Mesa Los Amigos: Quadrinhos para maiores

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Convidados:

Mediação: Claudiney Ferreira

Nesse encontro entre dois artistas que mudaram de maneira definitiva a cara dos quadrinhos brasileiros, Laerte e Angeli sobem ao palco da Tenda dos Autores acompanhados por históricos decididamente nada respeitáveis de personagens inesquecíveis, como Rê Bordosa e os Piratas do Tietê. Os dois falam sobre os pontos em comum de suas trajetórias e discutem os principais elementos do caldo de referências culturais e políticas presentes em seus trabalhos, nos quais a crítica de costumes assume um viés anárquico e satírico às vezes próximo do surreal.

Horário de início: 21h30

[Antes da mesa, Carlito Azevedo lê o poema “Alta cirugia”, de Drummond.]

Mediador: Vocês se consideram humoristas?

Angeli: Às vezes. Mas humor não é só piada, há um leque de possibilidades. Eu fico mais perto do humor negro.

Laerte: A palavra sugere uma coisa meio partidária, ou de especialista. A gente produz histórias. Humor é o tipo de veículo em que a gente produz essas histórias.

Mediador: E vale tudo no humor?

Angeli: Acho que vale, mas dependendo do que você faz, tem que responder pelo seu trabalho. Acho que nem tudo que aparece por aí como humor é exatamente. Standup, por exemplo, parece ter uma qualidade baixa.

Laerte: Tem muita gente, com graus de qualidade diferentes. Está sintetizado numa coisa meio Seinfeld, eles tentam confundir o comediante e o personagem. Antes era uma atuação, como com o Costinha. Com o standup, o interessante é a confusão. “Isso foi uma piada ou é o que ele pensa?” É uma técnica respeitável, mas que coloca a pessoa numa saia justa. Talvez ela precise responder por uma questão crítica, mas acho que a saída judicial não é a mais certa, parece censura.

Angeli: O cara tem direito de falar aquelas coisas.

Laerte: É preciso criar um acerto crítico sem que a polícia esteja envolvida.

Mediador: Você já fez algum trabalho em que sente que escorregou?

Angeli: Ah, eu tento ser cuidadoso, não faço piadas rápidas, não solto que nem pipoca. Me preocupo com o que estou falando e com quem. Mas já enfiei o pé na jaca sim.

Laerte: Já mexi com a questão do Alzheimer. Criei um bandoleiro com Alzheimer que entrava na cidade pra matar alguém e tinha que ficar pedindo ajuda dos moradores. Recebi cartas de associações, foi algo que me fez pensar. Eles têm razão, mas eu também. É preciso respeitar mas não podemos sacralizar a doença também.

Mediador: Vocês recebem cartas?

Angeli: Sim, de pesssoas apoiando e criticando. Mas também não posso me guiar pelo leitor. Não vou desviar o modo como vejo as coisas por causa dele. Mas já houve cartas que me fizeram repensar algumas coisas.

Laerte: Hoje em dia é email, comentário… Você posta algo e as pessoas já comentam. E os comentadores dialogam entre si!

Angeli: Eu tenho uma série chamada “Love histórias”. Uma vez fiz uma tira com uma mulher reclamando que há muito tempo o marido não tocava nela. Ele enche ela de porrada e diz “pronto, toquei”. Era uma piada claramente a favor da mulher, mas teve uma jornalista que disse que eu sou machista. Ela não entendeu a piada. Eu sou a favor das mulheres. Mas não vou fazer uma cartilha “Como amar as mulheres”. Meu trabalho é humor, eu me preocupo que as pessoas entendam as piadas. Uma mãe achou que eu devia parar de fazer piada com suicídio porque o filho havia se suicidado. Não posso deixar de usar as coisas que estão à minha volta porque aconteceu uma fatalidade.

Mediador: Todo o trabalho de vocês sai da prancheta, de um trabalho diário. Essa vida agrada voces?

Angeli: Eu gosto, almoço na prancheta, janto na prancheta, é meu lugar preferido da casa. Eu me sinto viciado, preciso de ajuda. Não consigo sair na rua e pensar numa piada.

