Mesa 4: Autoritarismo, passado e presente

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Convidados:

Mediação: Zuenir Ventura

Processos do Ministério Público contra agentes do Estado acusados de tortura e a criação de uma Comissão da Verdade para investigar crimes e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura fizeram com que a sociedade brasileira voltasse a discutir de maneira acirrada um passado que para muitos teria sido oficialmente superado com a promulgação da Lei da Anistia e a redemocratização. O autoritarismo em nosso país, no entanto, não começa em 1964 nem termina em 1985. Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira discutem nossa tradição autoritária e o modo como ela se manifesta no presente.

Horário de início: 19h30

Zuenir Ventura: O autoritarismo é definido como o excesso de autoridade, de poder. Vocês concordam com isso?

Gabeira: Você poderia aplicar o conceito em relações pessoais, mas eu enfoquei a relação Estado-sociedade.

Luiz Eduardo: Mas no caso do Brasil, a linha de continuidade do autoritarismo se mostra tão constante que a relação entre os seres humanos acaba sendo objeto de nosso trabalho também.

Gabeira: O totalitarismo veio porque havia uma opinião de que o povo não saberia votar, e havia receio quanto ao federalismo.

Luiz Eduardo: Hoje em dia nós podemos não apanhar mais, mas negros e pobres vivem sendo abusados e todo mundo sabe, é uma barbárie e um enigma ético pra mim.

Gabeira: As pessoas partem da ideia de salvar o povo, mas na época da proclamação da República, por exemplo, os escravos eram contra. Porque ela seria uma República escravocrata.

Gabeira: Volta e meia surge a vontade de controlar a imprensa. Há uma tentativa de tornar políticos em personagens, porque eles sabem que essa é a única possibilidade de juntar as massas.

Luiz Eduardo: Não há como compreender a presença do autoritarismo no Brasil sem pensar na cordialidade brasileira explicada por Sergio Buarque de Holanda.

Luiz Eduardo: Prestes foi aclamado por deixar o lado privado separado do público no caso da Olga. Mas eu acho que isso mostra uma falta de compreensão dos direitos humanos, uma falta de vontade de transgredir certos valores.

Gabeira: Foro privilegiado é abuso de autoridade, e com voto secreto é praticamente impossível condenar alguém. As evidencias não importam mais, só a versão que eles apresentam. Isso é autoritarismo, a sociedade roubada não consegue se defender. Com a eleição do Lula havia uma expectativa, mas é como se o PT tivesse dito “o mundo fez de mim uma puta, eu vou fazer do mundo um bordel”.

Luiz Eduardo: Há uma retórica pudica, não se chama tortura de tortura, isso afetou a transição. Há uma tolerância com as versões apresentadas. A Comissão da Verdade pode vir a oferecer uma oportunidade de chamar o crime por seu nome.

Gabeira: Pra mim parece que eles não querem apurar a verdade, parece um time jogando a bola pro escanteio pra gastar tempo.

Mediador: Houve um avanço nas relações pessoais no Brasil?

Gabeira: Houve um avanço no respeito às crianças, aos gays (embora ainda haja muitos assassinatos), mas isso é um avanço da sociedade. Na época da aprovação do divórcio também havia tanto aqueles que agradeciam quanto aqueles que diziam que ia acabar com a família.

Luiz Eduardo: Vale a pena invocar o suicídio de Getúlio Vargas. Houve uma ruptura na história que só foi reparada com a morte de Tancredo, que foi oposta.

Mediador: A Dilma é uma presidenta autoritária?

Gabeira: Não conheço a relação dela com os ministros, só com o congresso. É uma relação de distância porque os marketeiros disseram que era importante distanciar a imagem dela do congresso. Porque os presidentes podem governar com MPs. O congresso no Brasil
Passou a ser um carimbador de decisões, e isso é algo autoritário.

Luiz Eduardo: Eu acho que como presidente ela não é autoritária, é centralizadora de um jeito exagerado. É uma tentativa de se distanciar de discussões políticas.

Gabeira: Mas o problema é que ela age como se fosse tudo um céu azul! Alguém precisa ver por que já tanta corrupção.

Luiz Eduardo: Sobre a Lei da Anistia, eu aceitaria não punir os envolvidos contanto que houvesse uma investigação da verdade, ao invés da aceitação de uma versão.

Gabeira: Eu acho que falar em verdade é complicado, mas nessa questão da anistia eu concordo plenamente com você. Foi um arranjo político. Nós exilados voltamos felizes, foi um avanço. Agora a relação de poderes mudou. Mas sobre a punição, também sou contra, eles estão quase morrendo.

Luiz Eduardo: Sobre a Comissão da Verdade, eu queria que houvesse um esforço por fundamentar os fatos, que pudéssemos reunir as versões que poderiam aparecer nos livros de história das nossas crianças.

Gabeira: Eu não espero muito da Comissão porque não espero muito de qualquer comissão. A imprensa e a sociedade é que impulsionam a investigação.

Horário de término: 20h45

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