Das coisas encontradas dentro de livros

Por Vanessa Barbara

Numa sombria tarde de verão, perdi meu Bilhete Único — esse mítico cartão magnético que nos permite girar catracas de metrô sem dificuldade e tomar quantos ônibus nos parecerem adequados, no máximo de quatro, num período de até três horas. Procurei vagamente entre bolsas, mochilas e pertences de mesa, mas o vazio existencial que me surpreendeu naquela tarde não deixava dúvidas: meu Bilhete Único havia partido. Assim como Graham Chapman e o papagaio do Monty Python, era um ex-bilhete. Cessara de existir. Bateu as botas. Foi puxar margaridas pela raiz.

Tenho um modesto, porém representativo, histórico de objetos perdidos, cuja mais recente listagem vai a seguir:

– uma toalhinha azul de rosto, num acampamento em 1993;
– uma minipasta de dente sabor hortelã, durante uma viagem rodoviária em 2001;
– uma lente de contato do olho esquerdo, na pia do banheiro, em 2009;
– um par de óculos escuros na Praia do Forte, em 2010;
– a chave de casa, que encontrei semanas depois dentro da cestinha da bicicleta.

(Como se pode ver, nada tão significativo quanto um Bilhete Único.)

Pois bem: confusa e de coração partido, dirigi-me a um posto da SPTrans, onde fui consolada por estranhos que me orientaram a pagar uma taxa de 20 reais para reaver os créditos contidos no meu antigo amigo de plástico. Assim o fiz, e dentro de uma semana ganhei novo bilhete. Dois meses depois, encontrei o fatídico cartão enfiado dentro de Freud, a biografia de Peter Gay publicada pela Companhia das Letras.

Não discutirei aqui as interpretações subconscientes da minha perda. Basta supor que o referido livro se encontrava em minha mochila quando o cartão deslizou por entre as páginas. Devolvido à estante, o volume passou dois meses ocultando semelhante tesouro, e ficaria mais tempo se não fosse casualmente consultado a respeito de qualquer assunto. Ou desempoeirado.

* * * * *

Dias atrás, o leitor Roberto Bencz Jr. escreveu para informar que encontrou seu crachá da empresa perdido há semanas dentro de O albatroz azul, do João Ubaldo Ribeiro. “Livros são predadores de cartões, crachás etc. Não dá para deixar os dois no mesmo compartimento. Outro dia foi um ímã de geladeira do disk-água alemão cinco estrelas.”

No interior das minhas enciclopédias, descubro folhas secas que alguém guardou na década de 80. Dentro do Dicionário ilustrado da Língua Portuguesa, da Abril Cultural, achei duas violetas, três heras e outras plantas vetustas — estavam junto ao verbete “inhenho”. Nos outros livros, encontro recibos, listas, lembretes, endereços, horários de consultas médicas, notas fiscais, cartas e páginas soltas de outros títulos. Também resgato cédulas de cruzados novos, canhotos de cheques e comprovantes de pagamento de aulas de francês tomadas em 2004, há tanto esquecidas.

Numa descompromissada expedição ao miolo de livros antigos, encontrei o seguinte:

– Um cartão-postal (foto acima) endereçado à minha tia-avó América de Assunção Pinto, de 12 de julho de 1959. “À estimada companheira de lutas sindicais, envio [este postal] como recordação de meu curso no colégio St. John’s, esperando que a continuidade de seus trabalhos arregimente o maior número de companheiras telefonistas em torno de nosso sindicato, para melhoria e defesa das leis de proteção da mulher que trabalha.” Meu queixo caiu. Todo respeito à tia América e seu desconhecido passado militante.

– Num volume de poesias do Ferreira Gullar, o folheto promocional de um espetáculo de mímica ocorrido em 10 de abril de 1988.

– Dentro de um romance do Hemingway, uma lista de personagens de um policial da Donna Leon: Guido Brunneti, Rizzardi (médico-legista), Patta (vice-questore), Vianello, Ruffolo (Peppino) e Concetta.

– Na página 110 de As aventuras de Huckleberry Finn, um cartão do filme de basquete Blue Chips, com o Nick Nolte, que eu nunca assisti.

– Em 20 mil léguas submarinas, um recibo de Big Mac, Coca-Cola média e molho caipira consumidos no dia 7 de janeiro de 2002, na rodoviária de Resende.

