Mesa 7: Exílio e flânerie

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Convidados:

Mediação: João Paulo Cuenca

A errância é a figura comum que aproxima as obras de Teju Cole e Paloma Vidal, dois jovens e celebrados autores. Nas caminhadas de personagens à deriva, ou nos desvios digressivos da escrita, Cole e Vidal atualizam e dão novo sentido à relação entre experiência, memória e deslocamento.

Se no começo do século XX o flâneur era o tipo moderno por excelência, circulando pelos novos espaços urbanos, os livros de Cole e Vidal sugerem que em nossa época o movimento dos seres humanos entre países e continentes produz outro tipo de olhar, ligado ao êxodo e ao exílio.

Horário de início: 15h

Antes da mesa, Carpinejar lê o poema “Confidência do Itabirano”.

Paloma Vidal lê um trecho do romance que terminou de escrever há 15 dias. Teju Cole lê um trecho de Cidade aberta.

Mediador: Os dois romances falam de personagens em deslocamento, e os dois autores mudaram de país quando novos. O que a vivência de estar fora trouxe para vocês como escritores. E qual é um lugar para onde vocês querem ir?

Paloma: Meus livros são justamente essa pergunta. As pessoas dizem “você veio pra cá com 2 anos e meio, é mais brasileira que argentina”, mas pra mim há uma divisão. Se sentir estrangeira é a pergunta que guia meus livros. Pra mim é liberador.

Teju: Eu basicamente concordo, a ideia de literatura como consolo, forma de lidar com a distância de casa. Mas essa mudança de cenário faz com que você descreva o lugar. Se você permanece no mesmo lugar que sua família e conhecidos, você não precisa descrever o lugar, todos conhecem. Mas a mudança de país faz com que você descreva o lugar pros outros e pra si.

Mediador: Qual é o reflexo das caminhadas na literatura de vocês?

Teju: Essa perambulação só é possível se você não tem a responsabilidade de um lar, não tem que dar satisfação a ninguém. O seu tempo é seu. Acho que a flanerie de Baudelaire era mais leve, pra Julius [de Cidade aberta] era algo mais histórico, tentar recuperar algumas histórias.

Paloma: Eu fui pra Los Angeles pra fazer mestrado e a experiência pra mim foi um desastre. É difícil caminhar por lá, eu andava de ônibus. Voltei pro Brasil com um blog e de repente aquilo foi a possibilidade de começar a escrever sobre aquela cidade. No final eu acabei gostando da cidade.

Teju: Quando terminei meu livro comecei a ficar triste. Não era uma carta de amor a NY, é sobre as engrenagens da cidade e como as pessoas ficam presas nelas. É um dedo apontado para a cidade. Mas depois do livro eu me sinto duas vezes mais novaiorquino que antes. Depois de passar 2 anos escrevendo, eu não me sinto mais do mesmo jeito, eu concordo que é uma carta de amor a NY.

Mediador: Como vocês pensaram a estrutura narrativa, já que as caminhadas são espontâneas?

Paloma: Como eu disse, eu fiz o livro a partir de um blog, então eram vários fragmentos. Eu fui tirando algumas coisas, mas sem nunca planejar uma estrutura geral.

Teju: Não vem do ímpeto da literatura, da criação de um enredo. Quando eu leio um livro, quero evidências da presença da mente. Eu pensei nos diferentes registros que podem surgir de um tema. Queria algo que desse ao leitor a sensação de ter ouvido uma grande sinfonia, com instrumentos diferentes entrando a cada momento.

Mediador: Vocês já tiveram problemas com percevejos?

Teju: Vocês têm sorte de não ter percevejos por aqui, lá as pessoas têm que se mudar por causa disso. Mas no livro eu inventei algumas coisas, por exemplo, Julius briga com a mãe. Depois de terminar o livro eu briguei com minha mãe. O livro fala de pontos cegos, eu tive um problema nos olhos chamado síndrome do ponto cego. Eu fiquei preocupado com essas coisas acontecendo, porque não quero ter percevejos. Meu próximo livro vai ser sobre um cara lindo muito rico.

Mediador: Quando vocês escrevem, é um momento feliz ou triste?

Paloma: Pra mim é uma felicidade, tem uma ligação com a liberdade. De repente vem uma frase pra você, e pode até ser assustador perceber algumas coisas, mas você descobre que há mais coisas dentro de você do que imaginava, e isso é bom.

Teju: Quando estou num momento em que preciso escrever, é um pouco triste. Mas você começa a escrever, é uma alegria. Aí você vai editar e é uma tristeza: quem foi o idiota que escreveu isso? Mas depois que você edita, é uma alegria de novo.

Mediador: Vocês dois são professores de literatura em faculdades. Como isso se liga à sua escrita?

Paloma: É um trabalho de que eu gosto, que me faz pensar a literatura. E ao mesmo tempo ele me dá a liberdade de só escrever realmente porque eu quero.

Teju: Minha resposta é essa também. Teoria e filosofia fazem parte da vida. Eu não me importo se eles esquecerem tudo depois da prova, mas eu quero que eles entendam quem é o “nós” de que se fala, que entendam a identidade de grupo.

Horário de término: 16h17

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