesmo tempo escrevia para todos. Drummond era incrível, era deus.

Carlito: É difícil falar sobre Drummond porque minha relação com poesia sempre foi estranha. Só recentemente consegui entender minha relação com a poesia. Eu gosto de olhar o mundo pela lente do Drummond porque as pessoas quebram. Algumas quebram duas ou três vezes na vida, eu já quebrei também, mas lendo poesia, especificamente a do Drummond, aprendi que quebrar pode ser um aprendizado. Eu descobri que as coisas têm que quebrar, só quando elas quebram você percebe como elas são por dentro. O modo que encontrei pra falar de Drummond foi escrever um poema que é praticamente uma carta a ele, o primeiro poema que escrevo desde meu último livro. [Ele lê o poema]

Eucanaã: Difícil saber como falar de Drummond, porque é um quadro muito amplo e escorregadio. Você pega um pedaço e ele escorrega. Não porque ele não quer que a gente o conheça, mas porque ele quer que a gente o conheça demais.

Drummond tem uma certa ligação com Fernando Pessoa. Pessoa levou aos extremos a questão da multiplicidade, mas com um aspecto arrumado, com heterônimos. Drummond talvez tenha sido mais radical, porque não havia essa separação, todos os lados viviam de um jeito conflitante. Alguns livros dele contradizem os outros. E até num mesmo livro, alguns poemas desmentem os outros. Ele nos deixa numa espécie de enrascada para defini-lo.

Na graduação, na UFRJ, havia disciplinas obrigatórias e optativas. E havia uma grande professora, Marlene de Castro Correia, que era uma grande leitora e crítica do Drummond. E eu ficava voltando pra esse curso todo semestre. Eu devo um pouco da minha ligação com Drummond a ela.

Drummond se incomodava com o título de poeta maior, mas isso veio de sua vontade de não se prender a limites de espaço ou tema. Ele transcende qualquer linha, ele avançou sobre todas elas.

Mediador: Carlito, uma vez você disse que as poesias que aparecem pelas editoras são drummondianas, podem até ser boas mas falta ousadia. O que você quer dizer com isso?

Carlito: Se antes eu falei da queda, preciso dizer que o bonito do Drummond é que você aprende que precisa estar à altura da queda. Antes de escrever seu primeiro livro, Drummond perdeu um filho, que só viveu 45 minutos. E no fim de sua vida, a filha morreu também. E ele não queria mais escrever, não queria mais viver. Ele sofreu essas duas quebras, essas duas perdas, no começo e no fim da carreira. Acho que esse seria o ensinamento de Drummond: é necessário estar à altura da sua queda.

Eucanaã: Não há dúvida que ele sempre esteve à altura de sua queda, mas Bandeira, Cecília, os grandes sempre estavam, as vidas impunham isso. O poeta é aquele que inventa quedas, ele quer cair. Quer ver o abismo. Às vezes ri, às vezes cai e às vezes volta. O problema de dizer que uma pessoa é drummondiana é que ele tem tantos lados, tantas contradições, que você poderia dizer que vários poetas são drummondianos de jeitos diferentes.

Mediador: Vocês selecionaram alguns poemas de Drummond.

[Carlito lê “Tarde de maio”. Eucanaã lê “Não se mate”, “O quarto em desordem” e “Os materiais da vida”.]

Horário de término: 16h

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