Quem aí lê quadrinhos? (1)

Por Érico Assis

Paixão pelos quadrinhos

O Pedro diz que “Palestina, do Joe Sacco, me abriu a mente para o fato de que não existem somente HQs de super-herói e também me fez refletir como reclamamos da patética vidinha ocidental”. Ele lia muito Tio Patinhas quando era criança ― “nunca gostei muito do Maurício de Sousa; apesar de respeitá-lo, achava as histórias muito simplórias” ―, teve a fase de heróis e aí passou uma década longe dos gibis. Voltou quando descobriu Sacco, Robert Crumb, Lourenço Mutarelli, Moon e Bá.

Por vias tortas, ou nem tanto, recentemente leu Jane Austen por conta de Orgulho e preconceito e zumbis. Prefere cinema não-norte-americano. “Não sou um cara que compra as coisas no lançamento. Espero dar uma reduzida no preço, ou pegar uma boa promoção. Se não fosse assim, não conseguiria pegar tudo que eu gostaria.” Pedro tem 33 anos e trabalha no ramo hoteleiro em São Sebastião, litoral de São Paulo.

O Arthur, que gentilmente sempre frequenta a seção de comentários aqui do blog, se formou em Direito com um TCC sobre aspectos jurídicos de Desventuras em Série, de Lemony Snicket. Entorna literatura ― Georges Perec, Bernardo Carvalho, Jonathan Safran Foer, Jennifer Egan, Michael Cunningham, qualquer tradução do Caetano Galindo ― e escreve sobre tudo que lê com desprendimento invejável. Foi atacado pelos quadrinhos na livraria.

“Me marcaram muito, quase todos na mesma época, o Persépolis, o Maus, o Umbigo sem fundo e o Retalhos. Aquilo quase não parecia gibi, no sentido de que a história era enorme, desenvolvida por páginas e mais páginas, sem nenhum prejuízo de metáforas, elipses, sutilezas, que só expandiam a leitura. Questão de fôlego mesmo.” Tentou os gibis de super-heróis mais recentes. Não desceram; continua nas livrarias. “Curto os tijolões estilo graphic novel: Habibi, Pagando por sexo.” Arthur tem 25 anos e mora em Curitiba, onde faz mestrado em Estudos Literários.

A Verônica adora biografias ― “atualmente estou me aventurando no Anjo pornográfico, mas a autobiografia do Chaplin está na fila” ―, que reveza com Kafka e Dostoiévski “e russos em geral”. Também teve a infância de Turma da Mônica, X-Men e outras coisas. “Virei fã mesmo no ano passado depois de ler Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, do Mutarelli. Que não é exatamente um quadrinho, mas foi o Lourenço que me abriu as portas pra esse universo. Depois dele veio o Will Eisner, o Art Spiegelman, o Joe Sacco, além de brasileiros como os gêmeos e o Rafael Coutinho.”

Verônica está seguindo recomendações dos amigos. “Mas tem uma coisa que me intriga no mercado que é o baixo número de quadrinistas mulheres. Eu queria ler mais quadrinistas mulheres. Por enquanto só li a Marjane Satrapi, que eu adoro.” Ela tem 22 anos e forma-se em Jornalismo no final deste ano.

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Numa das minhas primeiras colunas aqui, falei de uma espécie de confraria que existe entre leitores de quadrinhos, envolvendo convenções fechadas e tatuagens. O Pedro Franz ― cara que faz e que pensa quadrinhos como poucos ― retrucou: disse que meu texto tomava uma parte como o todo e confundia o leitor de quadrinhos com um tipo de leitor de quadrinhos, e de como era perigoso usar estas palavras.

O Pedro estava certo. Felizmente. Se em algum momento existiu esta retração dos quadrinhos a um gueto que negava acesso a quem não sabia distinguir Marvel e DC, felizmente estas fronteiras estão cada vez menos aparentes. Você não precisa frequentar cultos para ir ao cinema, ouvir música ou ler literatura. Ler uma história em quadrinhos, igualmente, não deveria ser como entrar em festa estranha com gente esquisita.

Esta série de posts, portanto, quer saber mais do leitorado que não se encaixa no tipo de leitor de quadrinhos que eu delineei lá naquela coluna. Não há nenhum propósito IBGEístico, muito menos mercadológico. Quero histórias, como a do cara que emprestou Retalhos para todo o condomínio (vi nos comentários de uma coluna recente), dos que começaram por Macanudo e chegaram ao Shaun Tan, do pessoal que acompanhava os livros do Daniel Galera e foi parar na Cachalote, dos que nem repararam que Pagando por sexo ou Fun Home tinham desenhinhos. Como as do Pedro, do Arthur e da Verônica.

Você tem uma história recente de descoberta dos quadrinhos? Topa contar? Então me mande um e-mail (ericoassis@gmail.com) pra gente conversar.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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12 Comentários

  1. […] mora em Granja Viana, na Grande São Paulo, cercada pela pista de kart. Quando eu perguntei “quem aí lê quadrinhos?“, ela explicou como descobriu Persépolis, e daí em […]

  2. […] respondeu minha coluna “Quem aí lê quadrinhos?” com este […]

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