Mesa 18: Entre fronteiras

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Convidados:

Mediação Ángel Gurría-Quintana

Deslizando habilmente entre os pontos de vista do nativo e do estrangeiro, o norte-americano (nascido na Rússia) Gary Shteyngart e o inglês (filho de pai paquistanês) Hanif Kureishi criaram algumas das mais brilhantes sátiras da ficção contemporânea. Na obra desses dois premiados escritores, a perspectiva de viés, que mesmo ao tomar parte dos acontecimentos é capaz de considerá-los de um ponto de vista ironicamente distanciado, torna-se uma forma de expor ao mesmo tempo as tensões do mundo atual e a histeria vazia dos discursos que habitualmente pretendem descrevê-las.

Horário de início: 16h30

[Gary lê um trecho de Uma história de amor real e supertriste.]

Mediador: Fiquei fascinado com seu uso das mídias sociais como forma de desenvolver o romance.

Gary: Quando comecei a escrever o livro, eu tinha um iphone e tive que contratar um jovem pra me ensinar a mexer nele. Foi muito útil pra desenvolver o romance, mas o problema é que eu parei de ler depois disso, eu não leio um livro há 5 anos.

[Hanif Kureishi lê o conto “Casamentos e decapitações”.]

Mediador: Quando foi publicado na Inglaterra, esse conto provocou algumas polêmicas.

Hanif: Sim, foi banido pela BBC porque um jonalista estava sendo mantido refém na época. Mas se você não é banido pela BBC, está fazendo alguma coisa errada. Depois eu encontrei o jornalista e ele disse que adoraria que o conto fosse publicado.

Mediador: Gary leu um texto cômico e você leu um texto que nos leva a lugares muito sombrios. Mas a verdade é que mesmo o humor de Gary tem muita tristeza, e no meio dos seus textos há humor.

Hanif: Eu gosto de pensar que sou escritor cômico. Tento incluir piadas. O mundo é terrível e isso é engraçado. Os melhores escritores são engraçados, Joyce, Beckett. Você tem que escrever as coisas mais horríveis das formas mais divertidas.

Gary: Eu cresci na União Soviética, o que não era muito engaçado, mas nós nos divertíamos muito. Ríamos de muitas coisas que aconteciam.

Mediador: O tema da mesa é “Entre fronteiras”, vocês dois têm experiência com famílias que mudaram de país.

Hanif: Eu comecei a escrever pra parar de enlouqecer. Precisava enlouquecer os outros. Cresci no subúrbio de Londres, era um ambiente pesado e não havia virado multicultural ainda. Me perguntavam de onde eu era, eu dizia “daquela casa da esquina”. E eles não aceitavam, me perguntavam “mas de onde você realmente é?”. E eu comecei a escrever pra tentar descobrir uma resposta pra isso.

Gary: Eu li Buda do subúrbio, me deu uma sensação de liberdade ler sobre alguns dos mesmos desafios que eu enfrentava. Me abriu os olhos. Comecei a escrever nos EUA porque queria fazer amigos. O discurso do império do mal, tudo que era vermelho era do mal, os vizinhos me detestavam, diziam que era comunista. Na escola judia tínhamos que ler a Torá e todos odiavam. Um dia escrevi uma paródia do Êxodo, Sexodo, e de repente todos me adoravam!

Mediador: Vamos falar sobre sexo então. Como vocês lidam com o sexo na escrita?

Hanif: Eu cresci no subúrbio nos anos 70, e demorou pros anos 60 chegarem lá. Quando chegaram, foi incrível. A ideia dos anos 70 foi descobrir quem você é. E no livro o personagem tenta descobrir isso através do sexo. É o desejo que move a vida e o livro.

Gary: É um ato de amor sentar e escrever um livro. Comecei a escrever sobre sexo porque não estava fazendo, era como uma simulação de como seria. Então aos 37 anos finalmente fiz sexo, e foi ainda melhor do que havia imaginado nos 2 primeiros livros.

Mediador: Hanif, você tem uma história chamada “The penis” baseada em “The nose”, de Gogol. Você poderia resumir?

Hanif: É uma história de um pênis que se destaca do corpo, adquire uma vida própria, uma carreira. Quando publiquei, o editor disse “por favor, não publique essa história, vão rir de você a vida toda”. Ele estava certo.

Mediador: Gary, fale sobre “Shylock on the neva”, baseado em “Portrait”.

Gary: Eu não escrevi esse conto, terceirizei para a Índia. Nem sei sobre o que é. Os indianos são ótimos escritores.

Hanif: Toda literatura russa poderia facilmente ser reescrita pelos indianos.

Mediadores: Vocês também falam de religião. Gary, você brinca com os lados americano, russo, judeu. Como todas essas facetas se ajustam?

Gary: O público que decide, se me quiserem mais judeu eu fico mais judeu. Pra mim, a literatura russa é mais importante, os EUA são meu lar, e quando escrevo um livro meu pai pergunta “esse vai ser bom pros judeus?”. Na verdade acho que meus livros não são bons pra ninguém.

Mediador: “Meu filho é um fanático” está virado muito atual.

Hanif: Até o 11 de setembro ninguém parava pra pensar sobre o fundamentalismo. É terrível a falta de liberdade no fundamentalismo islâmico.

