Meu escritor brasileiro favorito

Por Juan Pablo Villalobos


Uma das coisas mais chatas de morar no estrangeiro ou, melhor dito, de ser um estrangeiro morando no Brasil, é que só por esse detalhe ridículo as pessoas acham que eu tenho opiniões interessantes ou diferentes, que parecem ter um valor especial. O assunto é duplamente chato. Primeiro, porque é cansativo. Olha: ser um estrangeiro no Brasil é um trabalho full time. Segundo, porque a maioria das vezes as consultas não são sobre meu lugar de origem — o que demonstraria um interesse por conhecer minha vida e minha realidade —, senão sobre o que poderíamos chamar de realidade nacional. Qual cachaça você gosta? Já experimentou o virado de feijão? Você sabe que o Lula não é o que os estrangeiros acreditam, né? Como é possível que você não seja corintiano?

Isso não é chato em essência, é chato porque eu também gostaria de receber consultas sobre o melhor tequila (por certo, “tequila” é masculino, não feminino), regiões de vinho no México, minha opinião sobre o presidente Calderón (péssima, by the way) ou meu time de futebol, que aliás é o melhor do mundo, apesar de só ter sido campeão uma vez, em 1951. (É uma coisa muito esquisita e digna de admiração entender como o Atlas pode ser mesmo o melhor time do mundo. Mas juro que é.)

Estou virando um verificador e constatador da realidade brasileira.

Não pretendo fazer sociologia barata para analisar o fenômeno, que deve ter uma explicação (a mais simples seria que eu esteja errado e tal fenômeno não exista, que eu atue de uma maneira que provoca exclusivamente conversas sobre o Brasil).

A coisa só piora falando de literatura. Eu sei de cor uma lista de autores mexicanos jovens para responder em entrevistas, festivais, bienais etc. Até hoje ninguém perguntou. (Vou aproveitar para deixar aqui, como dica e entre parênteses: Guadalupe Nettel, Valeria Luiselli, Daniela Tarazona, Yuri Herrera, Julián Herbert, Antonio Ortuño, Emiliano Monge). Eu tenho preparadas duas frases contundentes e escandalosas que não consigo usar: “O melhor escritor mexicano dos últimos tempos não é Carlos Fuentes, fala sério, é Daniel Sada” e “É impossível entender o rumo da literatura em língua espanhola sem ler no mínimo 20 livros de César Aira”. O que o pessoal quer saber é quais escritores brasileiros já li e qual é meu escritor brasileiro favorito.

Ao princípio, assim que cheguei para morar no Brasil, minha resposta protocolar era: “estou apenas começando a conhecer a literatura brasileira etc.” E funcionava. Mas logo deixou de ser uma boa desculpa para se transformar em um sinal suspeito de desprezo pela literatura do país. Então tive que começar a ensaiar respostas.

A primeira, que continuo e continuarei usando, é dizer que Machado de Assis é um gênio e um dos autores fundamentais da história da literatura universal, com perdão dos nacionalistas. Mas ninguém gosta dessa resposta, parece ser muito óbvia, de livro didático. De fato, qualquer resposta sobre autores mortos, enterrados e sacralizados não interessa: Lima Barreto, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice…

Depois tentei uma estratégia que achei magistral, para ficar muito inteligente, falando só um livro e calando a boca: Lavoura arcaica. Nesses casos eu percebia um clima de tensão na conversa, como se algum dos dois — eu ou meu interlocutor — na verdade não tivesse lido Raduan Nassar.

A menção de alguns escritores ou livros que eu acho magníficos provoca reações de imutabilidade que só posso interpretar como decepção. João Gilberto Noll, por exemplo. Ou o maravilhoso livro de Rodrigo de Souza Leão, Todos os cachorros são azuis.

E a coisa piora ainda mais ao falar de autores jovens, um contingente onde, como é normal, não há unanimidade (além da pergunta da moda: o que você acha da lista da Granta?). Aqui todas as respostas estão sob suspeita. Se eu digo Michel Laub ou Joca Reiners Terron, olham para mim imaginando que digo isso para puxar o saco dos colegas da Companhia das Letras. Se eu digo que Rodrigo Lacerda é um grandíssimo escritor, como o digo com a ênfase hiperbólica equivalente a meu gosto, acham que ele é meu amigo.

Devo confessar que fico constrangido. Acho que é urgente a criação de um manual de bom comportamento literário para estrangeiros.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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