Laerte: Eu gosto muito da prancheta do Angeli, é de casal. A gente trabalhava na casa do Angeli, na minha casa não era muito legal. Na verdade eu gosto de bolar histórias, não muito de desenhar. Eu gostaria que o desenho se fizesse sozinho. Cada desenho tem sido um problema, tem que buscar soluções gráficas etc. Quando eu tenho uma ideia, quero ela pronta logo. Comecei a usar caneta vermelha pra fazer rascunho e depois filtrar a cor no computador, pra não ter que ficar apagando o lápis. Mas é uma técnica de preguiçoso.

Angeli: Eu gosto, às vezes complico tanto que no meio já esqueci por que estava fazendo aquele desenho.

Laerte: Já houve épocas em que tinha mais gosto. Hoje em dia eu sou capaz de fazer isso, mas precisam pagar muito bem.

Pergunta: Quando você se expõe no desenho, é necessidade de catarse ou argumento?

Angeli: Os dois, às vezes é uma situação que estou vivendo no momento, e às vezes é uma coisa boba, querer fazer piada comigo mesmo. Agora eu estou ficando esquecido, fumei muito orégano na vida. Então várias vezes eu uso o tema do envelhecimento. Fui na padaria com a Carol e sentei num canto e dormi. Acordei quando ela voltou e percebi que tava ficando velho. Aí fiz uma tira com isso. É uma forma de brincar com minha própria deficiência, pra entender.

Pergunta: Vocês pensam em parar de produzir? Como o Quino, que disse que as ideias haviam se esgotado?

Laerte: É uma prática de tantos anos que a gente acaba conseguindo fazer. Essas coisas diárias eu não tenho medo de não conseguir realizar, mas trabalhos mais elaborados às vezes eu acabo avaliando e digo pra pesssoa que não vou conseguir fazer.

Angeli: Eu faço tira desde 83, fazia muito rápido, mas acho que meu critério ficou mais apurado, me recuso a mandar algumas coisas pro jornal. Mas eu criei artifícios… gosto de fazer desenhos sem motivo, tenho usado alguns desenhos de gaveta. Quando não tenho ideia, pego um desenho antigo e crio uma tira como caderno de esboços.

Mediador: E você, Laerte, que artifícios usa pra entregar todo dia?

Laerte: Uma saída gráfica, às vezes… eu não tenho mais trabalhado com a necessidade de entregar uma piada. Posso recorrer a coisas que estive pensando e anotei, a ideias que já trabalhei mas posso reformular. Não é picaretagem, é propor um passeio pro leitor.

Mediador: Vocês já mataram alguns personagens. Que personagens passaram a te perturbar?

Angeli: Eu gosto de criar um personagem, ver ele se desenvolver, ficar gordo, crescer, ver o público acompanhando. Eu vou construindo ele com o tempo. Mas ao mesmo tempo que é bom, pode ser uma armadilha, você vira refém do personagem. Achei que se continuasse trabalhando só com personagens, ia ficar uma coisa meio quadrada. Não queria ser que nem Schulz, 50 anos fazendo a mesma coisa. É legal, mas minha proposta é mudar. Os personagens representam uma época da minha vida, os punks e etc, e isso também não tem mais muita importância pra mim. A Rê Bordosa eu matei mesmo, criei a história da morte dela. Matei o Bob Cuspe e estou elaborando a morte de outro personagem também.

Laerte: A gente não deve acreditar em tudo que acontece nos quadrinhos. Você levou muito a sério a morte da Rê Bordosa. Eu mantive o Hugo porque me ajuda a pensar. Os outros foram um ciclo que se esgotou.

Mediador: A Rê Bordosa é a sua personificação da mulher ideal?

Angeli: Não!

Mediador: O Bob Cuspe você queria ter como amigo?

Angeli: Também não! Os personagens que eu criei normalmente são pessoas que eu não queria ter como amigos.

Mediador: Sobre o Hugo, há uma tira com ele penteando os cabelos e no final diz “às vezes um homem precisa se montar”.

Laerte: Essa foi uma tira que chamou a atenção de grupos de travestis, que perguntaram se eu tinha interesse em experimentar isso também. E eu tinha, acabei me aproximando depois disso.

Mediador: Uma vez você disse que há poucas mulheres quadrinistas. O que você pensa disso agora?

