Conte-me sobre sua família

Por Carol Bensimon

Comprei Are you my mother?, a mais recente graphic novel de Alison Bechdel, em Mendocino, uma pequena cidade litorânea do norte da Califórnia. Foi lá também que eu experimentei uma camiseta d’O grande Gatsby em uma despensa apertada, quando foi preciso escalar o vaso com certo receio de quebrar alguma coisa para então ter uma ideia do caimento. Eu levei a camiseta. E a graphic novel, como já disse. Naquele momento, eu não sabia sequer que Alison tinha um novo livro na praça, tudo o que eu sabia na verdade é que eu havia gostado muito de Fun Home, demais de Fun Home, tão bem construído que só podia ser o produto que sai das mãos de uma obsessiva-compulsiva, ligando pontinhos como naqueles desenhos em que só no final temos uma imagem clara, embora os pontos estivessem ali desde o começo, mas são as ligações que dão sentido ao todo, esse todo que em Fun Home é um retrato um bocado complexo e cruel do pai da própria autora. Ele era, entre outras coisas, um bissexual no armário.

Tudo bem. Primeiro o pai, agora a mãe. Acho que entendi, Alison (a sua foto na orelha da sobrecapa, aquele meio sorriso de moleque, você parece um moleque, Alison, mas você é mulher e tem 52 anos, eu fico um pouco intrigada com isso).

Passaram-se alguns meses até que eu começasse a ler Are you my mother?.

Nesse livro, como o nome sugere, o pai e os irmãos de Alison — sim, é novamente um memoir — se apagam para que a figura materna brilhe e vá para o centro do quadro. A relação entre mãe e filha é, a partir daí, destrinchada aos pedacinhos, num vai-e-volta temporal alucinante, enquanto à história se misturam as consultas de Alison a psicanalistas, fragmentos de sonhos, problemas conjugais, textos de Virginia Woolf e um sem número de referências a obras da psicanálise (na minha opinião, o excesso de ideias psicanalíticas enfraquece o livro, mas não cabe eu me ater agora a esse ponto; a graphic novel é, de qualquer forma, primorosa).

Durante a leitura, ficamos pensando no problema(?) ético(?) “vida real alimentando a arte”. É que Alison Bechdel leva isso às últimas consequências, transformando-o inclusive em um dos próprios núcleos dramáticos da obra: acompanhamos as reações da mãe, que teve a vida privada exposta, diante da criação e publicação de Fun Home.

Meu Deus, Alison, ela deve estar espumando de raiva e decepção com o seu novo livro! É inevitável pensar esse tipo de coisa, sobretudo quando você vê mãe e filha falando ao telefone, e a filha transcrevendo a conversa toda em um editor de texto. Ou quando Alison chora ao mesmo tempo que filma o próprio choro, certamente na intenção de guardar uma referência visual daquele episódio dramático. Mas será um drama real se, no exato momento em que ele acontece, você já pensa em fazê-lo matéria bruta para o seu livro? E, de qualquer maneira, é correto expor qualquer pessoa em nome da arte?

Preciso confessar que, nas muitas vezes em que pensei na Alison de carne e osso e na Mãe de carne e osso, eu me policiava em seguida por estar “saindo” do livro, passando da literatura à vida real, o que é um impulso tão explicável quanto condenável (será que isso aconteceu desse jeito?, você pensa ao ler o livro de fulano. Será que o pai do escritor X é mesmo um canalha? Será que a escritora Y passou por essa mesma desilusão amorosa?) No caso de Are you my mother?, no entanto, como não fazer conjecturas a respeito das consequências desse livro na relação mãe e filha e outros que tais? Eu diria mais: Alison está nos pedindo isso o tempo todo! O livro é a realidade. Ai,  está ficando confuso. Acho que eu estou confusa. O que é um bom sinal.

Em todo o caso, eu diria a Alison: adorei o seu livro, com todas as minhas forças. Mas eu não gostaria de ser a sua mãe nesse momento.

[Are you my mother? será publicado pela Quadrinhos na Cia. no 1º semestre de 2013.]

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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11 Comentários

  1. […] Bensimon já escreveu, neste mesmo blog, sobre o “problema (?) ético (?)” (interrogações dela) de Alison ao retratar a mãe, Helen. […]

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