Programação paralela: Conversa sobre mercado editorial

Na Casa da Companhia, Deborah Rogers (agente literária inglesa), Jonathan Galassi (editor da Farrar, Straus and Giroux) e Annalena McAfee (escritora e jornalista, trabalhou como diretora do suplemento literário do The Guardian) discutem o mercado editorial.

Horário de início: 18h

(Como Liz Calder estava na plateia, foi chamada para se juntar aos convidados. Ela é co-fundadora da editora Bloomsbury e uma das idealizadoras da Flip.)

Luiz: Ao invés de discutir o futuro e o fim dos livros, de que todo mundo está cansado de ouvir, prefiro falar sobre os grandes momentos que vivemos. Quero que vocês digam como se tornaram agentes, editores, jornalistas culturais.

Deborah: Foi por acidente. Fui a NY quando jovem e fiz faculdade de datilografia, mas eu era muito ruim. Fiz vários trabalhos depois disso, e um dia respondi um anúncio de uma agente que trabalhava para a Curtis Brown. Ela trabalhava com roteiros, e eu não gostava disso, mas aprendi a gostar do trabalho de agente, de poder trabalhar com texto. Depois disso comecei a trabalhar com o agente de Ian Flemming. E depois de um tempo abri minha própria agência. E tive muita sorte. Era outra época. Todos entregavam seus manuscritos em papel, e você também tinha que ficar esperando novas versões e tudo mais. Era muito diferente. Então vieram as máquinas de xerox, fax e aí por diante.

Luiz: Cite alguns de seus autores.

Deborah: Meus primeiros clientes foram Anthony Burgess, Michael Glenny.

Jonathan: Acho que comecei como editor pelo mesmo motivo que ela começou como agente, eu amava os textos. Aqui na Flip, no meio de tanto amor aos livros, eu sinto que tudo pode ter mudado no mundo literário, mas isso permanece. Elizabeth Bishop era publicada pela FSG e os livros eram obras de arte, eu admirava muito. Eu queria estar envolvido na disseminação desses materiais. Me parecia algo muito sexy. Então eu fui pra NY e comecei a trabalhar justo na FSG. Acho que não só pra nós, mas pra todo o meio literário, tem muito a ver com paixão.

Annalena: Eu escolhi ir pra uma faculdade muito ruim só por causa de um poeta que ensinava lá, mas ele morreu logo antes de eu entrar. Quando me formei, fui trabalhar pra Marvel por um tempo como editora assistente, trabalhava com Homem Aranha e Hulk. Depois de um ano passei a trabalhar para um jornal e passei a cobrir o que eu amava, cultura e literatura.

Liz: Meu primeiro trabalho no meio editorial me foi inspirado por Deborah Rogers. Estava trabalhando numa empresa cinematográfica avaliando livros que poderiam ser adaptados, mas aí todos fomos demitidos. Eu tinha conhecido Deborah e ela sugeriu que eu fosse trabalhar com divulgação numa editora. E isso virou meu trabalho, me sinto honrada por ter passado tanto tempo trabalhando com livros. Depois passei a trabalhar numa editora de livros políticos, e depois acabei eu mesma virando editora quando um dos editores saiu.

Luiz: Uma vez eu discordei de um editor italiano que dizia que edição era uma arte. Eu achava que nós devíamos parar de achar que nosso trabalho é uma arte, porque o artista é o escritor. Como vocês vêem a edição? Há alguma arte nisso?

Deborah: Não, acho que não há arte. Há paixão. Como agente, você não tem que estar no holofote. Se você aparece, está tirando espaço do seu autor. Meu trabalho é fazer que meus autores recebam todo o reconhecimento que merecem. O que faz um bom editor é o comprometimento, buscar autores que eles tenham vontade de defender. Isso não é arte, é integridade.

Jonathan: Você pode dizer que é um pouco como a arte de fazer um arranjo de flores. Os autores são as flores, e há um pouco de arte em juntá-los. Há uma unidade no catálogo de uma editora que é importante.

