Mesa 9: Encontro com Jonathan Franzen

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Convidado: Jonathan Franzen
Mediação: Ángel Gurría-Quintana

Uma conversa com o escritor norte-americano que tem sido reconhecido como um dos mais incisivos intérpretes dos dilemas da sociedade atual. Autor de ensaios e ficções que colocam com insistência a questão da relevância da escrita e da criação literária no mundo de hoje, Franzen discute sua obra e a repercussão singular de seus livros e ideias no panorama da cultura contemporânea.

Horário de início: 19h30

Antes da mesa, Dulce Maria Cardoso lê o poema “Para sempre” de Drummond.

Mediador: Philip Roth escreveu que há uns 20 grandes escritores americanos na geração seguinte à dele, e o melhor deles é Jonathan Franzen. Ele vai ler um trecho de seu romance mais recente, Liberdade.

Mediador: Sei que você é fã de romances russos, e a famosa frase de Anna Karenina parece ser o lema de seus romances.

Franzen: Eu não era infeliz. Acho que minha família era basicamente infeliz, mas o que é infelicidade? A lista de falhas morais de artistas é longa e uma delas é que tendemos a exagerar nossos problemas, porque obviamente para alguém que escreve uma vida comum não tem graça, precisamos exagerar.

Meu pai tinha um emprego seguro e minha mãe cuidava dos filhos, eram bons pais. Eles não eram tão infelizes, houve anos ruins, e houve anos bons.

Mediador: Seu livro anterior saiu logo antes do 11 de setembro, e seu novo livro acontece nessa época. É sua resposta ao fato?

Franzen: Não, eu esperava que o 11 de setembro sumisse. O 11 de setembro foi um ataque midiático e político baseado no ataque terrorista.

Mediador: O diário de Patty é escrito em 3ª pessoa, mas tudo é visto pelos olhos dela. Você pode falar sobre o processo de montar esse livro?

Franzen: Foi uma bagunça total. Antes eu estava tentando escrever um romance baseado em documentos. Isso não deu certo. Eu tinha encontrado uma voz por acaso em 2003, era uma mãe suburbana bonitinha chamada Patty, e encontrei uma história para ela contar. Ia ser uma história curta de 40 páginas sobre faculdade. Narradoras femininas me parecem estranhas, mas eu mesmo faço isso. Também tentei escrever a partir de emails que a garota indiana mandaria.

Franzen: Todos os personagens acabam sendo um pouco eu, mas se eles de parecem comigo, soam como eu, eu os odeio.

Franzen: Minha ideia de escrever um romance é como o mito da águia e Prometeu, mas não há águia, sou eu comendo meu fígado todo dia. Não acho que escrever seja terapia porque acho que não precisaria de terapia de não escrevesse.

Franzen: Eu gostava muito da mãe de Correções mas ela não de dava muito bem. Fiquei pensando que não tenho problemas maternos, então resolvi escrever um romance que fosse maioritariamente narrado por uma mãe.

Mediador: Como você se sentiu com a capa da Time?

Franzen: Semana passada eu estava jantando com um amigo e outra pessoa me perguntou “você é Stephen King?”.

Mediador: Mas você acha que isso mudou sua visão da cultura americana?

Franzen: O problema é que nos anos 60 havia vários autores medianos, e agora parece que só temos estrelas ou superestrelas. Eles querem John Grisham, dão montanhas de dinheiro, e é como se os outros que têm vendas menos explosivas não importassem.

Franzen: A literatura está de fato com problemas. Quando o romance estava forte, você podia experimentar e falhar, e tudo bem. Mas agora o romance não é mais a força predominante. O romance tem uma função de entretenimento. Nos EUA é ok chamar de entretenimento, mas parece que aqui o termo faz as pessoas pensarem em James Patterson. Não é isso que quero dizer.

Franzen: As narrativas brasileiras que pude ler são maravilhosas, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Chico Buarque.

Mediador: Você conclui com Foster Wallace que a função do romance seria curar a solidão.

Franzen: Nós discutimos muito sobre isso, e sinto falta de ligar para ele e conversarmos. Éramos como irmãos, nos amávamos mas também brigávamos. Tem coisas que ele faz que eu nunca vou conseguir fazer, e vice-versa. Eu vejo os estudos acadêmicos da obra dele e fico com inveja. E ele ficava com inveja do dinheiro que eu ganhei. Mas no fim a gente sempre ficava bem.

Mediador: Você fala no livro de ensaios sobre como com a morte de Foster Wallace o tornou numa figura mítica.

Franzen: O que me incomodava era que eu vejo o suicídio como uma pequena fraude, e eu odeio fraudes, mas é um assunto complicado e eu não deveria falar sobre isso.

Franzen: Quando você escreve, cria um problema de lealdade com si próprio e com os leitores. O escritor está numa posição horrível de administrar sua própria vida.

Mediador: Seus personagens parecem fugir da liberdade, apesar de todo mundo dizer que quer liberdade. Você acha que todos estamos fugindo da liberdade?

Franzen: Depende do que você quer dizer com liberdade. Uma pessoa de 16 diria “nada de regras, eu decido o que quero fazer, vou pra praia uma semana sozinho.” Mas e aos 45, 75 anos, você diria isso? Eu não acho que estejamos todos fugindo da liberdade. Suspeito que nos venderam a versão da liberdade que é incorreta. Imagine que você está numa loja com várias opções de cortinas de banheiro. Você senta por horas pra tentar escolher. E a loja diria que isso é liberdade de escolha.

Mediador: Você pretende incluir nos seus romances sua experiência vivendo na Alemanha?

Franzen: Com certeza! Eu fico pensando “como posso aproveitar essa experiência? Eu sei algumas coisa sobre o assunto!”

Franzen: Você acha que há uma sensibilidade diferente entre narradores masculinos e femininos? Como o livro seria diferente se fosse narrado por um homem?

Franzen: Mais páginas são narradas por homens, mas Patty tem a maior presença. Foi uma personagem complicada. Eu não gostaria de uma personagem masculina central controladora, é o melhor que posso fazer para explicar.

Mediador: Você e Drummond tiveram seus óculos roubados.

Franzen: Sim, estava em Londres e um cara passou correndo e pegou meus óculos, apareceram helicópteros, e policiais correndo atrás dele. Também aconteceu em Londres que o livro foi impresso a partir de uma versão errada do manuscrito, e tiveram que fazer recall de 60 mil exemplares.

Mediador: Você já teve vontade de parar de escrever?

Franzen: Não nos ultimo 9 dias. Mas 10 dias atrás sim, antes de tomar meu café. Ou talvez sejam só 48 horas… Preciso de um café.

Mediador: Você foi observar pássaros.

Franzen: Sim, muitas espécies só existem aqui. Fui com uma mulher que está tentando conscientizar as pessoas sobre os pássaros da região. Outro dia tiraram foto de um pássaro que não era visto há 100 anos. Todo dia descobrem espécies novas.

Horário de término: 20h52