Encontros do leitor com o livro

Por Vanessa Ferrari

Quando comecei a mediar os primeiros clubes de leitura para os meus colegas da Companhia das Letras, a convite do Matinas Suzuki Jr., nunca tinha pensado seriamente sobre o tema. A ideia de promover esses encontros literários surgiu em uma das viagens que o Luiz fez à sede da Penguin nos Estados Unidos. Animado com a força dos clubes lá fora, achou que era o momento de começarmos a fazer o mesmo aqui. Inicialmente, achei que os clubes eram, em sua essência, apenas um convescote entre leitores entusiasmados, em que doses de uísque e pratinhos com acepipes são muito bem-vindos. Mas, à medida que os encontros aconteciam, percebi que os clubes respondiam a uma questão bem menos festiva e muito mais importante: como transformar o não leitor em leitor. A respeito disso, Michel Laub escreveu recentemente em sua coluna neste blog: “sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo”. A lógica é simples, duvido que alguém discorde; mas a sua realização, porém, está longe de um consenso.

A escola, os educadores, os pais, têm o desafio de cultivar no estudante o prazer da leitura. Acontece que literatura nem sempre é só prazer. Há dificuldades para todos os níveis de leitores (a turma do nosso clube interno que o diga, eles estão enfrentando montanhas de genialidades e estranhamentos nas páginas do Ulysses, de Joyce). O leitor veterano não se assusta quando os livros são desafiadores. Muitos, aliás, veem nisso a razão principal para ler uma obra. Mas essa desenvoltura leva tempo, até lá amargamos muitas baixas no caminho.

Se é lendo que se aprende a ler, a escola deveria se valer de um arsenal literário imenso; em vez disso, oferece uma pequena amostra do que é literatura. De olho no vestibular, o ensino médio contempla autores consagrados que passaram por um crivo de qualidade e de importância histórica, mas estes autores são uma parcela ínfima se comparados às inúmeras vozes literárias disponíveis. Se o estudante não se identificar especialmente com nenhum deles, teremos um ex-futuro leitor em formação. Por outro lado, é importante saber que tal obra pertence a esse ou aquele movimento literário, mas tal conhecimento não é exatamente uma imersão na literatura. No final das contas, o estudante lê porque tem que ler, mas o hábito não se enraíza. Foi o que mostrou a recente pesquisa do Instituto Pró-livro: quando o jovem sai da escola, a média de livros lidos, que já não é alta, despenca.

Agora vamos aos clubes de leitura. Nesses encontros não existe opinião inadequada, e quem participa não precisa ter conhecimentos teóricos. Toda a impressão sobre o livro vale, todas as possibilidades literárias também. Quadrinhos, biografias, reportagens, romances contemporâneos, ficção científica, tudo que o grupo quiser ler é bem-vindo. Ao expandir o repertório, a probabilidade do jovem cair de amores por algum autor é enorme. Além disso, as dúvidas de quem participa se legitimam porque dificilmente elas são privilégio de um único leitor, e o entendimento do livro se sofistica, porque o olhar do outro melhora o seu. Uma hora depois, quando acaba o encontro, você já é um leitor melhor.

Obviamente há várias escolas com programas de formação de leitor bem sucedidos. Muitas, inclusive, já fazem rodas de leituras com os alunos. Além disso, o país é muito grande para ser enquadrado em uma única realidade, e há diferenças imensas entre as escolas, sejam públicas ou privadas. Mas em linhas gerais eu diria: é preciso ler muito mais.

Por si só, os clubes de leitura não são a salvação da lavoura (nessa matéria nenhum esforço isolado será), mas eles têm se mostrado uma ferramenta bastante poderosa quando o assunto é formação de leitores. Quanto os nossos alunos avançariam se esses encontros fossem promovidos, uma vez por mês, em todas as escolas brasileiras? Parece uma meta gigantesca (e é mesmo), mas quem encampar essa ideia dará uma contribuição enorme para aprimorar a qualidade de ensino no país.

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Vanessa Ferrari é editora assistente da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

13 Comentários

  1. […] ler alguns textos inspiradores na internet (confira aqui, aqui e aqui), comecei a pensar como incentivar crianças, adolescentes e adultos a lerem. Tenho […]

  2. Thiago Guerra disse:

    Infelizmente a nossa cultura não veio da leitura, e também nada foi feito para reverter esse quadro. Bibliotecas defasadas, e insuficiência de estímulos para com a leitura vinda dos nossos governantes só agrava o quadro social.

  3. Marina disse:

    Vanessa gostei muito das colocações, pretendo iniciar um clube de leitura semelhante ao seu, poderíamos entrar em contato? Segue meu email: marinauliano@gmail.com

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