Jabuti, o retorno

Por Luiz Schwarcz


Hoje não seria meu dia aqui no blog, mas decidi não esperar a próxima quinta-feira para dar minha opinião sobre mais um imbróglio envolvendo o outrora prestigioso prêmio literário — o Jabuti.

Quando da infeliz polêmica sobre as regras de premiação, que há muitos anos favorecem o prêmio da classe editorial sobre a votação dos críticos, manifestei-me dizendo que não ficava bem contestar regras estabelecidas previamente à inscrição, de maneira deselegante com relação aos escritores envolvidos. Além disso disse que, para que uma premiação da crítica fosse corretamente instituída, seria fundamental investir na constituição do júri, escolhendo corretamente seus membros, dando condições aos jurados, pagando bem esse trabalho fundamental, e gastando menos no show de premiação, que consome uma parte significativa dos recursos do Jabuti. As regras foram mudadas sem que outros editores fossem ouvidos (do que sei, apenas a editora que questionava os critérios do Jabuti teve esse privilégio), e escritores que nem pedem que seus livros sejam inscritos no prêmio acabaram sendo atacados e julgados publicamente, com o suporte da absoluta falta de tato da Câmara Brasileira do Livro e dos responsáveis pelo prêmio.

O que ocorreu nesta edição do prêmio nada mais é do que a consequência de um problema antigo. O jurado C, ao manipular a votação de forma acintosa, desrespeitando escritores com notas vergonhosas, acabou prestando um serviço ao prêmio e ao público. Além da discussão sobre a validade da regra, quando princípios tão claros de uma votação literária são violados, falta discutir as condições, a qualidade e a quantidade de jurados, e os critérios para evitar fraudes ou manipulação, cuidados que qualquer bom prêmio tem que ter.

Quando da divulgação da lista dos finalistas deste ano, notamos a falta, entre os dez indicados, do livro Diário da queda, de Michel Laub, que frequentou praticamente todas as listas de finalistas dos prêmios literários importantes do país. Sem que tivéssemos nos manifestado, surgiu certa reação espontânea nas redes sociais. Não cabe à Companhia investigar o que de fato ocorreu, ainda mais com o meu desânimo após a condução indelicada das polêmicas anteriores.

Hoje sugiro aos responsáveis pelo Jabuti que divulguem abertamente quais são os membros do júri, como são escolhidos, quantos livros recebem para leitura e em que condições trabalham.

E que pensem que, se querem de fato recuperar o prestígio perdido, é preciso mudar completamente o conceito e os procedimentos vigentes, após o ocorrido com Chico Buarque no ano retrasado e agora com Ana Maria Machado e os outros inscritos este ano. Os escritores não se dedicam à literatura para serem desrespeitados publicamente pelos jurados, pela CBL, e por quem simplesmente se julgar neste direito.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

19 Comentários

  1. Alfredo Mendonça disse:

    Penso que a obrigatoriedade de o jurado apresentar sumariamente justificativas para cada nota dada a cada livro avaliado poderia atenuar discrepâncias de notas em diferentes fases do concurso. A divulgação dos nomes dos jurados, notas e justificativas talvez produza um efeito inibidor no jurado manipulador.

  2. valter ferraz disse:

    Prêmios literários, para quê mesmo?
    Todo o ano temos notícias de que fulano foi o primeiro colocado, sicrano ganhou tais e tais prêmios. Isso resulta em melhoria na literatura que se faz?
    Os escritores agraciados passam mais tempo viajando e comparecendo a eventos que escrevendo. Deveriam receber prêmio de turismo literário.

  3. José Eduardo disse:

    Diziam que Jabuti não sobe em árvore…
    De resto, who cares?
    Alguém aí se deu ao trabalho de conferir a estampa do tal jurado C, cujo nome virou segredo de Polichinelo?
    Se for mesmo este “crítico rigoroso” de suspensórios, que se orgulha de elogios do farol Olavo de Carvalho, o Prêmio Jabuti vai virar Prêmio Abacaxi, aquele do Chacrinha.