Annalena: Bom, nós todos amamos a beleza do objeto, o design. E um bom trabalho de edição pode ser arte. Como Raymond Carver tendo seu trabalho polido pelo editor.

Liz: Pode ser, mas acho que o trabalho do editor, quando adquire um livro, é passar seu entusiasmo e sua opinião para seus colegas, e depois para o público. Uma coisa muita boa na minha carreira foi como eu pude me conectar com amigos de outros países. No fim da década de 80 eu havia começado uma editora com uns colegas e um amigo de outro país me falou de um livro que foi crucial pro lançamento da editora. Nosso trabalho é disseminar os livros, é isso.

Luiz: Eu sempre pensei que um editor fosse acima de tudo um bom leitor. Você precisa pensar na tipografia, na divulgação, mas se não for um bom leitor, desista. Queria que vocês falassem de alguns momentos especiais como leitores neste trabalho.

Deborah: Tive dois momentos incríveis. Quando você sente uma conexão com um autor, não há nada como a alegria de quando eles lançam um novo livro… Montanhas de livros chegam pra você e é exasperador, porque você sabe o esforço que foi gasto naquilo, então você tenta ser gentil, porque não quer magoá-los, mas também não quer enganá-los de que aquilo é bom. E você lê tudo aquilo, e de repente chega um livro com uma voz que salta das páginas, e te prende. E você sabe que este é um escritor para quem você quer trabalhar, que você quer ajudar, e você vai pra casa andando nas nuvens.

Jonathan: Eu sempre tive uma ansiedade de estar lendo um livro bom e ficar com medo de ele não corresponder às minhas expectativas. Com o primeiro livro de Jonathan Franzen eu lia um pouco cada noite e ficava com medo que ele desandasse, mas claro que não aconteceu. E quando estava na Houghton Mifflin, me pediram pra ler Dog soldiers, de Robert Stone, logo que havia entrado, e eu era jovem, me impressionou. Havia uma magia naquilo.

Annalena: Jornalistas culturais são os beneficiários do trabalho dos editores e agentes. Dois grandes momentos pra mim foram receber exemplares para avaliação de Dorothy Molloy e Alice Oswald. Foi como se a redação se silenciasse naquele momento. E eu tentei incentivar um crítico de arte, Brian Sewell, receber os textos dele era o ponto alto da minha semana. Agora ele lançou um livro de memórias.

Liz: Concordo com Deborah que achar uma voz que fale com você é importante. Uma das primeiras experiências que tive como editora aconteceu quando vivia num quarto na casa de um casal. E o marido vinha pra casa de noite e ficava conversando conosco, ele era muito culto. O quarto em que eu dormia era antes os escritório dele, e um dia descobri pilhas de papéis lá, rascunhos de romances. Não falei nada porque acreditei que quando estivesse na hora certa, ele me mostraria. Um dia ele me entregou uma versão e era escrito num estilo flamboyant que me cativou desde o começo, a linguagem era muito rica. Eu o publiquei e o livro recebeu resenhas horríveis, nós dois achamos que havíamos arruinado a carreira do outro. Alguns anos depois ele entregou outro livro: Os filhos da meia-noite. Era Salman Rushdie, eu tive sorte de encontrá-lo assim. Outra coisa que aconteceu foi que sempre tive interesse na história do Chile na década de 70. Ouvi numa feira que havia um livro de Allende que era ótimo. Achei que era uma biografia de Salvador Allende e comprei, mas no final era um romance: A casa dos espíritos, da Isabel Allende. Foi um erro de sorte.

Luiz: Na Companhia a gente tenta trabahar clássicos como atuais, e os livros novos como potenciais clássicos. Eu queria saber, é possível nos dias de hoje transformar um livro num clássico? O que mudou no método de divulgar um livro?