Angeli: Acho que essa questão já passou, tem muita gente boa surgindo por aí, graphic novels feitas por mulheres.

Mediador: Você se vestir de mulher tem influência no seu trabalho?

Laerte: Eu acabei fazendo uma questão meio simbiótica. Eu uso o trabalho pra pensar. Nesse caso foi necessário o trabalho e a intervenção de um grupo de pessoas. Me levou a um grupo de pessoas com um novo tipo de questões, que lutam por outras coisas.

Mediador: Você não acha machista a insistência por se livrar dos pelos?

Laerte: É subjetivo, a feminilidade é um modelo criado mesmo. Conheço homens que tentam reproduzir imagens prontas, de capas de revistas. E as mulheres também. Não é machista, é um gosto. É preciso coragem pra ser um genderfucker, sair com barba e vestido de mulher, não refletir nenhum dos modelos reproduzidos por aí.

Mediador: Quarenta anos atrás quando vocês de conheceram, quem eram Laerte e Angeli? Qual foi o desejo que os uniu?

Laerte: A resposta pra isso é uma conferência. Nos éramos jovens, tínhamos 20 anos. Quando você desenha, percebe que tem um poder, e era a época da ditadura. O que uniu a gente foi não ter onde publicar, foram nossos fanzines, porque era pouca gente fazendo isso. O salão de humor de Piracicaba andou a selar isso.

Angeli: Eu desenho desde menino, tinha prazer em desenhar. Me lembro da mesa enorme, família italiana, meu avô tirava uma parte da toalha e pedia pra eu ficar desenhando. Eu era péssimo aluno, fui expulso de todas as escolas, não sei por quê. Do nada eu estava no meio de uma situação, e não sabia como tinha ido parar lá. Tive uma vida escolar péssima, e morava perto do rio Tietê. Ia andando, e no caminho eu parava e esquecia que tinha que ir pra escola. O surgimento do Pasquim foi um marco pra mim. Me encantou. Antes eu sabia que seria um desenhista, mas não sabia do quê. O Pasquim me deu uma direção. Falei “vou ser cartunista” e fui, virei cartunista. E aí fui pro Salão de Piracicaba.

Laerte: Você ganhou o segundo, eu ganhei o primeiro.

Angeli: Uma pessoa da Folha viu um desenho meu e ligou pro Cláudio Abramo, que estava atrás de um chargista. Aí entrei lá na Folha e nunca mais saí. Sou um cara que anda em linha reta. Eu penso como cartunista.

Laerte: Eu penso como geminiano. Penso em como uma história pode evoluir. Acho que talvez eu seja mais quadrinista, estou interessado mais na história que no cartum.

Mediador: Como foi sua saída do partido comunista?

Laerte: Foi meio por instinto. Eu tinha sido aliciado pra entrar. Nunca fui muito bom de argumentação. Sentia que queria sair do partidão, da Gazeta Mercantil e do meu casamento. E fui saindo sem muitas explicações. Nunca consegui deixar muito claro quais eram minhas objeções.

Mediador: Você tem algum personagem que alimenta suas charges políticas?

Angeli: O Maluf alimentou bastante quando tinha mais lastro, agora não tanto mais. Gosto de mexer com ele porque representa, junto com outros, a política de baixa qualidade. Ele é mentiroso cara de pau, repete uma mentira até virar verdade. Chega a ser uma comédia.

Mediador: Pra fechar, vamos falar um pouco do Glauco. Como era trabalhar com ele, a anarquia em pessoa?

Angeli: Ele foi premiado num dos Salões e de cara simpatizei com ele e seu trabalho. Ele tinha uma piada simples que ao mesmo tempo não deixava buracos. Era muito bem construído. Convidei ele pra Folha e era muito hipongo, era uma coisa absurda. Ele foi mostrar o trabalho na Folha mas acendeu um baseado no banheiro antes, os seguranças pularam em cima. Pensei “legal, quero ser amigo dele”.

Laerte: Ele era capaz de reconhecer a fraqueza de uma pessoa muito rápido. E chegava nas reuniões com ideias matadoras.

Mediador: Pra terminar, onde você comprou esse vestido lindo?

Laerte: Na Collins.

Horário de término: 22h49

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