Programação paralela: Exclusiva

20120707-170403.jpg

Convidados:

  • Annalena McAfee
  • Paulo Roberto Pires

Mediador: Paulo Werneck

Exclusiva, o primeiro romance da inglesa Annalena McAfee, criadora do suplemento literário do Guardian, toma o encontro improvável entre uma jornalista de fofocas e um veterano de guerra como ponto de partida para uma reflexão sobre as transformações ocorridas na indústria jornalística nas últimas décadas. Paulo Werneck mediará a conversa de McAfee com Paulo Roberto Pires, escritor, jornalista e editor da revista Serrote.

Horário de início: 15h

Mediador: Aqui nós vamos falar um pouco das entranhas desse mundo cultural, jornalístico e editorial. Annalena, é possível dizer que seu livro está na tradição dos livros escritos por jornalistas? Você está retratando um momento de mudança no meio editorial.

Annalena: O livro se passa em 1997, uma época crucial porque não se acreditava que a internet tinha vindo pra ficar. Mas logo ficou claro que o modelo dos jornais estava em queda.

Mediador: É bem o conflito do livro, uma repórter jovem desinformada e deslumbrada frente a outra experiente. Paulo, como você imagina um livro assim se passando aqui no Brasil?

Paulo: Aqui temos Lima Barreto, Paulo Francis, mas acho que um livro assim, satírico, poderíamos trocar os nomes e passar para cá, talvez pelos piores motivos.

Mediador: Annalena, você foi uma das especialistas em fazer jornal sobre livros, divulgação cultural. Você vê lugar para crítica de alto nível nos jornais?

Annalena: Gostaria de pensar que sim. Há leitores que gostam desde tipo de coisa, mas os jornais costumam usar um denominador comum mais baixo.

Mediador: E você, Paulo, que saiu do jornal e foi pra Serrote.

Paulo: São coisas complementares, não dá pra tratar de assuntos profundos no jornal diário. É necessário ter uma revista assim, há vários nichos.

Mediador: Você acredita que o jornal tem como papel popularizar o elitismo?

Annalena: Se isso significa levar material de qualidade ao maior número possível de pessoas, sim.

Mediador: Como foi depois de lançar o livro, seus personagens te perseguiram?

Annalena: Eu fiz meu melhor para que ninguém reconhecesse as inspirações. Foi interessante quando aconteceram as investigações dos tabloides, eu pensei “eu inventei isso!”

Mediador: Na Inglaterra, os jornais estão perdendo leitores?

Annalena: Sim, as tiragens estão caindo, os anúncios migraram para a internet. Mas com a internet também há mais acesso, tanto à trivia quanto a material de qualidade.

Mediador: Você, como observador do nosso mercado editorial, foi um garimpador de escritores. Você ajudou a apontar a relevância de Cuenca, Galera. Você continua com esse interesse?

Paulo: É o tipo de coisa que você não consegue parar de fazer. Vem do jornalismo, você quer estar ligado ao que está acontecendo a sua volta.

Mediador: Como editora de caderno cultural, você tentava fazer esse garimpo de talentos?

Annalena: É sempre excitante encontrar alguém novo que é muito bom. Encontrei duas poetisas, uma delas pra mim parecia um milagre, mas havia acabado de morrer, se chamava Dorothy Molloy. A outra é Alice Oswald. Você recebe sacolas enormes de livros e de repente encontra algo assim. É raro, mas é muito bom.

Mediador: Os jornalistas não vão mais à livraria, ficam esperando receber os livros.

Paulo: Sim, ficam refém dos assessores.

Annalena: Vou contar que eu ficava sempre de olho na vitrine de uma livraria independente lá na Inglaterra porque eles tinham muito bom gosto.

Mediador: Você passou anos como jornalista escrevendo ou começou assim que saiu?

Annalena: Eu ainda estava no jornal quando comecei a escrever. Consegui umas férias mais longas e fui viajar com meu marido. E ele sempre me lia o que havia escrito, e nesse ano eu resolvi contar uma história sobre uma jornalista de tabloide.

Mediador: Quais foram alguns dos encontros determinantes na sua carreira?

Annalena: Muitas, mas fiz uma entrevista de 4 horas com Arthur Miller, e conversei com Doris Lessing, e também tive a experiência de trabalhar com as ilhas Falkland.

Mediador: Qual foi a reação dos seus personagens, que existem, ao livro?

Paulo: Todo mundo me perguntava quem era o editor malvado do livro, que eu criei com minhas iniciais. Falei com Vila-Matas e ele perguntou se eu fiquei observando ele em Paraty, porque uma das cenas realmente havia acontecido. Eu disse que não, e ele disse que eu tinha feita um tipo de vingança pelos livros dele.

Mediador: O jornalista tem o pesadelo de ficar eternamente escrevendo as mesmas histórias. Como o jornalista literário pode sair desse ciclo?

Paulo: É cíclico realmente, como a morte do livro etc. O divertido é tenta começar novos caminhos.

Pergunta: Depois de ter trabalhado no jornal, como é se aventurar por outro estilo literário?

Annalena: O maior impacto foi sair do ritmo diário e passar para algo sem fim, em que não havia uma cobrança de ter o jornal na banca no dia seguinte. Foi um bom treino.

Paulo: O jornal te dá uma disciplina. E se você consegue escrever numa redação, consegue escrever em qualquer lugar. Mas há armadilhas, como a falta de deadline e a limitação de espaço.

Pergunta: Como você acha que será o jornalismo daqui a 10 anos na Inglaterra?

Annalena: Se eu soubesse, estaria rica. Eu gosto do jornal, mas também gosto de ler notícias na internet. Acho que vai virar um artigo de luxo, tipo queijo artesanal, e a maioria de nós lera online.

Pergunta: Você sente falta de algo do jornalismo?

Annalena: Foi um desafio, eu tinha o melhor emprego possível no meio. Sinto falta da adrenalina da redação, do trabalho em equipe.

Mediador: O jornalismo continua sendo o foco do seu trabalho?

Annalena: Eu me preocupei que só soubesse escrever sobre isso, mas por sorte eu tenho outro interesse que estou tentando desenvolver.

Annalena: Acho que muitos jovens querem virar escritores mas precisam de um salário, então vão trabalhar nos jornais e são fisgados.

Mediador: Ricardo Piglia disse em seus diários que toda forma que se torna obsoleta vira artística. É necessário que o jornalismo vire uma arte?

Annalena: Certamente eles precisam fazer análises e reportagens de qualidade porque as pessoas hoje em dia conseguem suas notícias em outros lugares.

Paulo: Há a ideia de que as pessoas vão ler notícias na internet e análises no jornal. Acho que não é isso que resolve, depende da qualidade do jornalismo.

Mediador: Que conselhos vocês dão a um jovem editor de caderno cultural? No que é preciso prestar atenção?

Annalena: Não seja condescendente com seus leitores. Mire pra cima, não pra baixo.

Paulo: Não fique tentando adivinhar o que os leitores vão achar.

Horário de término: 16h12