Deborah: Depende de como você define um clássico. É uma coisa que supera tempo e barreiras geográficas. Suponho que num clássico você procura uma sensibilidade atemporal. Alguém que descreva um período que você nunca poderia ter imaginado, de um jeito que te eleva. Você pode tentar convencer que o leitor precisa ter aquele livro, pode criar hype, mas é difícil convencer o leitor a lê-lo. Ainda mais agora, quando há cada vez mais títulos sendo publicados. Mas ao mesmo tempo, há aqueles livros que você sabe que vai querer ler de novo, e aqueles que você quer convencer todo mundo a ler.

Jonathan: Acho que há livros que são imediatamente reconhecidos e acabam virando clássicos, mas alguns só foram crescendo com o tempo. Os leitores que decidem com o tempo. Mas eu gosto da ideia de tornar clássicos em livros contemporâneos.

Annalena: Como jornalista, seu trabalho é não levar em conta o que a assessoria diz, ignorar essa tentativa de criar uma aura. Mas sobre divulgação, hoje em dia há livros sendo lançados em todos os lugares, como aqui em Paraty. E isso não é tão diferente de Dickens, que fazia grandes turnês para divulgar seu trabalho.

Liz: Acho que um editor não consegue construir um clássico. Mas você consegue trazer à tona bons livros que estavam esquecidos, e retrabalhá-los. Dar uma nova vida a eles.

Pergunta: Luiz, e qual é o seu exemplo de momento especial como leitor?

Luiz: Eu tenho tantos, vou te falar de um de não-ficção pra não ter que escolher um romancista. Um dia um de nossos autores nos ligou e disse “tenho um amigo médico que tem trabalhado em prisões há muitos anos, ele escreveu um livro e queria te mostrar”. Ele me trouxe esse livro sobre a prisão que era muito forte, mas ele tentava escrever pela voz dos prisioneiros. Achamos que era um ótimo escritor, mas não um bom livro. Ligamos e dissemos que ele ia ser um bom escritor, mas precisava reescrever como um livro de um médico, não de prisioneiros. Precisava contar como chegou à prisão, como se sentiu, não tentar imitar a voz dos presos. E foi assim que Estação Carandiru surgiu e Drauzio virou meio que um herói. O segundo livro da trilogia, sobre carceireiros, vai sair em breve, e depois ele vai lançar um livro sobre as prisões femininas.

Pergunta: Como uma pessoa totalmente desconhecida chega numa editora, quantas pessoas vão ler um original?

Jonathan: O jeito mais tradicional é procurar um agente. Nós sempre lemos os manuscritos que nos enviam, mas normalmente os textos publicados chegaram por agentes. Se parece interessante, várias pessoas da editora lêem. Mas se não parece bom, ele para na primeira pessoa.

Luiz: Pra nós é diferente porque não temos muitos agentes literários no Brasil. Eles funcionariam como filtros. O que acontece então é que nós recebemos pilhas de materiais, e é muita coisa pra ler, e às vezes nós provavelmente não prestamos tanta atenção quanto um livro mereceria. Eu acredito que um livro não deve ser pensado apenas como oportunidade de vendas, mas ele precisa se encaixar no seu catálogo, fazer sentido.

Annalena: Acho que nisso os jornais podem ajudar, porque uma pessoa nova pode ter uma coluna, e a partir dessa exposição conseguir outras oportunidades.

Pergunta: Hoje em dia há tanta tecnologia, e crianças passam tanto tempo na frente do computador. Vocês se preocupam em formar leitores?

Deborah: Acho que é muito importante. Na Inglaterra há muitas pessoas iletradas, principalmente filhos de imigrantes que não sabem inglês. Mas pra mim, ler para as crianças é o mais importante. Instigá-las, promover sua individualidade. Tornar a experiência pessoal.

Jonathan: Livros infantis são importantes, mas eu acredito que com a importância que a internet adquiriu, a pessoa precisa saber ler e escrever pra fazer qualquer coisa.

Liz: Nossa experiência com a Flipinha tem sido cada vez melhor. Há cada vez mais eventos, e as crianças participam, ficam lendo. Você só precisa dar uma oportunidade.

Luiz: O modo de ler pode mudar, mas a leitura continua. Nós somos mediadores entre leitores e escritores. O importante é pensar na permanência da leitura, não dos livros físicos.