Mediador: Você esteve aqui na 1ª Flip, e uma das coisas que aconteceu desde então foi a publicação de um livro de memórias sobre seu pai. Por que você decidiu escrever sobre seu pai?

Hanif: Acho que me dei conta que nós dois éramos azarados por sermos imigrantes, mas tive sorte porque me dava um bom material pro meu trabalho, um assunto de que não estavam falando. Mas as pessoas não estavam interessadas. Perguntavam por que os personagens não poderiam ser brancos. Achei que era hora de alguém escrever sobre isso. Meu pai escrevia a vida toda, dizia que queria ser escritor. Quando eu fiquei conhecido, meu pai ficou com inveja. Ele queria ele mesmo ser escritor. Se sentiu um pouco humilhado.

Mediador: Você publicou na Granta uma história sobre seu pai, de que ele tinha orgulho por você dirigir um carro.

Gary: Ele tentou me ensinar a digir, mas ele xinga muito. Eu não consigo xingar tanto, então estava sempre pisando no freio. Minha família achava que era importante alguém na família ser artístico. Minha primeira editora foi minha avó. Ela disse que se eu escrevesse uma história, me daria um pedaço de queijo por página. Então escrevi uma história de 100 páginas chamada “Lênin e seu ganso mágico”. Na verdade até hoje eu sou pago em queijo.

Mediador: Em Absurdistão o personagem principal é obeso, maluco e não muito legal. Você já disse que gostaria de ser assim quando estava crescendo.

Gary: Você não se sente sortudo por ter nascido filho de imigrantes. Eu li Buda do subúrbio e era sobre como um cara descobre que pode virar o cara exótico da vizinhança e lucrar com isso. Eu tentei isso na faculdade, por um tempo ficava exagerando, dizia coisas que não faziam sentido, e as pessoas adoravam.

Mediador: Voltando ao título da mesa. Acho que ele também pode ser aplicado ao gênero, vocês fazem contos, romances. Como você sabe se uma história vai virar um conto ou um romance?

Hanif: Eu penso no que está acontecendo na minha casa. Tenho filhos e todos acham que sou uma máquina de dinheiro. Escrevo roteiros que me dão dinheiro, e aí posso escrever contos e romances. Os autores quando se encontram não falam de arte, falam de dinheiro, agentes, quanto cada um ganhou. Eu adoro escrever contos, mas você ganha 200 libras por eles, e aí tem que escrever roteiros pra comprar remédio pros filhos.

Gary: Por isso gostei de ir pra Pequim. Uma mulher levantou no evento e perguntou “quanto você ganha?”. Foi a pergunta mais honesta que me fizeram.

Mediador: A boa escrita pode ser ensinada? E se não, por que vocês dão aulas em cursos de escrita criativa?

Hanif: A verdade é que todo mundo que sabe escrever aprendeu com alguém. Eu aprendi com meu pai, com meu editor… Outras pessoas podem ensinar outras coisas, podemos sugerir soluções a que eles não teriam chegado por um bom tempo. Nós conseguimos dar conselhos, dizemos o que precisam melhorar. A ideia de que você não pode ensinar escrita é tolice. Tornar alguém um bom escritor não acontece, mas você pode ajudar alguém a chegar no seu lugar.

Gary: Eu gosto de focar na questão da honestidade. Muitos estão escrevendo o que acham que devem escrever. Tento arrancar alguma coisa de dentro deles. É difícil, mas quando acontece é recompensador.

Hanif: Todo mundo consegue escrever 2 ou 3 boas páginas, mas escrever 700 é mais difícil.

Mediador: Você sente que é tão bom quanto sua última obra?

Hanif: O problema é que não adianta escrever apenas um livro bom, você precisa pagar as contas, então precisa continuar escrevendo, e se vai escrever, tem que fazer o melhor possível.

Mediador: Daphne du Maurier disse que um escritor deve ser lido, não ouvido e muito menos visto. O que vocês acham disso? É inescapável?

Hanif: Acho uma afirmação idiota. Porque em muitos lugares do mundo os políticos não são honestos, e às vezes acho que os escritores são os únicos que falam a verdade. Os escritores podem ser uma figura importante num lugar como o Paquistão.

Gary: A maior sorte do tempo quero ficar em casa chorando, mas às vezes é bom sair e encontrar o mundo. A geração do meu pai adorava ficar em casa lendo os romances que haviam sido proibidos. Hoje em dia os russos no subúrbio americano estão todos vendo Fox News. Você tem tanta liberdade e não aproveita.

Mediador: Vocês dois gostam muito de Chekhov, aparece nos seus romances.

Gary: Quando cheguei nos EUA, meus pais tinham poucos pertences. Eles não me deixavam falar inglês nem ver tv, então eu ficava no meu quarto lendo Chekhov e chorando por haver alguém que escrevesse daquele jeito. É uma das melhores coisas da cultura russa.

Pergunta: Gary, quanto você ganha?

Gary: Obrigado por perguntar. Depende da cotação do queijo parmesão. Quando está favorável, ganho quase 20 dólares por ano. Mas quando desce, fica nuns 5 reais por ano.

Mediador: Hanif, o que mudou no festival desde a outra vez que você veio?

Hanif: A cidade é praticamente a mesma, mas tem mais gente comprando livros e interessada na literatura. As pessoas querem ouvir os escritores. É algo digno de aplausos.

Horário de término: 17h46