Palavras e cacarejos

Por Michel Laub

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Para quem cresceu na cultura televisiva dos anos 80, é visível que a internet melhorou a média dos textos. A simples prática de redigir com frequência tornou mais eficiente a comunicação. Compare as manifestações de sua timeline com uma dessas cartas de sindicato ou avisos de condomínio que chegam pelo correio, como um museu em papel de termos e formas que não existem mais: ninguém abaixo de certa idade, com o mínimo acesso à informação e que não trabalhe no STF escreve daquele jeito. Para a elite letrada, a afetação bacharelesca morreu com o modernismo do século 20. Entre um público mais amplo, com a interação virtual do 21.

Aproveitando facilidades como os corretores automáticos, a mudança também acabou com o conceito de texto bom ou ruim baseado apenas em ortografia e gramática. Ou seja, aquilo que no passado se chamava “saber escrever”. Num paralelo com a ficção, o hábito das mensagens por email, dos posts e das conversas digitais cumpre o papel dos antigos primeiros anos de um escritor, durante os quais ele saía de um nível rudimentar de prosa — despindo-se das travas e do exibicionismo típicos dessa fase — para um grau mínimo de clareza na hora de dizer o que gostaria. Mas esse é só um passo inicial. Levar a tarefa adiante com particularidade, graça e inteligência, ou com o oposto consciente disso, é outra história.

Num texto de 2010, arrisquei previsões sobre como a internet mudaria (ou não) a ficção. As coisas andam rápido, e foi o tempo de relativizar alguns dos meus próprios argumentos. Não o principal deles: a necessidade de uma linguagem autônoma, que se diferencie da torrente de vozes nas redes sociais, o cacarejo teimoso e exaustivo que torna tudo uniforme e irrelevante — expressões raras que viram clichês em dois dias, a originalidade que nasce morta pela replicação imediata e sem crédito, o infinito de opiniões que se anulam umas às outras por excesso, o barateamento de atributos como a ironia (cada vez mais sinalizada e óbvia) e o cinismo (em geral ignorante e falso).

Contraditoriamente, é num nível elementar da prosa — a escolha de uma palavra, e não de outra — que a facilidade da escrita contemporânea parece ter deixado efeitos mais nefastos. Como se o exercício disseminado e contínuo causasse mais desgaste que aprimoramento, numa velocidade muito maior que a praxe na dinâmica do idioma. O termo exato é um clássico da linguagem, e seu uso continua sendo um dos antídotos para que ela não desapareça, como vem ameaçando fazer, nos braços mornos da ideologia, da moda estética, da frouxidão e do lugar comum. Pense no que aconteceu com expressões como “fascismo”, “censura”, “polêmico” e “gênio”, entre tantas e tantas outras, e no efeito de seu uso banalizado. Se qualquer ato de um político adversário faz com que ele seja comparado a Hitler ou Stálin, os atos de Hitler e Stálin deixam de ser histórica e moralmente incomuns.

Linguagem é fim e instrumento, forma e conteúdo. Uma personagem de J.M. Coetzee diz que a marca do grande escritor é ser capaz de “deformar sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito”. Mas até para que isso ocorra é preciso ordenar a deformação, escolher a maneira como ela aparecerá na página, o que ela atacará e o que será preservado. Coetzee mesmo é um exemplo da simbiose: a carga reflexiva que sustenta livros como Desonra e A vida dos animais é construída palavra a palavra, frase a frase. É só porque tal sabedoria é forjada aos poucos, aproveitando as possibilidades de argumentação que um texto longo proporciona, e também a disposição do leitor em acompanhar as idas e vindas da prosa de maneira concentrada, em seu ritmo interno de convencimento — algo também raro hoje em dia —, que o triunfo do autor acaba sendo definitivo.

Isto é: sem vocabulário, que gera sintaxe, que gera estilo e ritmo, que geram atmosferas e poder de persuasão, as ideias que pareceram novas e brilhantes sob a roupagem formal de um texto se apequenam com facilidade. Preservar essas ideias, uma das qualidades da literatura desde sempre, passa por salvar o elemento básico que as constitui. Uma ecologia tão urgente quanto a de animais, plantas, recursos e condições climáticas: numa era soterrada pela onipresença da escrita, é preciso reaprender a chamar as coisas pelo nome.

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos publicados pela Companhia das Letras. O mais recente, Diário da queda, foi lançado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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