Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano W. Galindo

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299 páginas. Tempos difíceis.

Muitos temas pela frente, vários outros aparecendo nos comentários aqui no blog. Mas vão ter que esperar. Hoje quero falar de segundos, momento a momento, de dor, e Infinite Jest.

* * * * *

Eu já gastei algum dinheiro com livros de e sobre DFW, especialmente (ainda que nem de longe o que se paga hoje) com uma prova assinada de Infinite Jest (com ligeiras diferenças em relação ao texto da primeira edição).

Mas nem tudo eu comprei. Eu li o romance, pra começo de conversa, num volume que foi a minha mulher, sempre ela, que me deu.

Um outro eu ganhei num concurso. O belo livrinho Although of course you end up becoming yourself (algo como Se bem que é claro que você acaba virando você mesmo), que reelabora a longa entrevista e o longo convívio do repórter David Lipsky com Wallace em 1996, ano da publicação de Infinite Jest.

Porque aí tem um site, né? Que todo wallaceano (!) que se preza conhece. Se chama the howling fantods (mais sobre isso em breve) e é gerenciado há mais de uma década por Nick Maniatis, que virou uma espécie de padroeiro online. E num dado momento, quando o livro saiu, ele escolheu fazer um concurso de “contos” pra dar cópias do livro. E eu ganhei uma.

Com um “relato” de uma crise renal. Verdadeira. Eu vivo formando pedra.

Uma narrativa do quanto um trecho do livro me ajudou durante a tal crise. Um trecho que diz que nem um único momento individual é em si próprio e por si próprio insuportável.

Um manual de enfrentar dificuldades.

* * * * *

A mãe do Maniatis morreu essa semana. Ele, curiosamente, colocou exatamente aquele mesmo fragmento no site, como uma espécie de tributo (vai ver foi por essa afinidade que ele gostou do meu texto lá atrás…).

* * * * *

Infinite Jest é um romance estranho. Eu estava falando com um aluno ainda essa semana. É um livro que corre muitos riscos. E não só do jeito chique e cômodo de “correr riscos” que é comum às “vanguardas” que contam com aceitação automática das suas panelinhas. Risco MESMO.

De parecer feio.

De parecer velho.

De parecer bobo.

De parecer autoajuda. (Uiuiui)

De ser essas coisas todas ao mesmo tempo em que é novo, lindo, inteligentíssimo e profundo.

Infinite Jest é um livro que leva quase todo leitor que vai até o fim a reconhecer que aprendeu coisas ali, sobre a vida mesmo.

Coisas tipo filosóficas. Autoajúdicas…?

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São 20h02 do dia 16/10/12 (ainda vai demorar pra Diana publicar). Eu passei a tarde no hospital.

A minha mãe está bem doente.

(São 10h19 de 23/10/12, e o mais grave passou.)

Fiquei olhando pra ela e pensando no Stephen Dedalus do Ulysses. Fiquei ali pensando como uma poltrona parecia desenhada pelo Chris Ware. Fiquei ali lembrando que nem um único momento…

Porque literatura vicia. Estraga a gente.

Ou não.

Mas nesse meio tempo morreu a avó do André. E eu fico aqui querendo que ele lembre também. Que a literatura ajude também. Que, como o Ulysses, Infinite Jest seja sempre mais que “um romance” que nós vamos lançar…

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

15 Comentários

  1. Diana (admin) disse:

    Rogerio, Rodrigo: O lançamento de “Infinite Jest” está previsto para 2014, mas ainda não sabemos em qual mês será. Aliás, a página de Futuros Lançamentos está atualizada: http://www.blogdacompanhia.com.br/futuroslancamentos/

  2. rogerio marcks disse:

    I. Jest será o livro do ano. A Via poderia nos dizer quando o lançará? Por favor.

  3. Rodrigo disse:

    Caro Sr. Galindo, todos não leitores brasileiros admiramos seu trabalho como tradutor. Estamos ansiosos pelo lançamentos de mais este clássico contemporâneo vertido para o português. Para quando esta previsto o lançamento de Infinite Jest?

  4. Victor Hugo Vieira disse:

    Comentando apenas para expressar meu amor pelo comentário acima. :))

  5. Beatriz disse:

    Tendo em vista a função de um livro no mundo: qual deles não é autoajuda? ;)

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