– Num livro do Flaubert, uma passagem rodoviária da EMTU para Guarulhos, de 28 de dezembro de 2005 às 9h35.

– Dentro de um volume da Barsa, o canhoto: “Seção Acabamento. Chapa 300. Em caso de reclamação, pedimos devolver êste bilhete. Companhia Melhoramentos de São Paulo”.

– Retângulo de papel em branco dentro de um livro do Platão.

– Cartão-postal com a ilustração de um santo barbudo com uma espada na mão, passando por cima de uma multidão de feridos. Em Diálogos, de Platão.

– Dentro de um livro de obras-primas de contos de terror, recibo de compra do volume As forças do bem na Livraria Freitas Bastos, a 18 cruzeiros, em 11 de novembro de 1974. A obra foi ditada pelo espírito do irmão Thomé, o Apóstolo do Senhor, para o senhor Diamantino Coelho Fernandes.

– Um comprovante de envio de fax do dia 19 de julho de 2007 dentro do tomo 8 da coleção O mundo pitoresco.

– Uma antiga carta datilografada da Biblioteca de Seleções, endereçada aos padres franciscanos da Igreja Nossa Senhora da Conceição, dizendo que, “por motivos alheios à nossa vontade, não nos foi possível enviar o cupom numerado do concurso Seleções da Sorte no Natal. […] Guarde cuidadosamente esta carta, pois a posse da mesma tem, para nós, o mesmo valôr que o cupom”.

– Na p. 66 de A máquina do tempo, de H.G. Wells, um recibo de lanche consumido em 17 de abril de 2064.

(Brincadeira.)

* * * * *

Vanessa Barbara e Fido Nesti autografam a graphic novel A máquina de Goldberg em São Paulo:
Sábado, 10 de novembro, das 16h às 19h30
Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura
Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional

* * * * *

Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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16 Comentários

  1. SLeo disse:

    Delicioso. Vou imprimir e guardar em algum livro grande aqui de casa.
    E viva tia América Pinto!

  2. Tallita disse:

    O bacana disso tudo, além de reencontrar o não lembrávamos de haver perdido é fazer entre os livros (tipo/autor) e os achados (esses que são esquecidos sem querer). Podem dizer algo sobre aquele momento. Ainda dá mais história isso aí.
    Adorei o texto.
    =*

  3. Rebecca Lobo disse:

    Meu irmão caçula nasceu em 1993, num acampamento. Talvez ele seja sua toalhinha azul de rosto perdida. Podemos marcar local/hora para eu devolvê-lo para você.

    Grata, Rebecca.

  4. Marcelo disse:

    Sabe, Vanessa. Sou Marcelo. Um cara chato que não costuma gostar de quase nada do que ouve, lê, sente, apalpa e diz por aí. Mas gostei de você, que além de esperta é uma menina bonita. Tenho 40 mas corpinho de 30. Nunca botei fé na geraçao que veio depois da minha. Gente criada por Xuxa. Sempre achei que viriam a ser poposudas, marias-chuteira, integrantes de Big Brother,… coisas desse tipo. Mas vejo que me equivoquei. Obrigado, menina bonita. Continue jogando duro. Beijo.

  5. Ontem eu achei o resultado de um teste de alergia com resultado inconclusivo dentro de “Ana Karenina”. Pela data, dá pra saber quando foi o último dia em que tentei ler esse livro sem sucesso. Aqueles nomes russos sempre me confundem.

  6. Raíssa Abreu disse:

    Dentro de um exemplar de “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, comprado no Sebinho, em Brasília, achei uma espécie de carta de amor, que na verdade não era uma carta de amor, mas talvez um exercício de texto (é fake demais, com coisas do tipo “seu cabelo é muito olhos”, além de supostamente ter sido escrita em 1960, num papel branquinho e sem o menor sinal de passeio de traças).
    Mas já me aconteceu coisa mais emocionante. Uma vez, comprei um velho caderno de receitas numa loja de tranqueiras do Edifício Maleta, em BH. Achei nele uma cartinha – essa sim de meados da década de 60 – escrita pelo filho da dona do caderno.
    Como ele assinava com o nome completo, consegui localizar o autor da carta – hoje médico, da idade dos meus pais – e devolver o caderno de receitas pra família. Infelizmente, a matriarca já faleceu. Mas, graças ao poder das brochuras de engolir vestígios, seus quitutes vão ficar com os seus.

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