Satrapi entrevistada

Por Érico Assis

Marjane Satrapi abandonou os quadrinhos. Não para sempre, pois Satrapi é imprevisível. Adaptar Persépolis para longa-metragem animado — e por ele ganhar prêmios na França, no Canadá, no Brasil — a puxou para o cinema. Frango com ameixas, outra de suas HQs, virou filme com atores de carne e osso no ano passado. Ela diz que pode voltar aos quadrinhos, mas assinou para dirigir um thriller hollywoodiano, tem planos de um terceiro filme sobre o Irã e também diz que quer voltar à pintura. Satrapi é imprevisível.

Além dos filmes e das HQs, o jeito satrapiano de ser também rende lindas entrevistas. Por ocasião do recente lançamento de Frango com ameixas nos EUA, ela passou por uma bateria de conversas com veículos do Grande Satã. E nunca fala só sobre o filme. Fala sobre o Irã — “o que eu sei é que posso ir quando quiser, mas não sei se vou poder sair de lá. O problema é esse. Por isso não vou. Faz 12 anos que não vou” —, sobre o processo de criação, sobre colaborar e sobre desenhar. São leituras tão essenciais quanto Persépolis, Frango com ameixas e Bordados. Seguem trechos:

“As coisas que eu faço hoje são as mesmas que eu fazia quando criança. Quando eu era menor, eu ficava ou desenhando ou juntando meus amiguinhos da rua para montar espetáculos — passava o tempo inteiro criando! A diferença é que agora eu sei fazer melhor e me dão dinheiro.” (À Mother Jones.)

“Sendo bem sincera, acho que não precisamos sofrer para poder criar. Se você sofrer demais, a tendência é você parar no hospício. Ao mesmo tempo, tenho que dizer que às vezes — raramente, mas às vezes — acontece de eu acordar de manhã, me olhar no espelho e me achar linda. O sol brilha, eu fico muito, muito alegre. Nesses dias, é impossível eu ir para o estúdio desenhar ou escrever. Nesses dias, eu saio, compro um vestido, ligo para os amigos, tomo piña colada, não crio nada. Se fôssemos felizes, seríamos que nem gatos — só lamber, comer e dormir. Provavelmente seríamos muito mais felizes. Mas aí também seríamos gatos.” (À NPR.)

“Para alguém como eu que adora desenhar e adora escrever e não sabe escolher entre uma coisa ou outra, o quadrinho é a melhor opção. Além disso eu tenho um pouco de vergonha de falar que, por exemplo, fiquei muito triste, ou de descrever por que eu estava tão sentimental. É vergonhoso. Mas posso me desenhar assim e já digo tudo. Em palavras seria demais, não conseguiria. Acho que há coisas que só conseguimos com os desenhos. O desenho é a primeira linguagem do ser humano, antes da escrita, antes mesmo da fala. Antes das palavras, já havia seres humanos desenhando. É uma mídia que encaixou bem comigo, mas também é um trabalho muito solitário, e sou uma filha única que sempre foi solitária. Descobri a alegria de colaboração com outros ao fazer cinema, e acho muito divertido fazer cinema, e no momento é isso que eu quero. Talvez um dia eu volte aos quadrinhos.” (À PBS, que tem entrevista em vídeo.)

“Eu via os quadrinhos como uma coisa de monge, gente deprimida que ficava obsessiva. Percebi que tinha uma parte monge e obsessiva, mas foi coincidência. Nunca faço planos na minha vida tipo ‘Ah, vou fazer isso porque vai ser bom para a carreira.’ Mas assim que começo a desenhar, me sinto melhor. Para mim, desenhar é questão de vida ou morte. Todo dia eu desenho, escrevo, faço alguma coisa.” (À Fast Company.)

“Sempre digo que, quando se faz trabalho artístico, você não tem a segurança de um trabalho comum, tipo agente de seguros ou o que for. Não tenho salário mensal, não tenho pensão, tem momentos em que ganho muito dinheiro e momentos em que não ganho dinheiro algum. Então, se não tenho a segurança do trabalho, pelo menos tenho a liberdade de fazer o que eu quiser.” (Idem.)

Sobre dividir a direção com o colega Vincent Paronnaud: “Eu fico com os atores e ele com a fotografia, e na maior parte do tempo está tudo bem. Mas aí às vezes eu não concordo com um enquadramento ou ele não concorda com a direção de atuação, e a gente começa a berrar um com o outro e a coisa fica feia. Aí ficamos tão irritados que rogamos a Deus para que o outro morra. Então eu vou dormir, vem o dia seguinte e voltamos a ser amigos.” (À NPR.)

Sobre o Frango com ameixas filme: “Quando faço um filme desses, eu me digo: as pessoas vão assistir e vão dizer que [o Irã] é um país que só vemos em termos de barba, véu e bomba nuclear. Naquele mesmo país, um homem morreu pelo amor de uma mulher. Se entenderem isso, cumpri meu papel. É tudo que posso fazer.” (Idem.)

Tem outras ótimas, belíssimas entrevistas com Satrapi pela internet. Agora é torcer por duas coisas: que Frango com ameixas estreie no Brasil e que Satrapi seja convidada, quem sabe, de uma próxima Flip. Vai ser divertido.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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4 Comentários

  1. aline naomi disse:

    Gostei do post e também gosto muito do trabalho da Marjane Satrapi.
    Como para a Laura Moura, “Persépolis” foi a primeira HQ que eu li e gostei (exceto gibis da “Turma da Mônica” quando criança), e, por causa da Marjane, descobri que quadrinhos não precisavam ser só de super-heróis, podia ser algo muito mais poético e próximo da realidade de seres humanos sem superpoderes. Por causa da Marjane, acabei lendo várias outras HQs e sou apaixonada pelas HQs autorais.

  2. […] Talk show: Satrapi entrevistada. […]

  3. Laura Moura disse:

    Adoro a Sartrapi. Foi um dos primeiros quadrinhos que li, primeiro de muitos. E a gente sabe que os primeiros em geral são responsáveis pelos muitos.

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