  4. Nina disse:

    O Jabuti já não é mais uma premiação confiável – uma pena, tendo em vista que até então é a mais importante do país, no quesito literário. Tenho só vinte anos e, anterior a esse problema com a obra de Ana Maria Machado, só me recordo da polêmica do Chico Buarque. Difícil entender. Essa premiação poderia simplesmente não mais existir. Seria mais justo com todos. Livros são livros – e são feitos para agradar quem os queira ler e goste deles. Algo tido como “melhor livro” é muito relativo, muito pessoal. E seres humanos erram. E favorecem outros seres. Logo, já não é mais possível confiar nos requisitos do Jabuti. Tampouco em seus jurados.
    Abraços.

  5. […] Após o serviço de utilidade pública, vamos falar sobre os sete dias que abalaram o mundo (literário [brasileiro]). E nem foi um abalo sísmico tão forte, afinal todo mundo sabia que o Jabuti seria anunciado. A editora Objetiva não deixou por menos e exigiu explicações sobre nota zero para o livro de Ana Maria Machado. Dizem que o culpado de toda a tramóia por trás do prêmio é o Jurado C, e a Folha revelou a identidade do Jurado, até então guardada. “O bichinho carrega nas costas mais do que deveria”, diz curador do Jabuti. Para finalizar, Luiz Schwarcz falou um pouco sobre esse no empecilho do quelônio dourado. […]

  6. Andrea disse:

    Estou de acordo com o Luiz. Também acho que seria interessante que os jurados tivessem seus nomes divulgados. É uma pena que o Jabuti tenha se envolvido em tantas polêmicas nos últimos anos, mas o curador deve rever o modelo de juri e pensar em uma forma melhor de avialiação. Do jeito que está não pode ficar.

  7. Roberto Teixeira disse:

    A princípio, acho positivo os prêmios não irem parar sempre nas mãos dos medalhões ou apenas daqueles que publicam em grandes editoras, já que isso não determina, necessariamente, qualidade literária. A razão está que os critérios de avaliação nem sempre atendem àquilo que se convencionou, através da tradição, da experiência e do bom gosto, considerar como boa literatura. Hoje em dia, infelizmente, como qualquer negócio, se está atento mais à demanda de mercado do que a qualquer outra coisa. Muitos elogiam (editores inclusive), rendem graças a alguns mestres do passado, mas acho pouco provável que algum desses editores se ariscasse a públicá-los, se fosse o caso, pela primeira vez. Faulkner, Kafka, Proust, Joyce, Bckett, para ficar apenas nestes mestres, teriam uma dificuldade imensa de publicar seus escritos. Então os prêmios, como o Jabuti (desde que isentos) podem fazer justiça a algum escritor que, em função de seu talento e originalidade e, logo, com escassas chances de inserção mercadológica, possa ser reconhecido. E, pensando bem, os prêmios deveriam existir justamente para isso.

  8. Tuca disse:

    E, pelo jeito, vai terminar a rodada de premiações das quais o “Diário da queda” pode participar e nada. Uma lástima. Eu, sinceramente, ri quando li a lista dos indicados a melhor romance. Gostei de ficar sabendo da comoção nas redes sociais; não vi nada em minhas timelines, mas gostaria de ter visto.
    *
    Concordo com a opinião de Schroeder, exposta no primeiro comentário ao post.
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    Por fim, não havendo Laub na lista desse prêmio, fiquei feliz por o prêmio não ter ido para um dos nomes óbvios — óbvios não por terem se destacado no último ano; óbvios por serem antigos e dispensarem escrutínio maior. Foi muito interessante ser surpreendido com o vencedor e ter a oportunidade de rir a valer com as presepadas proferidas por Ana Maria Machado à Folha, agindo com a “verdadeira” vencedora do prêmio, tal como a editora reclamona em ano anterior fez o Edney Silvestre parecer. Espero que a literatura dela seja muito melhor do que suas declarações públicas, porque se for de nível semelhante, o Jabuti anda mal de indicados…

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